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*Ciências da Natureza*

20

mai
2011

Evolução, e agora?

(por Isabel Rebelo Roque)

(...) costumamos ler que, segundo Lamarck, os ancestrais das girafas possuiriam pescoço curto. A necessidade de alcançar as folhas das árvores, principalmente em épocas de escassez de alimento, quando só restavam as folhas mais altas, teria provocado o constante exercício de esticar o pescoço. A característica "pescoço alongado" seria, então, transmitida à descendência. O resultado, após milhares de anos de uso intensivo do pescoço e transmissão da característica à prole, teria sido o que vemos hoje: que as girafas possuem pescoço longo e musculoso.

Em geral, nos livros, é apresentado o contraponto darwiniano a essa explicação: espécimes diferentes nasceriam com comprimentos de pescoço ligeiramente diferentes (variabilidade). Os indivíduos "privilegiados" nesse quesito apresentariam vantagem sobre os demais na hora de alcançar as folhas mais altas. Em épocas de escassez, essa diferença seria decisiva para definir quem sobreviveria e quem não (seleção natural). Os sobreviventes, com a característica "pescoço mais longo" ("de nascença"), conseguiriam transmiti-la à prole.

Belo e didático exemplo, não? Sim. Seria perfeito, não fossem alguns senões. O primeiro deles é que Lamarck jamais deu a esse exemplo o destaque que ele tem recebido há quase duzentos anos.

Tentando achar o fio da meada

O estranho caminho seguido pelo exemplo da elongação do pescoço da girafa -- de um mero parágrafo escrito por Lamarck, até sua transformação em "carro-chefe" da teoria lamarckista -- é examinado em detalhe em um ensaio assinado pelo paleontologista e divulgador científico Stephen Jay Gould, morto recentemente. O ensaio, intitulado "The tallest tale" (uma alusão à expressão "tall tale", história cujos detalhes são difíceis de engolir), foi publicado originalmente na Natural History Magazine, em 1996.

Em seu texto, permeado do humor sarcástico que o caracteriza, Gould tenta retomar o fio da meada. Observa que, na Philosophie zoologique, Lamarck ocupa-se das girafas somente em um parágrafo, dentro de um capítulo em que figuram muitos outros exemplos a que ele possivelmente atribuiu maior importância.

Quanto a Darwin, em sua primeira edição da Origem das espécies (1859) nem faz qualquer referência ao pescoço da girafa, mas sim, em outro contexto, à sua cauda!

Gould especula que o exemplo do pescoço da girafa teria assumido importância na literatura científica graças a St George Mivart, que, em 1871, publicou uma crítica ao darwinismo: The genesis of species, usou esse exemplo em sua argumentação (...)

Na verdade, a importância do tamanho e da robustez do pescoço da girafa não se resume a alcançar ou não as folhas mais altas. Entre os machos, por exemplo, o pescoço é uma importante "arma" usada para garantir a dominação e também a preferência das fêmeas, por meio de verdadeiros duelos nos quais às vezes o perdedor acaba perdendo também a vida.

As girafas têm ainda no comprimento do pescoço uma verdadeira "torre de observação", com a qual podem manter controle sobre a aproximação de predadores, por exemplo. Por si só, esses dois usos do pescoço já constituem, segundo os cientistas, fatores bastante relevantes para a importância de seu comprimento. (...)

 Mais lenha na fogueira

No mesmo ano em que Gould publicou seu artigo (1996), os zoólogos Robert Simmons e Lue Scheepers publicaram, na American Naturalist, o artigo "Winning by a neck: sexual selection in the evolution of giraffe" ("Vencendo por um pescoço: seleção sexual na evolução da girafa"). Nele, a dupla põe mais lenha na fogueira ao afirmar que, durante a estação seca, as girafas alimentam-se dos arbustos, e que é na estação de chuvas que elas se voltam para o alto das acácias, situação em que nenhuma competição é esperada.

Outro aspecto observado por Simmons e Scheepers é que as fêmeas passam metade de seu tempo alimentando-se com o pescoço em posição horizontal (comportamento tão típico que é útil para identificar o sexo do animal à distância). Além disso tudo, ambos os sexos alimentam-se mais frequentemente com o pescoço curvado para baixo. Tudo isso, segundo eles, sugere que o tamanho do pescoço não teria evoluído especificamente em decorrência da busca de alimento em locais mais elevados.

(...)

O caso das "ex-mariposas": desmontando outro exemplo clássico

Em agosto foi lançado nos Estados Unidos o livro Of moths and men, escrito pela jornalista Judith Hooper e já lançado na Inglaterra há alguns meses. Sobre ele, o editor de ciência Nicholas Wade escreveu a resenha "Staple of evolutionary teaching may not be textbook case", na edição de 18 de junho de 2002 do jornal The New York Times.

A publicação do livro de Hooper lança luz sobre um assunto que vinha se mantendo restrito a um determinado círculo: o dos que defendem as idéias criacionistas ou intervencionistas - mais modernamente, os teóricos do "design inteligente".

Nas aulas de ciências e biologia, aprendemos que, por meio de um processo denominado "melanismo industrial", populações de mariposas do gênero Biston, encontradas na região de Manchester, na Inglaterra, sofreram alteração em seu padrão de cor.

Isso teria acontecido mais ou menos assim: antes da Revolução Industrial, os troncos das árvores das florestas habitadas pelas mariposas Biston possuíam grande quantidade de liquens (associação entre algas e fungos), que lhes conferiam cor esbranquiçada. O padrão de cor predominante nas populações dessas mariposas, na época, era claro, e elas facilmente se camuflariam, isto é, se confundiriam com a cor dos liquens, ao repousar sobre os troncos. A camuflagem é um importante recurso de sobrevivência em certas espécies: confundindo-se com o ambiente, o risco de ser visto pelo predador diminui.

Com o advento das indústrias, a partir de 1850, o ar, carregado de fuligem e outros poluentes, provocou a morte dos liquens e o escurecimento dos troncos. Como resultado, teria havido uma inversão na vantagem exibida pela cor clara das mariposas: ao repousar sobre troncos escurecidos, elas passariam a ser facilmente visíveis para o predador (nesse caso, determinados pássaros). Com isso, a variedade melânica, isto é, de cor escura, existente em menor número naquelas populações, teria passado a predominar graças à capacidade de passar despercebida ao predador, de se camuflar nos troncos escurecidos.

A partir de 1950, com a criação de leis de controle ambiental à emissão de poluentes, esse padrão novamente se inverteu: troncos com novas populações de liquens, portanto mais claros, passaram a esconder melhor exemplares de mariposas com o padrão de cor clara.

A esse exemplo de melanismo industrial, os livros didáticos costumam acrescentar a descrição de uma série de experimentos realizados pelo biólogo Bernard Kettlewell, da Universidade de Oxford, na década de 1950. Muitas vezes, os livros apresentam fotos com o registro dos experimentos - ou então fotos produzidas com o fim de reproduzir esse registro. Tais fotos mostram exemplares claros e escuros de mariposas Biston repousando sobre troncos de árvores.

O que não se relata nos livros é que, em seus experimentos, Kettlewell coletou exemplares de mariposas com os dois padrões de cor e os liberou em ambientes controlados que apresentavam troncos também com diferentes colorações. Ao recapturar os exemplares sobreviventes, ele teria constatado o que já se esperava: o índice de sobrevivência era diretamente relacionado ao padrão de cor dos troncos.

 

Algo de podre

Tudo estaria perfeito, não fossem, como no caso das girafas, alguns senões. O primeiro deles foi a descoberta de que os experimentos de Kettlewell não transcorreram exatamente daquele modo: houve um certo "empurrãozinho", pois as mariposas não estariam vivas, mas teriam sido coladas aos troncos das árvores. O segundo é que o comportamento das mariposas Biston na natureza não se encaixa tão perfeitamente no modelo descrito. O terceiro é que a relação predomínio de uma cor/grau de poluição ambiental não se manteve como o esperado.

O livro de Hooper não é o primeiro a "devassar" o caso Kettlewell. Há quatro anos foi publicado o livro Melanism: evolution in action, de Michael Majerus, que tratava desse assunto, entre outros. Quem assinou uma resenha sobre ele, intitulada "Not black and white" e publicada na Nature, foi Jerry Coyne, do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Nela, Coyne compara a decepção diante da verdade sobre os experimentos de Kettlewell ao que sentiu quando criança ao saber que Papai Noel não existia...

Coyne comenta que o livro de Majerus é o primeiro a reunir os pontos criticáveis nos experimentos de Kettlewell. O mais grave deles é que as mariposas Biston, em condições naturais, provavelmente não repousam sobre troncos de árvores - em mais de quarenta anos de estudos sobre seus hábitos, somente duas delas foram vistas fazendo isso. O local de preferência continua um mistério, mas acredita-se que seria o alto das copas das árvores.

Só isso, afirma Coyne, bastaria para invalidar os experimentos de Kettlewell, uma vez que as mariposas, colocadas sobre os troncos, tornar-se-iam altamente visíveis a seus predadores, numa condição artificial que forçaria sua predação. Além disso, Kettlewell expôs suas mariposas durante o dia, quando elas geralmente escolhem locais de repouso à noite.

Mas há ainda um fator para comprometer toda a história: na verdade, o novo aumento na ocorrência da variedade clara aconteceu bem antes da recolonização dos troncos pelos liquens, condição que pretensamente favoreceria a camuflagem da variedade no ambiente. E mais: um crescimento e decréscimo da população da forma melânica, isto é, escura, também se deu paralelamente em áreas industriais dos Estados Unidos, onde, entretanto, não houve alteração na incidência de liquens -- o que relativiza bastante o papel destes últimos na história toda.

(...)

Descartar ou não o exemplo?

(...) Em contraste com Jerry Coyne, para quem os detalhes contraditórios de tudo o que envolve a história das mariposas Biston inviabilizam sua utilização pedagógica, Rudge pondera que ela constitui um excelente veículo para introduzir os estudantes no conceito de seleção natural. Ele complementa que expor aos estudantes as discrepâncias envolvidas no assunto poderá ser uma excelente forma de sensibilizá-los para a natureza da ciência como processo.

(fonte: http://www.lainsignia.org/2002/septiembre/cyt_001.htm)

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