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*Ciências da Natureza*

3

nov
2012

Do esgoto para o caramujo

O pescador André Severino dos Santos, 33 anos, herdou o mal que matou o pai dele há sete meses. Não é congênito, mas pode se multiplicar em família quando a exposição é repetida de geração em geração. André e o pai são vítimas da esquistossomose, provavelmente introduzida no Brasil com o tráfico de escravos africanos, e que encontrou vida longa em alagados e barrigas pernambucanas. O Estado é campeão brasileiro em mortes pela doença. Sinal de uma boa vigilância, que não deixa escapar um só registro? Nem tanto. Más condições sanitárias se perpetuam em pleno desenvolvimento econômico.

De 1950, quando foi realizado o primeiro inquérito nacional sobre a doença, até hoje, a paisagem mudou um pouco, com casas de alvenaria, energia elétrica, internet e água encanada. Mas a rede de distribuição não chega a todos e a coleta e tratamento de esgoto, por onde deveriam escorrer fezes infectadas, é coisa rara. Na Zona da Mata, Litoral e até em comunidades da metropolitana Jaboatão dos Guararapes, há famílias sem torneira ou banheiro. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz constataram nas últimas duas décadas o Shistossoma mansoni em caramujos de água doce e nas fezes de moradores em toda essa extensão, inclusive no Recife.

Por mês, o principal serviço de referência, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco admite oito novos doentes crônicos, com a forma grave da doença parasitária, etapa na qual o verme já provocou estragos quase irreparáveis, dilatando vasos do esôfago, matando por hemorragia digestiva. No Hospital da Restauração, também chegam crianças e adultos com lesões no sistema nervoso. E no Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco (Procape) chama a atenção a hipertensão pulmonar pela esquistossomose. Não há só amarelos e com barriga d'água. A esquistossomose ganhou outras feições.

 

Barriga d'água e até paralisia

A presença da esquistossomose entre as gerações é visível nas pesquisas, nas lembranças de quem sobreviveu à doença e dos que permanecem expostos a ela. Embora não tenha concluído o novo inquérito nacional sobre a endemia, a bióloga Constança Simões Barbosa, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco, comprova em seus recentes estudos a sobrevivência do verme na Zona da Mata e sua franca expansão por todo o Litoral. A Lagoa do Náutico, em Jaboatão dos Guararapes, é endereço certo do ciclo interminável homem-esgoto-caramujo-homem, onde o pescador André Severino dos Santos, 33 anos, primeiro personagem dessa matéria, passa a maior parte do tempo. Ele é herdeiro da praga que mata cerca de 200 pernambucanos por ano. Além de ver o pai morrer de hemorragia digestiva por causa do verme, André já carregou o bicho na barriga e não tem como evitar o contato com a água contaminada. Evandro Barros, da mesma geração, residente em Gameleira, Zona da Mata Sul do Estado, está com 35 anos e desde os 18 perdeu o movimento das pernas porque o xistossomo se alojou na sua medula.

Jaboatão e Gameleira marcam o início da expedição jornalística. O território vizinho da capital, com a segunda maior população de Pernambuco, e a outra cidade pertencem ao grupo das 108 em que a esquistossomose é endêmica. Na metade do século passado, 86% dos moradores de Gameleira tinham o verme. Em Jaboatão, 52% estavam na mesma situação. Aquela foi a primeira grande pesquisa realizada no Brasil para definir a distribuição da verminose, coordenada por Barca Pellon e Isnard Teixeira, do então Ministério da Educação e Saúde.

A média de positivos, no Estado, foi de 25% e os pesquisadores presumiram, então, que um quarto dos pernambucanos estavam infestados. Foram testadas 50.365 pessoas em idade escolar e 608 de outras faixas etárias. Nada menos que 12.752 tinham o xistossomo. Os trabalhos, dirigidos pelos médicos Lessa de Andrade e Orlando Parahym, não encontraram muita distinção entre sexo, cor e residência rural ou urbana.

Sessenta e um anos depois, o Programa de Enfrentamento das Doenças Negligenciadas da Secretaria de Saúde de Pernambuco encontrou 8.414 infestados, nos municípios endêmicos, num universo de 165.458 exames realizados. São agora 5% positivos para verme índice quatro vezes menor, mas inaceitável. No intervalo de seis décadas, a responsabilidade pelo controle da esquistossomose saiu de mãos federais para municipais. Em vez dos guardas sanitários da Sucam (depois chamada Funasa), foram os agentes de endemias, contratados pelas prefeituras, que passaram a entregar casa a casa potes para coleta de fezes. Mas os resultados dos exames nem sempre chegaram em tempo hábil no endereço certo. E as condições sanitárias não mudaram totalmente. Resultado: muitas famílias só descobrem a esquistossomose pela morte.

1950 Primeiro inquérito nacional da esquistossomose constatou endemia em Pernambuco, que atingia um quarto da população. Riacho das Cascatas, em Jaboatão, era um dos criadouros de caramujos infectados, mostrava o 5º volume das Publicações Avulsas do Centro Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE), em 1956

O pescador André compreendeu há 11 meses, com a morte do pai, o poder devastador da doença. "Para essa lagoa (a do Náutico) ficar livre do xistossomo, é preciso tratar o canal, tirar os esgotos", compreende. Tem medo de entrar nela? "Medo eu tenho, mas vou fazer o quê?", responde, com a responsabilidade de criar três filhos e a mulher, todos dependentes da pesca. Antes, a situação era pior. Há um ano morava às margens do lago e convivia com o caramujo transmissor da doença em tempo integral. Um projeto de ampliação viária na cidade acabou transferindo para outro lugar André e dezenas de moradores.

2012 - Na Zona Rural de Gameleira, Mata Sul de Pernambuco, adolescentes, crianças e adultos se expõem à doença, usando riacho para lavar roupas e tomar banho. Faltam água encanada e banheiros

Não muito distante dali, na localidade de Suvaco da Cobra, famílias retiram água de um cano no meio da rua. "Deixei de pagar a conta. Não chega água todo dia", comenta José Henrique Silva. Num prolongamento da Vila Boa Esperança, denunciam que suas casas nunca foram ligadas à rede de abastecimento, embora muitos vivam por lá há quase 20 anos. "A Compesa não atende nossos apelos", conta Júlia Alves. "Vivemos desprezados", afirma a vizinha. Coleta de esgoto, só quando há fossa no quintal. Numa das casas, Severina Silva conta que o marido Vicente Caboclo de Lima, 72 anos, está na UTI do Hospital Dom Helder Câmara, na cidade vizinha do Cabo de Santo Agostinho. "Ele está muito mal, tem a barriga crescida". Vicente morreu duas semanas depois. O hospital não confirma a esquistossomose. Ele morreu de pneumonite, hepatite C, cirrose hepática. Desde que foi inaugurada, há dois anos, a unidade estadual já internou nove pessoas que tinham a esquistossomose como doença principal. Em outros 31 casos, ela foi citada como enfermidade secundária. Em tese de mestrado pela Fiocruz, o epidemiologista Antônio Leite concluiu no ano passado que é possível fazer o diagnóstico presumível da esquistossomose na presença de doenças associadas a ela.

A hipertensão pulmonar é uma delas. E foi esse mal que fez o jardineiro Aurélio Olímpio Gomes, 45 anos, morador do Cabo de Santo Agostinho, descobrir que é portador do xistossomo. Há 12 anos, andando de bicicleta, passou mal e caiu. Procurou a agente de saúde e foi examinado pelo médico do posto perto de casa. De lá, foi encaminhado ao Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco, onde vez por outra se interna passando mal.

Na cidade de Gameleira, as múltiplas faces da doença também se revelam, como a que deixou Evandro sem andar. O hoje auxiliar de serviços gerais, funcionário público do município, anda com a ajuda de muletas. "Aos 18 anos, deu uma dor forte nas costas. Achava que era problema de coluna. No segundo dia, perdi força nas pernas e caí. No Hospital de Ribeirão (cidade vizinha), o médico me perguntou se eu tinha tomado banho de rio. Suspeitou da esquistossomose". A suspeita confirmou-se no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, onde passou quase dois meses internado. Evandro tomava banho no Rio Sirinhaém e não sabia do risco de contrair a doença. "Só agora sei que o verme se aloja no caramujo e dele passa pra gente. Depois de muita fisioterapia consegui sair da cama", conta.

As lesões neurológicas são raras mas numa região endêmica tornam-se mais comuns, explica a médica Ana Lúcia Coutinho, do Hospital das Clínicas, que se dedica à esquistossomose como fez seu pai, Amaury Coutinho. Por mês, indigna-se a médica, são oito novos casos crônicos admitidos no ambulatório de gastroenterologia da unidade de saúde, depois de uma hemorragia ou de outra complicação séria, descobrindo só assim a condição de portador. No início do século passado, a situação era pior. O diagnóstico da esquistossomose era dado após a morte do paciente, segundo registros da cadeira de anatomia patológica da Faculdade de Medicina do Recife, assinados por outro Coutinho, Aluízio Bezerra, primo de Amaury.

1950 - Inquérito de verminoses realizado por Barca Pellon e Isnard Teixeira mapeou em todo o Estado, dividido em seis regiões, a proporção de escolares de 7 a 14 anos infestados por vermes (ancilostomídeos, xistossomo e helmintos). Destacaram-se a Zona da Mata, Litoral e Agreste.

2005 | 2011 - Mapeamento feito por Constança Simões Barbosa (Fiocruz-PE) sobre caramujos transmissores da esquistossomose no Litoral pernambucano. Quanto mais vermelha a área, maior densidade das espécies da Biomphalaria (glabrata e stranmínea). Losangos amarelos mostram locais onde foram encontrados caramujos infectados.

TRATAMENTO COLETIVO

Sem saneamento básico em grande parte de sua extensão - só pouco mais de um terço dos domicílios estão ligados à rede coletora de esgoto-, não resta outra arma para conter a transmissão da esquistossomose em Pernambuco, a não ser tratar as pessoas infestadas pelo verme. Mas a estratégia defendida pelo Estado, com a conivência do Ministério da Saúde, mal começou e já atrai muitas críticas. "É louvável a intenção, mas existem muitas dificuldades na prática", diz a agente de saúde de Gameleira. Além de temer reações nos moradores sem que haja médico de retaguarda o tempo todo, Lucineide lembra que há uma contradição. Ela tem que orientar a comunidade a só tomar remédio prescrito pelo médico e agora, com o tratamento em massa, tem que convencer as famílias a tomar os comprimidos contra o verme da esquistossomose sem receita e sem comprovação de que a pessoa está infestada.

Gameleira, na Mata Sul, tem 27.912 moradores. O Censo 2010 do IBGE encontrou 545 domicílios sem banheiro e 1.195 abastecidos com poço ou nascente fora da propriedade

Jaboatão dos Guararapes é a segunda cidade mais populosa do Estado, com 649.787 habitantes. Lá, há 79.067 casas com banheiro ligado à fossa rudimentar e 51.169 à rede de esgoto ou pluvial

(ALMEIDA, Verônica. "Do esgoto para o caramujo". JC Online - Expedições sem Fim, 14 ago. 2012. Disponível em: http://especiais.ne10.uol.com.br/expedicoes/esquistossomose.html. Acesso em: 15 ago. 2012.)

 

Responda nos comentários: Por que neste caso o tratamento coletivo é a melhor opção, mesmo sendo contra-indicado pela Organização Mundial da Saúde?

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