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*Ciências da Natureza*

3

nov
2012

Agora a fome é de água

A diminuição da miséria, com a inclusão de pernambucanos em programas sociais como o Bolsa Família, é uma realidade. De fato, mesmo diante da prolongada seca deste ano - a maior dos últimos 30 anos -, é possível constatar a diferença em ter R$ 70 ou R$ 160 no bolso quando não é possível tirar do campo o alimento. Entretanto, a longa estiagem revela no Agreste e Sertão que o bem mais básico ainda falta na torneira de muita gente: a água potável. A sede é saciada com água barrenta, de açudes quase esgotados, ou de fontes duvidosas, como a da casa onde vive o garoto Jocivan da Silva (foto), seus pais e oito irmãos, no Sertão do Araripe. No interior, ainda é comum andar léguas a pé para buscar água, carregar latas na cabeça ou recorrer ao jumento. E nem sempre em condições de consumo humano.

Na Zona da Mata e Grande Recife, nem precisa o clima ir ao extremo para enxergar os problemas .Nas áreas urbanas das cidades grandes, as famílias vão driblando o racionamento d'água. Lavar as mãos antes das refeições e depois de ir ao banheiro é teoria difícil de cumprir até mesmo nas escolas, onde as gerações recebem as primeiras lições de saúde. O que corre nos rios e canais também exala o mau cheiro do lixo e das fezes. O pleno crescimento não universalizou banheiro nem esgoto recolhido e tratado. O resultado é que lombrigas, giárdia, ameba e até o amarelão estão se multiplicando nos intestinos. Vermes e protozoários menos agressivos que o xistossomo, mas com real poder de adoecimento, permanecem como no passado. Em menor proporção, mas em condições de estragar o crescimento saudável das crianças.

 

Até amarelão tem por aqui

De cada 100 pessoas que vivem em 58% dos municípios pernambucanos, sete têm algum tipo de verme na barriga. Nessa conta não entra o xistossomo, e, dependendo do saneamento básico oferecido, a infestação pode ultrapassar 10% dos moradores. Rios limpos, esgoto coletado e tratado, frutas e verduras cultivadas longe de coliformes fecais, mãos e unhas bem asseadas, água clorada, tudo isso que constitui a condição ideal para evitar a transmissão de verminoses, não se aplica a áreas de racionamento, seca e pouca educação. Por isso, o amarelão, que parecia apenas lição do livro de ciências, também tem seu espaço em pleno 2012, na mesma área endêmica para a esquistossomose.

Segundo o Programa Estadual de Enfrentamento das Doenças Negligenciadas (Sanar), de 165.458 pessoas submetidas a exame de fezes entre 2011 e 2012, 12.554 tinham verminoses, sendo os mais frequentes os ascarídeos ( lombriga), o tricuro e o ancilóstomo (amarelão). Embora sejam indicador de doença, o SUS não faz registro desses parasitas no sistema de informação. O Estado fica então sem saber quantos casos positivos foram tratados.

O coordenador do Sanar, Alexandre Menezes, revela que as áreas com maior frequência do amarelão são a Região Metropolitana (Jaboatão, Cabo, Goiana e Igarassu) e Zona da Mata (Aliança, Belém de Maria, Bom Jardim, Catende, Cortês, João Alfredo, Paudalho e Vitória). É menos frequente no Agreste, mas com registro importante em Gravatá, Bom Conselho, Correntes e Garanhuns. Dossiê mapeando áreas com maior incidência de esquistossomose e demais parasitoses será encaminhado pela Saúde aos responsáveis, no governo, pelo saneamento, para auxiliar na definição de obras que melhorem as condições de vida das comunidades, informa Menezes. Na década de 50, no inquérito realizado por Barca Pellon e Isnard Teixeira, do Ministério da Educação e Saúde, as lombrigas estavam presentes nas fezes de 97,14% dos escolares da Zona da Mata e Litoral e o amarelão, em 46,96% .

1952 Em publicações avulsas do Centro Aggeu Magalhães (hoje Fiocruz), foto de menina exposta aos alagados no Grande Recife

O pescador André compreendeu há 11 meses, com a morte do pai, o poder devastador da doença. "Para essa lagoa (a do Náutico) ficar livre do xistossomo, é preciso tratar o canal, tirar os esgotos", compreende. Tem medo de entrar nela? "Medo eu tenho, mas vou fazer o quê?", responde, com a responsabilidade de criar três filhos e a mulher, todos dependentes da pesca. Antes, a situação era pior. Há um ano morava às margens do lago e convivia com o caramujo transmissor da doença em tempo integral. Um projeto de ampliação viária na cidade acabou transferindo para outro lugar André e dezenas de moradores.

2012 Garoto atravessa mangue às margens da Estrada de Curcurana, em Jaboatão dos Guararapes

No Recife, a Secretaria Municipal de Saúde encontrou algo mais examinando as fezes de escolares. Nada menos que 24% das crianças tinham giárdia ou ameba, protozoários. A proporção foi maior que a de vermes (12% de infestação). Este ano, a ação deve ser repetida numa amostra maior de escolas municipais. Na ação feita em parceria com o Programa de Saúde da Escola, após campanha educativa nos colégios, 500 potes para coleta de fezes foram distribuídos, mas menos da metade (221) retornou com material para o laboratório.

Ameba e giárdia não recebem a atenção merecida. A própria OMS não definiu critérios para tratamento em massa. Quando o assunto é verme, recomenda tratar coletivamente escolas onde 20% dos examinados forem positivos. Mas será que vale tratar todo mundo apenas sem melhorar as condições sanitárias das unidades de ensino, por exemplo? "Estamos refletindo sobre a melhoria da estrutura das escolas", questiona Antônio Leite, gerente de Vigilância Epidemiológica.

No Recife esgoto a céu aberto estava presente no entorno de 16,7% dos domicílios particulares permanentes urbanos, segundo o Censo 2010 do IBGE. São 5,7 pontos acima da média nacional de 11,0%. Na capital vivem 1.537.704 pessoas.

(ALMEIDA, Verônica. "Agora a miséria é de água". JC Online - Expedições sem Fim, 14 ago. 2012 Disponível em: http://especiais.ne10.uol.com.br/expedicoes/verminose.html. Acesso em: 15 ago. 2012.)

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