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*Ciências da Natureza*

6

mai
2013

Menos pelos, menos parasitas, mais parceiros?

Pesquisadora brasileira contesta nova hipótese inglesa para evolução do Homo sapiens

(fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/arqueologia-e-paleontologia/menos-pelos-menos-parasitas-mais-parceiros)

 

Ao longo da evolução, o Homo sapiens perdeu pêlos para melhor regular sua temperatura em climas quentes. Isso é o que diz a Teoria de Wheeler, a tese mais aceita para explicar o advento dos 'macacos pelados' que somos. Ela não é a única, porém: dois britânicos sugerem que a perda de pêlos foi uma defesa natural contra moscas, piolhos, carrapatos e outros parasitas.

Os contestadores são Mark Pagel e Walter Bodmer, das Universidades de Reading e Oxford, respectivamente. Em estudo publicado em 8 de junho na revista Royal Society Biology Letters , eles alegam que a Teoria de Wheeler não explicaria a perda de pêlos em regiões mais frias. Eles refutam também a hipótese segundo a qual os hominídeos viveram em ambientes aquáticos há cerca de 8 milhões de anos e perderam os pêlos devido à sua ineficácia na manutenção da temperatura dentro d'água.

Os ingleses acreditam que a mudança teria ocorrido para evitar a presença de parasitas na pele que, revestida de pêlos, teria temperatura e umidade propícias para sua proliferação. Os cientistas afirmam que modificações culturais teriam precedido as biológicas: "Quando os homens foram capazes de construir abrigo, fazer fogo e roupas, eles começaram a perder seus pêlos". Esse fator teria sido inclusive um critério de seleção de parceiros ao longo da evolução: indivíduos com menos pêlos poderiam em tese gerar descendentes mais aptos para sobreviver.

Mas como explicar a conservação de pêlos no rosto, na cabeça e na região pubiana? A resposta estaria ligada à seleção sexual: nos dois primeiros casos, os cabelos representariam vantagens naturais na proteção contra o Sol; já os pêlos pubianos seriam responsáveis pela transmissão de feromônios sexuais -- substâncias químicas que atrairiam machos e fêmeas da mesma espécie.

No entanto, não há consenso entre os cientistas quanto à hipótese inglesa. "O estudo não traz cálculos ou dados realmente novos", aponta Lia Amaral, física da Universidade de São Paulo que já publicou trabalhos sobre termorregulação humana. "Trata-se de mais uma argumentação que ressuscita a idéia dos parasitas, considerada e descartada por Darwin, que alegou que outros animais nas mesmas condições não perderam pêlos."

Lia publicou em 1996 um estudo que propõe modificar a Teoria de Wheeler. A física argumenta que ela não seria válida para hominídeos se considerado apenas o ambiente externo, pois os pêlos são uma proteção para animais de sangue quente no frio e no calor. "Basta observar os primatas de savana, todos muito peludos, e habitantes dos desertos, que sempre andam cobertos para minimizar a absorção de calor." Problemas com a pele nua (cortes e queimaduras) foram também citados por Lia como provas de que as vantagens em relação a parasitas seriam menores do que as desvantagens implicadas na perda de pêlos.

A brasileira atribui o fenômeno à necessidade do homem de expelir calor interno em atividades físicas acentuadas. A mudança teria surgido junto com o bipedalismo, antes da entrada dos hominídeos nas savanas. "Lutas territoriais dentro da espécie teriam sido um primeiro passo para a perda dos pêlos", sugere. Os ancestrais dos homens teriam então adotado a postura ereta para melhor segurar seus filhotes, que não podiam mais se agarrar ao pêlo da mãe quando transportados, o que levava à morte de muitos.

É difícil encontrar evidências que permitam dizer por que surgiram certos traços evolutivos. "Se fossem conhecidos os genes responsáveis pela nudez, a análise do DNA de ossos fósseis poderia datar a perda dos pêlos na evolução", explica Lia. Conhecer quando ela ocorreu ajudaria a apontar a hipótese mais coerente e evitaria especulações.

 

A partir da leitura do texto, identifique:

1. Identifique diferentes teorias apresentadas por cientistas para responder à pergunta: por que o homo sapiens, ao longo da evolução da espécie, desenvolveu a característica de possuir menos pêlos ao longo do corpo do que os hominídeos dos quais é descendente?

2. Identifique os argumentos a favor e contrários a cada uma dessas teorias.

3. Apresente a explicação que seu grupo considera como sendo a mais consistente e explique as razões da escolha.

4. Compare as explicações apresentadas pelo artigo com as explicações dadas pelos grupos na aula anterior. Existe alguma diferença entre o tipo de explicações dadas? Qual ou quais são elas?

5. Por que os cientistas, apesar de estarem de acordo com a Teoria da Evolução e do mecanismo de seleção natural, têm ainda explicações diferentes sobre o problema? Como procedem para convencer uns aos outros e estabelecer um conhecimento consensual sobre temas como este?

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21

abr
2012

Genética

Sexo, cromossomos e ambiente

 

Há diferenças genéticas entre homens e mulheres? Como o sexo é determinado? Existem doenças genéticas que afetam um sexo majoritariamente? Questões como essas puderam ser respondidas quando se compreendeu a relação entre sexo e cromossomos em alguns grupos de animais, como mamíferos, aves e artrópodes.

 

Genética ou ambiente?

Por: Monica Bucciarelli Rodriguez

 

Os cromossomos - os "pacotes" que acondicionam a longa molécula do acido desoxirribonucleico, ou DNA, no núcleo das células - foram observados ainda no século XIX, mas seu papel como responsáveis pela herança genética só veio a ser desvendado no início do século XX. Uma importante contribuição para isso foi a constatação, em 1905, de que uma característica marcante de diferentes seres vivos, como o sexo, estava associada ao cromossomo batizado como "X". Esta e outras descobertas marcaram o início de um novo ramo da ciência - a genética, palavra inventada, por coincidência, também nesse ano.

 

O início do século XX acolheu o desabrochar dos fundamentos da genética, com a redescoberta dos trabalhos sobre a hibridação de ervilhas, publicados em 1865 pelo monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884), e a proposição da teoria de que os cromossomos seriam responsáveis pela herança genética, pelo médico norte-americano Walter Sutton (1877-1916) e pelo biólogo alemão Theodor Boveri (1862-1915). Essa teoria mostrava a relação entre o comportamento dos cromossomos no processo de formação de gametas e as leis mendelianas de herança.

 

A associação de uma característica marcante, como o sexo, com a presença de um determinado cromossomo foi um aliado importante na aceitação da teoria cromossômica da herança genética. Mas esse não foi um trajeto simples. Afinal, seria o sexo determinado geneticamente? A meta científica é estabelecer uma lei geral e universal. E esse foi um dos empecilhos para a aceitação da ideia de determinação genética do sexo. Vários pesquisadores colecionavam evidências da influência ambiental na geração de fêmeas e machos em diversos organismos. Hoje, sabe-se que, em certas espécies animais, como tartarugas, o sexo é determinado por fatores ambientais, como a temperatura.

 

O citologista norte-americano Clarence E. McClung (1870-1946) foi o primeiro a associar, em 1902, a herança de um cromossomo extra com a determinação do sexo masculino em insetos, embora tenha analisado apenas a formação de espermatozóides (e nunca a de óvulos). Em 1891, o citologista alemão Hermann Henking (1858-1942) havia descrito esse cromossomo extra em células que sofriam meiose para formar espermatozóides de insetos como um corpúsculo nuclear e o chamou de "nucléolo de cromatina", "elemento cromático", "corpúsculo de cromatina" ou simplesmente "X".

 

Henking não acreditava que o corpúsculo descrito fosse um cromossomo, devido a sua morfologia distinta, ao fato de não parear com outros cromossomos durante a meiose e de estar presente em apenas metade dos espermatozóides resultantes. Portanto, e de McClung o mérito de identificar o corpúsculo X como um cromossomo e de propor o papel desse cromossomo na determinação do sexo. Mas a hipótese de McClung previa a presença do cromossomo extra no sexo masculino, embora não houvesse qualquer evidência nesse sentido. Ele contava, talvez, com a propagada ideia da superioridade masculina - nesse caso, seria de esperar que o macho dispusesse de maior quantidade de material genético.

 

A questão foi esclarecida em 1905, quando os pesquisadores norte-americanos Edmund

Beecher Wilson (1859-1939) e Nettie Maria Stevens (1861-1912) publicaram, respectivamente, os artigos Os cromossomos em relação à determinação do sexo em insetos e Estudos na espermatogênese com referência especial ao cromossomo acessório. Os dois autores, independentemente, explicaram a determinação do sexo pela presença de apenas um cromossomo X em machos e de dois cromossomos X em fêmeas. Wilson, cujo artigo já estava em processo de impressão quando recebeu o artigo de Stevens para analise, apoiou veementemente a publicação do outro trabalho. Por isso, ambos são considerados responsáveis pela teoria cromossômica de determinação de sexo.

 

Wilson e Stevens estabeleceram que algumas espécies tem um sistema do tipo X0 (o macho tem um cromossomo a menos que a fêmea) e outras tem um sistema do tipo XY, no qual os cromossomos sexuais são morfologicamente diferentes. Verificou-se mais tarde, entre as aves, que a fêmea apresenta dois cromossomos sexuais diferentes (que foram chamados de ZW) e o macho tem dois cromossomos sexuais iguais (ZZ). Fica, pois, patente, que a determinação de sexo não é universal entre os seres vivos.

 

Em uma época em que a genética engatinhava e a citologia sofria limitações técnicas consideráveis, foram muitas as dificuldades para o completo entendimento do papel dos cromossomos sexuais. Poucos anos depois, as evidências de herança de caracteres morfológicos ligadas ao cromossomo sexual X consolidariam a teoria cromossômica da herança e da determinação de sexo. Mas o cromossomo X continua revelando seus segredos. Na edição de 17 de março de 2005, a revista britânica Nature, um dos mais importantes periódicos científicos do mundo, trouxe dois artigos com os resultados do sequenciamento do cromossomo X e a determinação de seu padrão de expressão gênica em homens e mulheres. Portanto, os cromossomos sexuais ainda mantém algo de misterioso.

 

RODRIGUES, Monica Bucciarelli. Genética ou ambiente? Ciência Hoje, Rio de Janeiro: Instituto Ciência Hoje. vol. 36, n. 216, jun. 2005, p. 69.

 

 

Mulheres percebem mais cor, diz estudo

 

O mundo é mais colorido para as mulheres. Literalmente: um estudo norte-americano sugere que boa parte delas enxerga mais cor do que os homens, devido a uma estranha transformação no gene envolvido na percepção da cor vermelha nas células da retina.

 

Ninguém sabe direito como ocorreu essa transformação. Mas o resultado de uma análise feita em 236 indivíduos pelos geneticistas Brian Verrelli e Sarah Tishkoff, da Universidade de Maryland em College Park (EUA), indica que cerca de 40% das mulheres produzem em sua retina um pigmento que absorve luz no espectro do vermelho-alaranjado.

 

Mulheres "normais" e homens produzem apenas três pigmentos: os responsáveis pela absorção do azul, do verde e do vermelho. A combinação da luz absorvida por esses três pigmentos, chamados genericamente opsinas, possibilita a visão colorida em humanos.

 

Os genes que trazem as receitas para fabricar as opsinas vermelha e verde estão alojados no cromossomo X, que caracteriza o sexo feminino quando ocorre em duplicata (o sexo masculino e definido quando outro cromossomo, o Y, faz par com o X).

 

Mulheres normais, portanto, tem duas cópias de ambos os genes. O que a dupla americana descobriu foi que em alguns casos a segunda cópia - ou "alelo", em cientifiquês - do gene para o pigmento vermelho foi "convertida" durante a evolução da espécie.

 

"Devido ao fato de existirem várias mutações que permitem a opsina vermelha absorver cor na faixa do vermelho-laranja, algumas mulheres tem tanto um alelo vermelho 'normal' em um cromossomo do par X quanto um alelo 'vermelho-laranja' alterado no outro", diz Verrelli, hoje na Universidade do Estado do Arizona. "Essas mulheres podem distinguir melhor as cores na faixa do espectro que vai do vermelho ao laranja", afirmou o pesquisador. [...]

 

ANGELO, Claudio. Mulheres percebem mais cor, diz estudo, Folha de São Paulo, 13/07/2004. Disponível em:

<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12157.shtml>. Acesso em 26 jan. 2010.

 

 

O fato das mulheres apresentarem dois cromossomos X, enquanto os homens contam com apenas um, interfere na forma de atuação dos genes presentes nesses cromossomos?

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19

mar
2012

Biólogos acham gene das ervilhas de Mendel

Demorou quase um século e meio, mas a biologia molecular finalmente acertou o compasso com Gregor Mendel, o monge tcheco que descobriu como a genética funciona nos anos 1850 e 1860. Uma equipe internacional de pesquisadores acaba de descobrir o gene que controla a cor (amarela ou verde) das ervilhas que o religioso estudava e que, hoje em dia, todo aluno do ensino médio passa a conhecer nas aulas de biologia.

A existência teórica do gene foi predita por Mendel. Ao cruzar uma variedade de ervilhas amarelas com outra de ervilhas verdes, o religioso do mosteiro agostiniano de São Tomé em Brno (então dentro do Império Austro-Húngaro) notou um fato curioso. A primeira geração inteira do cruzamento era amarela. No entanto, quando os membros da primeira geração foram cruzados entre si, surgiram tanto ervilhas amarelas quanto verdes, numa proporção de três para um.

A resposta, segundo a genética mendeliana, é que o fator responsável pela cor das ervilhas vinha em duas "cópias", uma do pai e outra da mãe. A cópia amarela é dominante (vamos chamá-la de "A"), enquanto a verde é recessiva (ou "a"). Por ser dominante, a cópia amarela anula a ação da verde, de forma que tanto uma planta AA ou Aa é igualmente amarela - daí o motivo de a primeira geração "híbrida" ser totalmente dessa cor. Foi o primeiro passo para fundar a ciência da genética.

Tudo isso nós já sabíamos, ou temos de aprender nas aulas de biologia do ensino médio. Mas ninguém sabia que trecho de DNA das ervilhas domésticas era responsável pelo truque. Ian Armstead, do Instituto de Pesquisas Ambientais de Gramíneas do Reino Unido, ao lado de seus colegas, identificaram numa série de plantas, de espécies diferentes, o que parecia ser um bom candidato ao papel.

O gene, apelidado de sgr (sigla de "staygreen", ou "continue verde"), parece ter uma ligação forte com o processo de amadurecimento das partes verdes das plantas. Sua ação mais forte ocorre nas plantas, mas ele também atua em pétalas e, claro, sementes.

Por meio de experimentos e técnicas de mapeamento do genoma, eles finalmente conseguiram determinar também a localização de uma forma do sgr nas ervilha. Mendel, que morreu esquecido em 1884 e só teve seu trabalho reconhecido décadas mais tarde, certamente ficaria feliz com o achado.

O estudo está na edição desta semana da revista americana "Science".

Cabe a você fazer um breve relato a Mendel, informando esta descoberta e o que tudo iniciado por ele ajuda a humanidade na atualidade.

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7

set
2011

A importância do predatismo para o equilíbrio na natureza

Certos caracóis terrestres conhecidos como escargots conquistaram um grande número de apreciadores em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os caracóis aqui cultivados, além dos legítimos escargots da espécie Helix aspersa, pertencem à outra espécie, Achatina fulica  - que, escapando dos criadouros, se tornaram uma verdadeira praga que devasta hortas e plantas ornamentais, causando muitos danos ao ambiente e prejuízos ao ser humano.

Esses moluscos originários do leste da África atuam também como hospedeiros intermediários de larvas de vermes causadores de doenças de interesse médico e veterinário, entre elas a angiostrongilíase, que afeta o sistema nervoso central e o trato digestório humanos.

O ser humano é o grande responsável pela dispersão dessa espécie africana pelo mundo. Entre os vários motivos e meios que levaram os caracóis para os quatro cantos do globo terrestre, estão os colecionadores de conchas, que capturavam exemplares vivos nas áreas naturais de ocorrência da espécie e, por descuido ou perda do interesse, os libertavam nos jardins de casas e imediações. Como se reproduzem fácil e rapidamente, logo se transformam em praga nas regiões onde são introduzidos.

Mas por que na África, seu lar original, a espécie Achatina fulica  não é uma peste?

Lá existem "inimigos" naturais que atuam no controle da população dos caracóis. Entre esses estão a larva de uma espécie de vaga-lume, que pode atacar e matar exemplares de Achatina fulica  , e uma outra espécie de caracol que se alimenta de moluscos terrestres.

No Havaí, várias espécies comedoras de moluscos já foram introduzidas na tentativa de realizar o controle biológico das populações desses caracóis. O uso de pesticidas é arriscado, pois são produtos tóxicos que podem contaminar animais e lençóis freáticos. O controle biológico, no entanto, tem de ser muito bem planejado e instalado, para que as espécies "controladoras" não se tornem, elas mesmas, novas pragas.

No Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo e vários estados do Nordeste possuem municípios cuja população de Achatina fulica  já é grande em demasia. Um fato certamente alarmante se considerarmos as  proporções que essa praga pode atingir.

Fonte: André Favaretto Barbosa e Norma Campos Salgado (UFRJ) para revista Ciência Hoje, v.30 n.175, set.2001, p. 51-53,SBPC.

 

a) Explique o que é controle biológico, a partir do que você entendeu da leitura.

b) Apesar de o predatismo ser descrito como uma interação positiva para o predador e negativa para a presa, pode-se afirmar que os predadores têm efeito positivo sobre as populações de presas. Explique como uma população de presas pode ser beneficiada por seus predadores.

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20

mai
2011

Evolução, e agora?

(por Isabel Rebelo Roque)

(...) costumamos ler que, segundo Lamarck, os ancestrais das girafas possuiriam pescoço curto. A necessidade de alcançar as folhas das árvores, principalmente em épocas de escassez de alimento, quando só restavam as folhas mais altas, teria provocado o constante exercício de esticar o pescoço. A característica "pescoço alongado" seria, então, transmitida à descendência. O resultado, após milhares de anos de uso intensivo do pescoço e transmissão da característica à prole, teria sido o que vemos hoje: que as girafas possuem pescoço longo e musculoso.

Em geral, nos livros, é apresentado o contraponto darwiniano a essa explicação: espécimes diferentes nasceriam com comprimentos de pescoço ligeiramente diferentes (variabilidade). Os indivíduos "privilegiados" nesse quesito apresentariam vantagem sobre os demais na hora de alcançar as folhas mais altas. Em épocas de escassez, essa diferença seria decisiva para definir quem sobreviveria e quem não (seleção natural). Os sobreviventes, com a característica "pescoço mais longo" ("de nascença"), conseguiriam transmiti-la à prole.

Belo e didático exemplo, não? Sim. Seria perfeito, não fossem alguns senões. O primeiro deles é que Lamarck jamais deu a esse exemplo o destaque que ele tem recebido há quase duzentos anos.

Tentando achar o fio da meada

O estranho caminho seguido pelo exemplo da elongação do pescoço da girafa -- de um mero parágrafo escrito por Lamarck, até sua transformação em "carro-chefe" da teoria lamarckista -- é examinado em detalhe em um ensaio assinado pelo paleontologista e divulgador científico Stephen Jay Gould, morto recentemente. O ensaio, intitulado "The tallest tale" (uma alusão à expressão "tall tale", história cujos detalhes são difíceis de engolir), foi publicado originalmente na Natural History Magazine, em 1996.

Em seu texto, permeado do humor sarcástico que o caracteriza, Gould tenta retomar o fio da meada. Observa que, na Philosophie zoologique, Lamarck ocupa-se das girafas somente em um parágrafo, dentro de um capítulo em que figuram muitos outros exemplos a que ele possivelmente atribuiu maior importância.

Quanto a Darwin, em sua primeira edição da Origem das espécies (1859) nem faz qualquer referência ao pescoço da girafa, mas sim, em outro contexto, à sua cauda!

Gould especula que o exemplo do pescoço da girafa teria assumido importância na literatura científica graças a St George Mivart, que, em 1871, publicou uma crítica ao darwinismo: The genesis of species, usou esse exemplo em sua argumentação (...)

Na verdade, a importância do tamanho e da robustez do pescoço da girafa não se resume a alcançar ou não as folhas mais altas. Entre os machos, por exemplo, o pescoço é uma importante "arma" usada para garantir a dominação e também a preferência das fêmeas, por meio de verdadeiros duelos nos quais às vezes o perdedor acaba perdendo também a vida.

As girafas têm ainda no comprimento do pescoço uma verdadeira "torre de observação", com a qual podem manter controle sobre a aproximação de predadores, por exemplo. Por si só, esses dois usos do pescoço já constituem, segundo os cientistas, fatores bastante relevantes para a importância de seu comprimento. (...)

 Mais lenha na fogueira

No mesmo ano em que Gould publicou seu artigo (1996), os zoólogos Robert Simmons e Lue Scheepers publicaram, na American Naturalist, o artigo "Winning by a neck: sexual selection in the evolution of giraffe" ("Vencendo por um pescoço: seleção sexual na evolução da girafa"). Nele, a dupla põe mais lenha na fogueira ao afirmar que, durante a estação seca, as girafas alimentam-se dos arbustos, e que é na estação de chuvas que elas se voltam para o alto das acácias, situação em que nenhuma competição é esperada.

Outro aspecto observado por Simmons e Scheepers é que as fêmeas passam metade de seu tempo alimentando-se com o pescoço em posição horizontal (comportamento tão típico que é útil para identificar o sexo do animal à distância). Além disso tudo, ambos os sexos alimentam-se mais frequentemente com o pescoço curvado para baixo. Tudo isso, segundo eles, sugere que o tamanho do pescoço não teria evoluído especificamente em decorrência da busca de alimento em locais mais elevados.

(...)

O caso das "ex-mariposas": desmontando outro exemplo clássico

Em agosto foi lançado nos Estados Unidos o livro Of moths and men, escrito pela jornalista Judith Hooper e já lançado na Inglaterra há alguns meses. Sobre ele, o editor de ciência Nicholas Wade escreveu a resenha "Staple of evolutionary teaching may not be textbook case", na edição de 18 de junho de 2002 do jornal The New York Times.

A publicação do livro de Hooper lança luz sobre um assunto que vinha se mantendo restrito a um determinado círculo: o dos que defendem as idéias criacionistas ou intervencionistas - mais modernamente, os teóricos do "design inteligente".

Nas aulas de ciências e biologia, aprendemos que, por meio de um processo denominado "melanismo industrial", populações de mariposas do gênero Biston, encontradas na região de Manchester, na Inglaterra, sofreram alteração em seu padrão de cor.

Isso teria acontecido mais ou menos assim: antes da Revolução Industrial, os troncos das árvores das florestas habitadas pelas mariposas Biston possuíam grande quantidade de liquens (associação entre algas e fungos), que lhes conferiam cor esbranquiçada. O padrão de cor predominante nas populações dessas mariposas, na época, era claro, e elas facilmente se camuflariam, isto é, se confundiriam com a cor dos liquens, ao repousar sobre os troncos. A camuflagem é um importante recurso de sobrevivência em certas espécies: confundindo-se com o ambiente, o risco de ser visto pelo predador diminui.

Com o advento das indústrias, a partir de 1850, o ar, carregado de fuligem e outros poluentes, provocou a morte dos liquens e o escurecimento dos troncos. Como resultado, teria havido uma inversão na vantagem exibida pela cor clara das mariposas: ao repousar sobre troncos escurecidos, elas passariam a ser facilmente visíveis para o predador (nesse caso, determinados pássaros). Com isso, a variedade melânica, isto é, de cor escura, existente em menor número naquelas populações, teria passado a predominar graças à capacidade de passar despercebida ao predador, de se camuflar nos troncos escurecidos.

A partir de 1950, com a criação de leis de controle ambiental à emissão de poluentes, esse padrão novamente se inverteu: troncos com novas populações de liquens, portanto mais claros, passaram a esconder melhor exemplares de mariposas com o padrão de cor clara.

A esse exemplo de melanismo industrial, os livros didáticos costumam acrescentar a descrição de uma série de experimentos realizados pelo biólogo Bernard Kettlewell, da Universidade de Oxford, na década de 1950. Muitas vezes, os livros apresentam fotos com o registro dos experimentos - ou então fotos produzidas com o fim de reproduzir esse registro. Tais fotos mostram exemplares claros e escuros de mariposas Biston repousando sobre troncos de árvores.

O que não se relata nos livros é que, em seus experimentos, Kettlewell coletou exemplares de mariposas com os dois padrões de cor e os liberou em ambientes controlados que apresentavam troncos também com diferentes colorações. Ao recapturar os exemplares sobreviventes, ele teria constatado o que já se esperava: o índice de sobrevivência era diretamente relacionado ao padrão de cor dos troncos.

 

Algo de podre

Tudo estaria perfeito, não fossem, como no caso das girafas, alguns senões. O primeiro deles foi a descoberta de que os experimentos de Kettlewell não transcorreram exatamente daquele modo: houve um certo "empurrãozinho", pois as mariposas não estariam vivas, mas teriam sido coladas aos troncos das árvores. O segundo é que o comportamento das mariposas Biston na natureza não se encaixa tão perfeitamente no modelo descrito. O terceiro é que a relação predomínio de uma cor/grau de poluição ambiental não se manteve como o esperado.

O livro de Hooper não é o primeiro a "devassar" o caso Kettlewell. Há quatro anos foi publicado o livro Melanism: evolution in action, de Michael Majerus, que tratava desse assunto, entre outros. Quem assinou uma resenha sobre ele, intitulada "Not black and white" e publicada na Nature, foi Jerry Coyne, do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Nela, Coyne compara a decepção diante da verdade sobre os experimentos de Kettlewell ao que sentiu quando criança ao saber que Papai Noel não existia...

Coyne comenta que o livro de Majerus é o primeiro a reunir os pontos criticáveis nos experimentos de Kettlewell. O mais grave deles é que as mariposas Biston, em condições naturais, provavelmente não repousam sobre troncos de árvores - em mais de quarenta anos de estudos sobre seus hábitos, somente duas delas foram vistas fazendo isso. O local de preferência continua um mistério, mas acredita-se que seria o alto das copas das árvores.

Só isso, afirma Coyne, bastaria para invalidar os experimentos de Kettlewell, uma vez que as mariposas, colocadas sobre os troncos, tornar-se-iam altamente visíveis a seus predadores, numa condição artificial que forçaria sua predação. Além disso, Kettlewell expôs suas mariposas durante o dia, quando elas geralmente escolhem locais de repouso à noite.

Mas há ainda um fator para comprometer toda a história: na verdade, o novo aumento na ocorrência da variedade clara aconteceu bem antes da recolonização dos troncos pelos liquens, condição que pretensamente favoreceria a camuflagem da variedade no ambiente. E mais: um crescimento e decréscimo da população da forma melânica, isto é, escura, também se deu paralelamente em áreas industriais dos Estados Unidos, onde, entretanto, não houve alteração na incidência de liquens -- o que relativiza bastante o papel destes últimos na história toda.

(...)

Descartar ou não o exemplo?

(...) Em contraste com Jerry Coyne, para quem os detalhes contraditórios de tudo o que envolve a história das mariposas Biston inviabilizam sua utilização pedagógica, Rudge pondera que ela constitui um excelente veículo para introduzir os estudantes no conceito de seleção natural. Ele complementa que expor aos estudantes as discrepâncias envolvidas no assunto poderá ser uma excelente forma de sensibilizá-los para a natureza da ciência como processo.

(fonte: http://www.lainsignia.org/2002/septiembre/cyt_001.htm)

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5

fev
2011

Os pioneiros da Genética

OS PIONEIROS DA GENÉTICA: HIPÓCRATES E ARISTÓTELES

 
Hipócrates (460-377 a.C.)

A história da Genética começou, há dois mil quatrocentos e dezoito anos, quando Hipócrates considerado o fundador das ciências médicas propôs, em 410 a.C., a Hipótese da Pangênese, para explicar a hereditariedade.
De acordo com essa hipótese, a transmissão das características hereditárias baseava-se na produção, por todas as partes do corpo, de partículas muito pequenas que eram transmitidas para a descendência no momento da concepção. Para validar essa teoria, Hipócrates argumentava que os filhos, geralmente, reproduzem as características dos pais: cor de olhos, tipo de cabelo e até mesmo deficiências como o estrabismo, inclusive doenças que, atualmente, sabemos que não são hereditárias.
A pangênese permaneceu como a única teoria geral de hereditariedade até o final do século XIX. Foi de Hipócrates, também, o conceito de hereditariedade de caracteres adquiridos - adotado pelo naturalista francês Jean Baptiste Lamarck, em 1809, como o mecanismo das mudanças evolutivas - uma explicação, ainda hoje, aceita por muitas pessoas. Sobre isso Hipócrates escreveu: "A semente vem de todas as partes do corpo, as saudáveis das partes saudáveis, as doentes das partes doentes. Pais com pouco cabelo têm, em geral, filhos com pouco cabelo, pais com olhos cinzentos têm filhos com olhos cinzentos, pais estrábicos têm filhos estrábicos."
A teoria da pangênese, assim como as idéias sobre a transmissão das características adquiridas foram adotadas por Darwin, em 1859, em suas explicações sobre a evolução.
 

Aristóteles (384-322 a.C.)

Para Aristóteles existia uma base física da hereditariedade no sêmen produzido pelos pais. Essa idéia foi fundamental para o desenvolvimento posterior da Genética pois a partir da sua proposição passou-se a considerar a hereditariedade como resultado da transmissão de algum tipo de substância pelos pais.
O termo "sêmen" foi usado por Aristóteles com o sentido de semente. Atualmente, o termo correspondente seria gametas, cujo papel na reprodução só foi estabelecido em meado do século XIX.
Aristóteles conhecia a hipótese da pangênese e apesar de relacionar argumentos importantes que apoiavam a pangênese como uma hipótese plausível, ele a rejeitou.
Algumas características não estruturais, como a voz ou o jeito de andar, que eram herdadas levaram Aristóteles a se perguntar como essas características poderiam produzir material para o sêmen. Além disso, filhos de pais com cabelos e barbas grisalhos não são grisalhos ao nascer.
As evidências mais importantes que refutaram, tanto a pangênese de Hipócrates, como a de Darwin, cerca de dois mil anos mais tarde, estavam ligados à não transmissividade das mutilações; plantas mutiladas produziam descendência perfeita, assim como homens que haviam perdido partes do corpo. Além disso, havia ainda o poderoso argumento de que se o pai e a mãe produzem sêmen com partículas precursoras de todas as partes do corpo, não deveria se esperar que os descendentes tivessem suas cabeças, quatro braços etc.?
Aristóteles era um cientista à frente do seu tempo. Ele propôs uma hipótese, que embora vaga, é ainda hoje considerada verdadeira acima de qualquer suspeita. Pode-se considerar que nenhum avanço relevante, em termos de transmissão das características hereditárias, foi alcançado até o final do século XIX, ou seja, a compreensão da hereditariedade não progrediu entre Aristóteles (384-322 a.C.) e Gregor Mendel (1899-1884).

São Paulo (Estado) Secretaria da Educação. Caderno do Aluno: Ensino Médio - 2a Série, 2o Bimestre - 2010, págs. 7-8.

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