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*Ciências da Natureza*

13

fev
2013

ESTUDAR VALE OURO

Pesquisa mostra até onde a escola aumenta a chance de conseguir emprego, multiplica o salário e garante o sucesso na carreira

Alice Granato

Fonte: Revista Veja

Para aqueles que olham para a alta dos juros, ou para o movimento das bolsas de valores, atenção. O melhor investimento de longo prazo que se pode fazer hoje é a educação. Veja o que está acontecendo no Brasil. Com a taxa média de desemprego em 8%, o contingente dos brasileiros que estudaram apenas seis anos enfrenta uma taxa de desemprego maior, de 9%. Entre os que fizeram faculdade, o índice cai para a faixa dos 2%. E, incrível, ele é de apenas 1% entre os pós-graduados. É verdade que existem pessoas que construíram fortunas sem ter ido longe nos bancos escolares. O empreiteiro Sebastião Camargo e o banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, são dois dos exemplos mais conhecidos no Brasil. Para a maioria das pessoas, contudo, estudar é crucial para determinar a posição e o salário que podem conquistar, e isso nunca foi tão verdadeiro quanto agora. A era da informação é implacável: joga para escanteio quem não tem instrução e coloca no ápice quem estuda mais. Exigente e seletivo, o mercado de trabalho está passando por um terremoto. Quer profissionais graduados, que falem inglês, entendam de computador e estejam atentos às mudanças. Todo esse investimento tem retorno certo. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, a pedido de VEJA, traçou um retrato preciso do que está acontecendo hoje no mundo do emprego. Esse levantamento comprova algo que até agora apenas se intuía pelo senso comum: quanto mais estuda, maior é a chance de uma pessoa conseguir emprego, ganhar mais e fazer carreira bem-sucedida  

A análise foi feita com base em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, com 1 milhão de pessoas, entre julho de 1997 e junho deste ano, em seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife). Por ela, verifica-se que as possibilidades de uma pessoa encontrar emprego dependem muito mais do que se imagina de sua escolaridade. O brasileiro que completou apenas o 1º grau ou ainda não concluiu o ensino médio tem chances pouco maiores que as de um analfabeto na hora de buscar colocação. Um entre dez brasileiros com esse nível de escolaridade está sem emprego. O problema se agrava porque nessa faixa estão também os jovens. Eles compõem atualmente o maior grupo etário da população brasileira e estão entrando pela primeira vez no mercado de trabalho. Enquanto isso, os brasileiros mais escolarizados vivem num país que lhes dá quase tanta segurança de firmar-se no emprego quanto os Estados Unidos, o Japão e a Inglaterra %u2014 os países com as mais reduzidas taxas de desemprego do mundo.

No que diz respeito aos salários, os efeitos da educação são ainda mais evidentes. Cada vez que uma pessoa completa uma etapa de estudo, sua remuneração aumenta cerca de 50%. O maior salto se dá com o diploma de um curso superior. De acordo com os dados do Ipea, os profissionais de nível universitário ganham em média 128% mais do que quem fez somente o colegial. Isso não é tudo. Para aqueles que se contentaram com a faculdade, aqui vai uma notícia. Um curso de extensão universitária proporciona no Brasil salários 66% maiores do que os recebidos por quem ficou somente com o bacharelado. Em média, os brasileiros que completaram um curso de pós-graduação ganham 925% mais do que um trabalhador não qualificado. Conclusão: cada ano de estudo representa em média um aumento de 15% no contracheque. "O efeito diploma é o fator mais decisivo na colocação do profissional no mercado de trabalho", diz o economista Marcelo Neri, do IPEA. "A educação é o motor do país, e precisamos investir ainda mais em capital humano."

Abismo educacional %u2014 Esse é o abismo que está na origem da disparidade social no Brasil. Nada menos que 64% dos empregados nem sequer completaram o 1º grau. Em média, os brasileiros têm somente sete anos de escolaridade. Ou seja, não concluíram nem o 1º grau. Ao passo que faltam empregados graduados, a maioria da população ainda é obrigada a sujeitar-se a subempregos, sem carteira assinada ou benefícios trabalhistas e com grande carga horária de trabalho, para ganhar salários muito baixos. Uma boa novidade é que estão acontecendo mudanças mesmo no patamar mais baixo da escala da educação e dos salários, aquele composto pelos analfabetos. Um exemplo é o pedreiro José Orlando de Oliveira e Silva, de São Paulo. Aos 35 anos, analfabeto, ele acorda às 4 e meia da madrugada e só volta para casa às 9 da noite. Estuda na própria obra, dentro de um programa oferecido pela construtora que o emprega, a Método. Está fazendo os primeiros oito meses de curso, um supletivo da 1ª à 4ª série. Silva, que não sabia nem ao menos escrever o nome, está descobrindo o prazer de "ler umas palavrinhas". Recentemente, foi promovido, depois de aprender a fazer serviços de acabamento. Antes, o pedreiro ganhava 380 reais mensais. Agora, recebe 560. "Esse curso está mudando a vida dele", diz a psicopedagoga Ana Luiza Franciscone, de 42 anos, coordenadora educacional da Método. "Os operários estão começando a perceber como o estudo faz diferença em sua vida."

A pesquisa do IPEA mostra que o maior índice de desemprego no Brasil está na faixa dos nove anos de escolaridade. Nela estão profissionais como auxiliares de escritório e bancários. São pessoas que já terminaram o 1º grau, mas ainda não completaram o 2º. Têm qualificação mediana e não precisam mais sujeitar-se ao subemprego dos analfabetos ou pouco escolarizados. Mas ainda não têm grau de especialização necessário para ocupar bons empregos, oferecidos para quem conquistou o diploma universitário ou fez pós-graduação. A prova de que a zona dos empregos intermediários está saturada são as filas na porta das empresas. Há um mês, a rede de lojas de desconto americana Wal-Mart abriu quatro novas lojas oferecendo 500 vagas em cada uma delas. A maior parte era para funções como vendedor, atendente e empacotador. Nos dois primeiros casos, exige-se o 2º grau. No terceiro, somente o 1º. Na Wal-Mart de São Paulo, formou-se uma homérica fila de candidatos, com 25.000 pessoas. Duas semanas mais tarde, em São José dos Campos, no interior paulista, perfilaram-se 10.000 pessoas.

A profissão certa %u2014 Estudar é fundamental, mas deve-se também levar em consideração outro fator: a escolha da profissão. Ela é tão importante quanto a escolaridade. Enquanto existem áreas em declínio, outras estão se abrindo. A área petrolífera, que oferece empregos para profissionais como geólogos, é uma das que estão em expansão no Brasil. Desde que o monopólio estatal desse setor foi quebrado, 58 empresas estrangeiras abriram escritórios no Brasil. É um exemplo de como as profissões sobem ou descem de acordo com as circunstâncias. Nos anos 70, época em que grandes obras como Itaipu estavam em construção, a engenharia civil estava em alta no Brasil. Hoje, com as dificuldades econômicas, está em baixa. A odontologia já fez mais sucesso, numa época em que havia escassez de dentistas no país. Atualmente, o mercado anda meio saturado, embora seja difícil encontrar um dentista desempregado. Isso vale também para médicos. A agronomia, por muito tempo relegada a segundo plano no país em função da crise no campo, tem se tornado um celeiro de empregos com a multiplicação de oportunidades de trabalho.

Escolhida a área, o que se pede hoje no mercado é a alta especialização. Quem estudou bastante e foi além do diploma universitário está no melhor dos mundos. Isso é o que habilita os profissionais para onde está o filé mignon do mercado, como o ramo financeiro. É o caso de Alexandre Saigh, de 31 anos, executivo do Banco Patrimônio. Ele compõe a minoria da população com alta escolaridade e rendimentos muito acima da média. Pós-graduado em economia na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Saigh estudou durante dezoito anos. Recebe um salário fixo de 10.000 reais por mês, sem contar sua participação nos lucros obtidos para o banco. "A bagagem acadêmica me abre muitas portas", afirma ele. Saigh foi disputado pelas quatro empresas para as quais enviou seu currículo. Escolheu o Patrimônio e cinco anos depois já era sócio do banco. Mesmo bem-sucedido, não pensa em parar de estudar. "Quero fazer mais especializações", diz. "Quem não fizer isso vira peça de antiquário."

Áreas promissoras %u2014 A maior parte dos jovens que deixam de estudar acredita que se tornará apta a encontrar um bom emprego apenas fazendo um curso de computação como os que se multiplicam no país. Isso não é verdade. "Estou procurando estágio desde maio", conta a estudante paulista Thaís Greco, de 18 anos, que faz o 3º ano do curso técnico de processamento de dados e já bateu inutilmente em várias portas. "É muito diferente o que se aprende na escola e o que é preciso na prática." A área de informática e a de telefonia são as mais promissoras, mas o que se pede não são pessoas que saibam apenas manusear um programa de texto para escrever boletins no computador. São administradores das redes de informática instaladas nas empresas, analistas de sistemas capazes de criar ou mudar a programação dos computadores, ou analistas de suporte, que ajudam a manter as redes funcionando. São também web designers, profissionais que criam as páginas na Internet, ou engenheiros de sistemas e produtos ligados às novas redes de telefonia celular. Para todos eles, não só o emprego estará quase garantido como há perspectivas de bons salários. Ainda mais se tiverem conhecimento do mercado e das pessoas que nele atuam e estiverem ligados às mudanças que ocorrem a seu redor. "Sozinha, a graduação não basta", diz a psicóloga e administradora de empresas Nielce Filetti, presidente da Associação Paulista de Recursos Humanos, que tem 2.000 cadastrados. "As empresas buscam o profissional com um perfil diferenciado."

O Brasil enfrenta o desafio de acelerar o progresso da educação num momento complicado. Ele coincide com uma mudança radical no mercado de trabalho, imposta pelas novas tecnologias. Além de aumentar o grau de escolaridade das gerações que estão chegando ao mercado, o país se vê obrigado a reciclar boa parte da mão de obra que já estava empregada %u2014 ela corre o risco de ficar obsoleta com a chegada das tecnologias que estão eliminando postos de trabalho no mundo inteiro. Cada vez mais, o papel do ser humano no mundo do trabalho é produzir novas ideias. O futuro, de acordo com os especialistas, não é das pessoas que apertam parafusos, mas de quem imagina um novo processo pelo qual os parafusos serão apertados.

Onde há vagas sobrando %u2014 Os profissionais que sabem muito são literalmente caçados pelas empresas, que disputam avidamente a mão de obra mais qualificada. Só no setor de informática, estima-se que 50% das vagas não são preenchidas por falta de profissionais especializados. "Mesmo que a educação avance muito, será insuficiente para atender à demanda do mercado criada pelo progresso tecnológico", afirma o economista Ricardo Paes de Barros, um dos coordenadores do trabalho do IPEA. No mercado de telecomunicações também não existe mão de obra especializada para atender à oferta de empregos que estão surgindo. Avalia-se que para operar os 16,2 milhões de aparelhos celulares que serão colocados em operação nas bandas A e B, mais os novos telefones fixos, haverá a necessidade de contratar 300.000 pessoas para trabalhar nas centrais telefônicas, no fornecimento de peças ou na prestação de serviços aos clientes. "Corremos o risco de entrar em colapso por falta de gente para trabalhar", diz Antônio Enéas Reis, sócio de uma empresa de consultoria de recursos humanos do setor, a DPS. "Não haverá gente especializada nessa quantidade."

Estudar bastante e fazer a escolha certa da profissão são dois requisitos básicos para quem está entrando no mercado de trabalho na virada do milênio. No mundo, estima-se que serão criadas neste ano 413.000 vagas em 15.000 empresas da área de tecnologia avançada. São oportunidades para engenheiros que desenham produtos para automação, médicos e cientistas especializados nas áreas de genética e biotecnologia, profissionais que desenvolvem novos programas de computador ou lidam com comunicação via satélite. Só nos Estados Unidos, serão 300.000 novos empregos. As faculdades e universidades americanas formam 28.000 estudantes nessas atividades anualmente, menos de 10% da oferta de vagas. Isso significa que esse tipo de profissional é disputado a peso de ouro. Para quem está fazendo uma faculdade e apostou em áreas como essas, há razões de sobra para o otimismo.

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