Portal da Educao Adventista

*Educ' arte - Prof.ª Séulima*

13

set
2011

Eu Me Pergunto Por Que As Coisas São Como São

Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr. Reynolds, meu professor de Inglês, entregou a cada aluno uma lista de pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou um dever de redação baseado num daqueles pensamentos.

Com dezessete anos, eu estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a declaração: "Eu me pergunto por que as coisas são como são."

Naquela noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma.

Quando entreguei o trabalho, estava com medo de me sair mal porque não tinha dado uma resposta à questão "Eu me pergunto por que as coisas são como são". Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.

No dia seguinte, o Sr. Reynolds me chamou junto ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos. Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio quando comecei a ler:

"Mamãe, papai... por quê?
Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe, por que a grama é verde e o céu é azul. Por que a aranha tem uma teia e não uma casa? Papai, por que eu não posso brincar com sua caixa de ferramentas? Professor, por que eu tenho que ler?
Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos ficam. Mamãe, por que você me odeia?

Papai, por que as outras crianças não gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?

Mamãe, por que tenho que me formar? Papai, por que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora? Mamãe, por que você não escreve com mais freqüência?

Papai, por que tenho saudades dos meus velhos amigos? Papai, por que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe, por que é tão difícil fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?

Papai, por que meu coração dispara quando ele olha nos meus olhos? Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz dele? Mamãe, por que estar apaixonada é a melhor sensação do mundo"?

Papai, por que você não gosta de ser chamado de "vovô"? Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se agarram com tanta força aos meus?

Mamãe, por que eles têm que crescer? Papai, por que eles têm que ir embora? Por que eu tenho que ser chamada de "vovó"? Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso de vocês.

Por que a minha juventude passou por mim? Por que meu rasto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos tremem quando me abaixo para pegar uma flor? Por que, Deus, as rosas são vermelhas?"


Quando terminei minha história, meus olhos se encontraram com os olhos do Sr. Reynolds e eu vi uma lágrima correndo lentamente no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.

(Christer Carter Koski)

 

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13

set
2011

Andando de Trenó

Um dia, no começo de dezembro, acordamos para descobrir uma neve perfeita, recém caída.

- Por favor, mamãe, podemos andar de trenó antes do café da manhã? - implorou minha filha Érica, de onze anos de idade.

Quem poderia resistir? Então vestimos os casacos e nos dirigimos para a represa no campo de golfe de Lincoln Park, o único morro em nossa cidade.

Quando chegamos, o morro estava formigando de gente. Achamos um espaço perto de um homem alto e magro e de seu filho de três anos. O garoto já estava deitado de barriga para baixo, esperando para ser empurrado.

- Vamos lá, papai! Vamos lá!
- Por favor - eu disse. - Parece que seu filho já está pronto para ir.

Dito isto, ele deu um forte empurrão e lá se foi o menino! Mas não foi apenas o garoto que voou - o pai saiu correndo atrás dele a toda velocidade.

- Ele deve estar com medo que seu filho se choque contra alguém - eu disse para Érica. - É melhor nós também tomarmos cuidado.

Assim, lançamos nosso próprio trenó e descemos o morro zunindo, em grande velocidade, a neve solta voando em nossos rostos. Tivemos que nos arremessar para não batermos em uma grande pedra perto do rio e acabamos deitadas de costas, rindo.

- Ótima corrida! - eu disse.
- Mas temos que andar muito para voltar! - observou Érica. Com certeza, era uma longa caminhada. Enquanto lutávamos para chegar ao topo, percebi que o homem magro estava empurrando seu filho, que ainda se encontrava no trenó, de volta ao topo.

- Isso é que é serviço! - disse Érica. - Será que você faria o mesmo por mim?

Eu já estava sem ar.

- Nem pensar, garota! Continue andando!

Quando finalmente chegamos ao topo, o garotinho estava pronto para brincar novamente. - Vai, vai, vai, papai! - ele gritou.

Mais uma vez o pai reuniu todas as suas energias para dar um grande empurrão no trenó, correu atrás dele morro abaixo e então puxou o trenó e o menino de volta para cima.

Isso se repetiu por mais de uma hora. Mesmo com Érica andando sozinha, eu estava exausta. A essa altura, a multidão no morro havia diminuído, pois as pessoas voltavam para casa para almoçar. Finalmente, restavam apenas o homem e seu filho, Érica e eu e um punhado de outras pessoas.

"Ele não pode continuar achando que o menino vai colidir com alguém. E, com certeza, apesar de ser um menino pequeno, ele poderia puxar seu próprio trenó morro acima de vez em quando" - pensei. Mas o homem nunca se cansava e seu comportamento era alegre e jovial.

Finalmente, não agüentei mais. Olhei de cima do morro para ele e gritei:

- Você tem uma tremenda energia! O homem olhou para mim e sorriu.
- Ele tem paralisia cerebral - ele disse de forma natural. Não pode andar.

Fiquei atônita. Então percebi que não havia visto o menino descer do trenó durante todo o tempo que estivéramos no morro. Tudo parecia tão alegre, tão normal, que não me ocorrera que o menino poderia ser deficiente.

Ainda que eu não soubesse o nome do homem, contei a história em minha coluna no jornal na semana seguinte. Ele, ou alguém que o conhecia, deve ter reconhecido a história, pois, pouco tempo depois, recebi esta carta:

"Cara Sra. Silverman,
A energia que gastei no morro naquele dia não é nada comparada ao que o meu filho faz todos os dias. Para mim, ele é um verdadeiro herói e algum dia espero ser metade do homem que ele já se tornou".

(Robin L. Silverman)

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13

set
2011

O Balão de Benny

Benny tinha setenta anos quando morreu subitamente de câncer, em Wilmette, Illinois. Como sua neta de dez anos, Rachel, nunca teve a oportunidade de dizer adeus, ela chorou durante vários dias. Mas depois de receber um grande balão vermelho em uma festa de aniversário, voltou para casa com uma idéia - uma carta para o vovô Benny, enviada para o Céu em seu balão.

A mãe de Rachel não teve coragem de dizer não e observou com lágrimas nos olhos o frágil balão subir por entre as árvores que cercavam o jardim e desaparecer.

Dois meses depois, Rachel recebeu esta carta com carimbo do correio de uma cidade a 900 quilômetros de distância, na Pensilvânia:

"Querida Rachel, Vovô Benny recebeu a sua carta. Ele realmente a adorou. Por favor, entenda que coisas materiais não podem ficar no Céu, por isso tiveram que mandar o balão de volta para a Terra - eles só guardam os pensamentos, as lembranças, o amor e coisas desse tipo no Céu.

Rachel, sempre que você pensar no vovô Benny, ele saberá e estará muito perto, com um amor enorme por você.
Sinceramente, Bob Anderson (também um vovô)."


(Michael Cody)

 





História 10



Presentes do Coração

"O amor que damos é o único amor que guardamos." (Elbert Hubbard)


Neste mundo agitado em que vivemos é tão mais fácil pagar alguma coisa com cartão de crédito do que dar um presente vindo do coração.

E presentes do coração são especialmente necessários na época de Natal.

Há alguns anos, comecei a preparar meus filhos para o fato de que o Natal daquele ano seria modesto. A resposta deles foi: "Tá, mãe, já ouvimos isso antes!"

Eu havia perdido a credibilidade porque dissera a mesma coisa a eles no ano anterior, quando estava passando pelo divórcio. Mas daquela vez eu saíra e usara o limite de todos os cartões de crédito. Havia encontrado até mesmo algumas formas de financiamento criativas para pagar os presentes de Natal. Este ano, com certeza, seria diferente, mas eles não estavam acreditando.

Uma semana antes do Natal, perguntei a mim mesma: "O que eu tenho que pode tornar este Natal especial?" Em todas as casas em que havíamos morado antes do divórcio eu tinha arrumado tempo para ser decoradora. Tinha aprendido a colocar papel de parede, azulejos e placas de madeira, fazer cortinas a partir de lençóis e muito mais. Mas nesta casa alugada eu tinha pouco tempo para decorar e muito menos dinheiro.

Além do mais, estava zangada com esse lugar feio, com seus carpetes vermelhos e abóbora e paredes verdes e azul-turquesa. Recusava-me a gastar dinheiro com ele. Dentro de mim a voz do orgulho ferido gritava: "Nós não vamos ficar aqui tanto tempo assim!"

Ninguém mais parecia se incomodar com a casa a não ser minha filha Lisa, que sempre havia tentado transformar seu quarto em seu lugar especial.

Era hora de mostrar meus talentos. Liguei para meu ex-marido e pedi que comprasse uma colcha específica para a cama de Lisa. Em seguida, comprei os lençóis combinando. Na véspera de Natal, gastei quinze dólares com um galão de tinta. Também comprei papel de carta, o mais bonito que jamais tinha visto. Meu objetivo era simples: iria pintar e costurar e me manter ocupada até a manhã de Natal, para não ter tempo de sentir pena de mim mesma em um feriado familiar tão especial.

Naquela noite, dei a cada uma das crianças três folhas de papel de carta com envelopes. No alto de cada página estavam as palavras: "O que eu amo a respeito de minha irmã Mia", "O que eu amo a respeito de meu irmão Kris", "O que eu amo a respeito de minha irmã Lisa", "O que eu amo a respeito de meu irmão Erik".

As crianças estavam com idades entre oito e dezesseis anos e tive que convencê-las de que bastava encontrar uma coisa só de que gostassem a respeito uns dos outros. Enquanto escreviam cada uma no seu canto, fui para o meu quarto e embrulhei os poucos presentes que havia comprado.

Quando voltei para a cozinha, meus filhos haviam terminado suas cartas uns para os outros. Cada nome estava escrito do lado de fora do envelope. Trocamos abraços e beijos de boa-noite e eles foram para a cama. Lisa recebeu permissão especial para dormir na minha cama, prometendo não espiar até a manhã de Natal.

Então comecei. Nas primeiras horas da manhã de Natal terminei as cortinas, pintei as paredes e dei um passo atrás para admirar minha obra-prima. "Espere, por que não colocar um arco-íris e nuvens nas paredes para combinar com os lençóis?" Aí entraram em ação minhas esponjas e pincéis de maquiagem e, às 5 horas da manhã, eu havia terminado.

Exausta demais para pensar que o meu era "um lar desfeito", como diziam as estatísticas, fui para o quarto e encontrei Lisa esparramada na minha cama. Decidi que não podia dormir com braços e pernas em cima de mim, então levantei-a delicadamente e levei-a, pé ante pé, até seu quarto. Enquanto colocava sua cabeça no travesseiro, ela disse:

- Mamãe, já é de manhã?
- Não, querida, fique de olhos fechados até o Papai Noel chegar.

Acordei naquela manhã com um alegre sussurro no meu ouvido.

- Uau, mamãe, é lindo!

Mais tarde, todos nós levantamos e sentamos em volta da árvore e abrimos os poucos presentes que eu havia comprado. Depois, as crianças receberam seus três envelopes.

Lemos as palavras com os olhos marejados e os narizes vermelhos. Até chegarmos aos bilhetes para o "bebê da família". Erik, com oito anos, não esperava ouvir nada de bom. Seu irmão havia escrito: O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele não tem medo de nada." Mia havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele consegue falar com qualquer pessoa!" Lisa havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele pode subir em árvores mais alto do que qualquer um!"

Senti um leve puxão na manga da camisa, uma mãozinha fez uma concha em volta da minha orelha e Erik sussurrou:
- Puxa, mamãe, eu nem sabia que eles gostavam de mim!

Nos piores momentos, a criatividade e o engenho nos deram o melhor momento. Hoje estou recuperada financeiramente e já tivemos vários Natais "grandes", com muitos presentes embaixo da árvore. Mas quando nos perguntam qual é o nosso Natal favorito, todos nos lembramos daquele.

(Sheryl Nicholson)


 





História 11


A Gardênia Branca


Todos os anos, no dia do meu aniversário, desde que completei doze anos, uma gardênia branca me era entregue anonimamente em casa. Não havia nunca um cartão ou um bilhete e os telefonemas para o florista eram em vão, pois a compra era sempre feita em dinheiro vivo.

Depois de algum tempo, parei de tentar descobrir a identidade do remetente. Apenas me deleitava com a beleza e o perfume estonteante daquela única flor, mágica e perfeita, aninhada em camadas de papel de seda cor-de-rosa.

Porém nunca parei de imaginar quem poderia ser o remetente. Alguns de meus momentos mais felizes eram passados sonhando acordada com alguém maravilhoso e excitante, mas tímido ou excêntrico demais para revelar sua identidade.

Durante a adolescência, foi divertido especular que o remetente
seria um garoto por quem eu estivesse apaixonada, ou mesmo alguém que eu não conhecia e que havia me notado.

Minha mãe freqüentemente alimentava as minhas especulações. Ela me perguntava se havia alguém a quem eu tivesse feito uma gentileza especial e que poderia estar demonstrando anonimamente seu apreço.

Fez com que eu lembrasse das vezes em que estava andando de bicicleta e nossa vizinha chegara com o carro cheio de compras e crianças. Eu sempre a ajudava a descarregar o carro e cuidava que as crianças não corressem para a rua. Ou talvez o misterioso remetente fosse o senhor que morava do outro lado da rua. No inverno, muitas vezes eu lhe levava sua correspondência para que ele não tivesse que se aventurar nos degraus escorregadios.

Minha mãe fez o que pôde para estimular minha imaginação a respeito da gardênia.

Ela queria que seus filhos fossem criativos.

Também queria que nos sentíssemos amados e queridos, não apenas por ela, mas pelo mundo como um todo.

Quando estava com dezessete anos, um rapaz partiu meu coração. Na noite em que me ligou pela última vez, chorei até pegar no sono. Quando acordei de manhã havia uma mensagem escrita com batom vermelho no meu espelho: "Alegre-se, quando semideuses se vão, os deuses vêm."

Pensei a respeito daquela citação de Emerson durante muito tempo e a deixei onde minha mãe a havia escrito até meu coração sarar. Quando finalmente fui buscar o limpa-vidros, minha mãe soube que estava tudo bem novamente.

Mas houve certas feridas que minha mãe não pôde curar. Um mês antes de minha formatura no segundo grau, meu pai morreu subitamente de enfarte. Meus sentimentos variavam de dor a abandono, medo, desconfiança e raiva avassaladora por meu pai estar perdendo alguns dos acontecimentos mais importantes da minha vida.

Perdi totalmente o interesse em minha formatura que se aproximava, na peça de teatro da turma dos formandos e no baile de formatura - eventos para os quais eu havia trabalhado e que esperava com ansiedade. Pensei até mesmo em entrar em uma faculdade local, ao invés de ir para outro estado como havia planejado, pois me sentiria mais segura.

Minha mãe, em meio à sua própria dor, não queria de forma alguma que eu faltasse a nenhuma dessas coisas. Um dia antes de meu pai morrer, eu e ela tínhamos ido comprar um vestido para o baile e havíamos encontrado um, espetacular - metros e metros de musselina estampada em vermelho, branco e azul.

Ao experimentá-lo, me senti como Scarlett O'Hara em O Vento Levou... Mas não era do tamanho certo e, quando meu pai morreu no dia seguinte, esqueci totalmente do vestido.

Minha mãe, não. Na véspera do baile, encontrei o vestido esperando por mim - no tamanho certo. Estava estendido majestosamente sobre o sofá da sala, apresentado para mim de maneira artística e amorosa. Eu podia não me importar em ter um vestido novo, mas minha mãe se importava.

Ela estava atenta à imagem que seus filhos tinham de si mesmos.

Imbuiu-nos com uma sensação de mágica do mundo e nos deu a habilidade de ver a beleza mesmo em meio à adversidade.

Na verdade, minha mãe queria que seus filhos se vissem como a gardênia - graciosos, fortes, perfeitos, com uma aura de mágica e talvez um pouco de mistério.

Minha mãe morreu quando eu estava com vinte e dois anos, apenas dez dias depois de meu casamento. Este foi o ano em que parei de receber gardênias.

(Martha Arons)

 


 



História 12



Palavras do Coração


"As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são por palavras não ditas e atos não realizados." (Harriet Beecher Stowe)

A maioria das pessoas precisa ouvir alguém dizer "eu te amo". E há vezes em que ouve bem a tempo.

Conheci Connie no dia em que foi admitida na ala do sanatório onde eu trabalhava como voluntária. Seu marido, Bill, ficou por perto, nervoso, enquanto ela era transferida da maca para o leito de hospital. Ainda que Connie estivesse no estágio final de sua luta contra o câncer, estava alerta e animada. Nós a acomodamos. Terminei de marcar seu nome em todos os suprimentos de hospital que ela usaria e perguntei se precisava de alguma coisa.

- Oh, sim - disse -, será que você poderia me mostrar como usar a televisão? Gosto tanto de novelas, que não quero perder o que está acontecendo.

Connie era uma romântica. Adorava novelas de TV histórias românticas e filmes com uma boa história de amor.

Conforme fomos nos conhecendo, ela me confidenciou o quanto era frustrante ser casada há trinta e dois anos com um homem que freqüentemente a chamava de "boba".

- Ah, eu sei que o Bill me ama - disse -, mas ele nunca foi capaz de me dizer que me ama, ou de mandar cartões.

Suspirou e olhou através da janela para as árvores no jardim.

- Faria qualquer coisa para ele falar "Eu te amo", mas simplesmente não é do seu feitio.

Bill visitava Connie todos os dias. No começo, sentava-se ao lado da cama enquanto ela assistia às novelas. Depois, quando ela começou a dormir mais, ele andava de um lado para o outro no corredor do lado de fora do quarto.

Logo, quando ela não via mais televisão e passava períodos menores acordada, comecei a passar a maior parte do meu tempo como voluntária com Bill.

Ele falava de quando trabalhava como carpinteiro e de como gostava de pescar. Ele e Connie não tinham filhos, mas aproveitavam a aposentadoria viajando, até que Connie ficou doente. Bill não conseguia expressar o que sentia sobre o fato de sua esposa estar morrendo.

Um dia, depois de tomar café na lanchonete, puxei uma conversa com ele a respeito de mulheres e de como precisamos de romance em nossas vidas, como adoramos receber cartões sentimentais e cartas de amor.

- Você diz a Connie que a ama? - perguntei (sabendo a resposta), e ele me olhou como se eu fosse louca.
- Não preciso - disse. - Ela sabe que a amo!
- Tenho certeza de que ela sabe - falei inclinando-me e tocando suas mãos ásperas de carpinteiro que seguravam a xícara como se fosse a única coisa à qual ele pudesse se agarrar. Mas ela precisa ouvir, Bill. Ela precisa ouvir o que significou para você durante todos esses anos. Por favor, pense nisso.

Voltamos para o quarto de Connie. Bill desapareceu lá dentro e eu fui visitar outro paciente. Mais tarde, vi Bill sentado ao lado da cama. Ele segurava a mão de Connie enquanto ela dormia. Era o dia 12 de fevereiro.

Dois dias depois eu estava andando pela ala do sanatório ao meio-dia. Lá estava Bill, apoiado contra a parede do corredor, olhando para o chão. Eu já soubera, através da enfermeira-chefe, que Connie morrera às 11 horas.

Quando Bill me viu, permitiu que eu o abraçasse por um longo tempo. Seu rosto estava molhado de lágrimas e ele estava tremendo. Finalmente encostou-se de novo na parede e respirou fundo.

- Tenho que dizer algo - falou. - Tenho que dizer como me sinto bem por ter dito a ela. - Ele parou para assoar o nariz. Pensei muito a respeito do que você me disse e, esta manhã, falei para ela o quanto a amava e como era maravilhoso estar casado com ela.

Você deveria ter visto seu sorriso!

Entrei no quarto para me despedir pessoalmente de Connie. Lá, na mesa-de-cabeceira, estava um grande cartão de Dia dos Namorados que Bill lhe dera. Você sabe, do tipo sentimental, que diz:

"Para minha esposa maravilhosa...
Eu te amo."

(Bobbie Lippman)

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13

set
2011

O Quanto Progredimos

"As mulheres são como saquinhos de chá: não se sabe sua força até serem jogadas em água quente." (Eleanor Roosevelt)

Em 1996, a maioria de nós, mulheres, está solidamente engajada em formar grupos de apoio e ajudar umas às outras da mesma forma que os homens têm feito há décadas - uma situação muito mais amigável para as mulheres do que era há cinqüenta anos.

Sempre que fico complacente a esse respeito, penso em minha mãe - e imagino se eu teria sobrevivido ao que ela passou na época.

Por volta de 1946, quando minha mãe, Mary Silver, já estava casada com Walter Johnson por quase sete anos, ela era mãe de quatro crianças ativas e barulhentas.

Sei pouca coisa a respeito da vida dos meus pais nesta época, mas, tendo eu mesma criado duas crianças em alguns lugares remotos do país, posso imaginar como foi, especialmente para minha mãe. Com quatro crianças pequenas, um marido cujo senso de obrigação ia até trazer dinheiro para casa e cortar o gramado, sem vizinhos e praticamente nenhuma oportunidade de fazer amigos próprios, ela literalmente não tinha onde dar vazão às grandes pressões que deveriam se acumular dentro dela.

Por algum motivo, meu pai decidiu que ela estava "se perdendo". É um mistério para mim imaginar como ela poderia ter conseguido tempo e alguém para encontrar, quanto mais para "se perder", já que nós quatro estávamos constantemente no meio do caminho. Mas meu pai já decidira, e ponto final.

Numa manhã de um dia de primavera em 1946, minha mãe saiu de casa para comprar leite para o bebê. Quando voltou, meu pai estava na janela do andar de cima com um revólver. Ele disse:

- Mary, se você tentar entrar nesta casa, vou atirar nos seus filhos.

Foi assim que ele lhe disse que estava entrando com um pedido de divórcio.

Foi a última vez que minha mãe viu aquela casa. Foi forçada a ir embora apenas com a roupa do corpo e o dinheiro que tinha na bolsa - e uma garrafa de leite.

Hoje em dia, ela provavelmente teria opções: um abrigo local, um 0800 para o qual pudesse telefonar, um grupo de amigas que teria feito através de um emprego de meio expediente ou de tempo integral. Teria um talão de cheques e cartões de crédito no bolso. E poderia voltar, sem constrangimento, para sua família.

Porém, em 1946, ela não tinha nada disso. As pessoas casadas simplesmente não se divorciavam. Portanto, lá estava ela - completamente sozinha. Meu pai conseguiu até virar o pai dela contra ela. Agora, meu avô proibira minha avó de falar com sua filha quando ela mais precisava.

Em algum momento, antes de entrar com o processo no tribunal, meu pai a contatou e disse:

- Olhe, Mary, eu não quero realmente um divórcio. Só fiz isso para lhe ensinar uma lição.

Mas minha mãe podia ver que, por pior que fosse sua situação, era preferível a voltar para meu pai e deixar que ele nos criasse. Então respondeu:

- Nem pensar. Cheguei até aqui, não vou voltar atrás.

Para onde ela poderia ir? Não podia ir para casa. Não podia permanecer ali em Amherst: em primeiro lugar, porque sabia que ninguém a hospedaria; em segundo, porque, com o retorno dos recrutas, não haveria esperança de trabalho para ela; e, finalmente e mais importante, porque meu pai estava lá. Então embarcou em um ônibus para o único lugar que reservava uma chance para ela - a cidade de Nova York.

Minha mãe tinha uma vantagem: era letrada e tinha um diploma de Matemática, da Universidade Mt. Hollyoke. Porém, fizera o caminho habitual das mulheres nos anos 30 e 40: fora diretamente do segundo grau para a faculdade e daí para o casamento. Ela não fazia idéia de como arrumar um emprego e sustentar a si mesma.

A cidade de Nova York tinha várias coisas a seu favor: ficava a apenas 320 quilômetros; portanto, podia pagar a passagem de ônibus. E era uma cidade grande; portanto, tinha que haver um emprego escondido em algum lugar. Ela positivamente tinha que encontrar uma maneira de sustentar a nós quatro.

Assim que chegou a Nova York, localizou uma Associação Cristã de Moços, onde podia ficar por apenas um dólar e meio por noite. Havia uma loja perto, onde, por cerca de um dólar por dia, comia sanduíches de salada de ovo e café. Em seguida, começou a correr as ruas.

Durante vários dias, que se tornaram várias semanas, não encontrou nada: não havia empregos para diplomados em Matemática, homens ou mulheres, nenhum trabalho para mulheres.

Todas as noites ela voltava para a Associação, lavava a roupa de baixo e a blusa branca, colocava-as para secar e de manhã usava o ferro e a tábua de passar da Associação para tirar as marcas da blusa.

Esses itens, junto com uma saia de flanela cinza, constituíam todo o seu guarda-roupa. Cuidar deles ocupava uma parte das longas noites que enfrentava sozinha na Associação. Sem livros, nem uma moedinha a mais para comprar jornal, sem telefone (e ninguém para quem ligar, se tivesse um) e sem rádio, a não ser no andar de baixo (onde a lista dos convidados da Associação era de certa forma assustadora), as noites devem ter sido realmente horríveis.

Previsivelmente, seu dinheiro minguou, assim como a lista de agências de emprego. Finalmente, em uma quinta-feira, chegou a vez da última agência de empregos da cidade, com menos no bolso do que precisava para pagar o abrigo naquela noite. Ela fez muito esforço para não pensar em passar a noite nas ruas.

Subiu penosamente vários lances de escada para chegar à agência, preencheu os formulários obrigatórios e, quando chegou sua vez de ser entrevistada, preparou-se para as más notícias. "Sentimos muito, mas não temos nada para a senhora. Quase não temos empregos suficientes para os homens que temos que colocar." Pois é claro que os homens tinham prioridade em relação a qualquer emprego disponível.

Minha mãe não sentiu nada quando se levantou da cadeira e se dirigiu para a porta. Entorpecida como estava, havia quase atravessado a porta quando percebeu que a mulher resmungara alguma outra coisa.

- Desculpe, não ouvi. O que a senhora disse? - perguntou. - Bem, sempre há George B. Buck, mas ninguém quer esse emprego. Ninguém fica muito tempo - a mulher repetiu, apontando com a cabeça para uma caixa de fichas em cima de um arquivo próximo.

- O que é? Conte-me a respeito - disse minha mãe ansiosamente, sentando-se com as costas apoiadas no encosto da cadeira de madeira. - Faço qualquer coisa.

Quando começo? Bem, é um emprego de contador, para o qual a senhora está qualificada, mas o salário não é bom e tenho certeza de que não gostaria - disse a agente, retirando a ficha relevante do fichário. Vamos ver, diz aqui que a senhora pode começar quando quiser. Suponho que isto signifique que poderá ir lá agora. Ainda é cedo.

Minha mãe contou que literalmente arrancou o cartão das mãos da agente e correu escada abaixo. Nem mesmo parou para tomar fôlego enquanto corria os vários quarteirões até o endereço escrito no cartão.

Quando se apresentou para o surpreso gerente de pessoal, ele decidiu que, sem dúvida, ela podia começar a trabalhar naquela manhã mesmo se quisesse, pois havia muito trabalho a ser feito. E era quinta-feira, dia de pagamento.

Naquele tempo, a maioria das empresas pagava seus empregados em dinheiro vivo pelo tempo trabalhado, incluindo o próprio dia de pagamento - portanto, miraculosamente, quando eram cinco horas, ela recebeu dinheiro vivo pelas cinco horas que trabalhara naquele dia. Não era muito, mas deu para que ela chegasse até a quinta-feira seguinte, depois à outra e assim por diante.

Mary Silver Johnson permaneceu em George B. Buck & Companhia por 38 anos, subindo para um cargo de grande respeito dentro da firma. Lembro-me de que ela tinha um escritório de esquina - o que não é pouca coisa no centro de Manhattan.

Depois de trabalhar lá por dez anos, ela foi capaz de nos comprar uma casa no subúrbio de Nova Jersey, a meia quadra de distância do ônibus para a cidade.

Hoje em dia, uma em cada duas casas parece ser comandada por uma mãe solteira e é fácil esquecer que já houve um tempo em que este tipo de vida era impensável.

Sinto-me tão humilde ao refletir sobre as realizações de minha mãe quanto orgulhosa o suficiente para estourar os botões da camisa!

Se cheguei até aqui, meu bem, foi porque fui carregada em grande parte pelos esforços de muitas, muitas outras mulheres antes de mim - com esta mulher admirável, minha mãe, liderando o caminho.

(Pat Bonney Sheperd)


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13

set
2011

O Poder do Perdão

Se você for paciente em um momento de raiva, irá escapar de cem anos de arrependimento." (Provérbio chinês)

Em 1974, voltando da escola para casa no último dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar.

A algumas portas de distância de minha casa, em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, concordei em ir com ele.

O que eu não sabia era que este homem tinha ressentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.

Após eu ter concordado em acompanhá-lo, ele dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com
um furador de gelo. Então dirigiu para Oeste, até Florida Everglades, levou-me até o meio dos arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.

Felizmente a bala havia passado por trás de meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral. Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por um homem que parou para me ajudar.

Duas semanas depois descrevi a pessoa que me atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante como o homem que me atacara.

Meu agressor foi preso, junto com outros suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não pude identificá-lo. Infelizmente a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.

O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos, voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.

Durante os três anos seguintes, vivi com uma extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé da cama de meus pais.

Então, quando eu estava com treze anos, tudo isso mudou. Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade.

Casei-me com minha maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e Melodee. Em setembro de 1996, o major Charles Scherer, do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com setenta e sete anos de idade, finalmente confessara.

Cego por causa do glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no norte de Miami Beach.

Fui visitá-lo. A primeira vez em que fui visitá-lo ele se desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado.

Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas, oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à sua morte.

Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte e dois anos de arrependimento.

Sei que o mundo pode me ver como a vítima de uma horrível tragédia, mas eu me considero a "vítima" de muitos milagres. O fato de eu estar vivo e não ter nenhuma deficiência mental desafia as probabilidades.

Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas dádivas quanto qualquer outra pessoa - e amplas oportunidades. Fui abençoado de várias maneiras.

E enquanto muitas pessoas não conseguem entender como pude perdoá-lo, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-lo todos esses anos, ou passar a vida procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje - o homem que minha mulher e filhas amam.

(Chris Carrier, entregue por Katy McNamara)

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