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*Ciências da Natureza*

13

ago
2012

Filme inspira batismo de 17 espécies de aranhas

MARCO VARELLA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A presença do caçador alienígena à espreita na floresta no filme "O Predador" parece longe da realidade. Mas pesquisadores do Instituto Butantan encontraram 17 novas espécies de caçadores como o Predador espalhados pelo que restou da nossa mata atlântica.

São todas aranhas caçadoras de insetos, pertencentes ao novo gênero Predatoroonops. Esse gênero foi descrito pelos cientistas neste ano e recebeu esse nome em homenagem aos 25 anos de "O Predador", do diretor John McTiernan.

Cada uma das 17 novas espécies recebeu um nome em homenagem a um personagem ou ator do filme: da Predatoroonops schwarzeneggeri à Predatoroonops chicano.

Já os caçadores de novas espécies de aranhas são liderados por Antonio Brescovit, aracnólogo do Laboratório Especial de Coleções Zoológicas que vem estudando regiões da mata atlântica por seis anos.

"Essa descoberta é fundamental para mapear a diversidade da fauna local e mundial, além do estudo dos venenos e da biologia dos animais", disse Brescovit em comunicado oficial. Com um investimento de mais de US$ 3 milhões, o projeto pretende descobrir, agora, todas as espécies de aranhas da família Oonopidae, à qual pertence o novo gênero.

Para Hilton Japyassú, aracnólogo do Instituto de Biologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia), "trabalhos como este mostram o quanto ainda temos por descobrir. Vez por outra alguém descreve um mamífero, ou uma ave nova, mas nossa maior riqueza sem dúvida vem dos invertebrados, fonte permanente de novos compostos orgânicos para explorações futuras".

image

CARA DE UM, FOCINHO DO OUTRO

As aranhas do novo gênero apresentam uma morfologia na parte da frente do corpo semelhante à cara do Predador, personagem do filme, daí a ideia fazer a homenagem cinematográfica.

Elas têm suas quelíceras --primeiro par de apêndices perto da boca-- com diversas articulações. Nos invertebrados, as quelíceras em geral servem para apanhar as presas e, nas aranhas, podem ser pontiagudas para injetar a peçonha, tóxica para a caça.

Apenas os machos da espécie apresentam essa especialização e ainda não se sabe ao certo quais as suas funções. Os bichos medem apenas entre 1 mm e 2 mm.

O fato de estarem presentes apenas nos machos pode indicar serem fruto da seleção sexual, funcionando tanto como armas na competição com outros machos quanto como ornamentos, atraindo as fêmeas para a reprodução.

IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA

"Essas aranhas geralmente habitam a serrapilheira --aquela camada de folhas mortas que recobre o solo das florestas tropicais-- e o conhecimento de sua diversidade e hábitos pode nos ajudar a entender os mecanismos biológicos associados aos processos de decomposição, um elo fundamental na manutenção de nossos ecossistemas", diz Hilton Japyassú.

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15

mai
2011

E ainda nos achamos superiores

O massacre de nove gorilas no Congo expõe os riscos de extinção da espécie Denise Dweck (fonte: Revista Veja - 29/08/2007)

O Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo, é o principal santuário dos gorilas-das-montanhas na África. Lá vive metade dos 700 animais da espécie que restam no mundo. Assim como os gorilas das planícies, mais numerosos, eles vêm sendo eliminados sistematicamente por
caçadores e pela destruição de seu habitat.

Os gorilas são hoje uma das 7.700 espécies de animais do planeta ameaçadas de extinção. Por esse motivo, causou choque e revolta a execução sumária de nove gorilas do Parque de Virunga nos últimos sete meses.

Os animais não foram mortos por caçadores profissionais, já que os corpos foram abandonados na selva, alguns deles parcialmente queimados. Além disso, foram encontrados junto a eles, vivos, dois gorilas bebês, que valeriam 10.000 dólares no mercado negro de animais selvagens.

Os guardas do parque logo elucidaram a charada: os matadores foram capangas dos madeireiros e carvoeiros da região, impedidos de entrar na reserva para derrubar árvores e afeitos a barbáries desse tipo como forma de retaliação e intimidação.

"O primeiro passo para proteger os gorilas-das-montanhas do Congo é colocar mais guardas nas reservas e demitir os guardas corruptos, aliciados pelos exploradores em troca de propina", disse a VEJA o paleontólogo queniano Richard Leakey, presidente do programa africano de conservação ambiental Wildlife Direct.

A matança dos gorilas de Virunga não é um episódio isolado. Nos últimos dez anos, a eliminação de animais selvagens na África e na Ásia, por ação do homem, conheceu uma escalada sem precedentes na história recente.

Em grande parte, ela se deve a um ciclo perverso que começa com a multiplicação de madeireiras, mineradoras e carvoarias instaladas nas florestas. A atividade extrativista reduz o habitat de muitas espécies - e essa não é a única ameaça que ela representa.

O primeiro passo das empresas, ao ganharem concessões para explorar os negócios de mineração e madeira, é rasgar estradas para escoar sua produção. As estradas servem também para que os caçadores penetrem cada vez mais fundo na selva em busca de suas presas. "Praticamente todas as florestas tropicais da África e da Ásia são hoje cortadas por estradas", aponta a bióloga Elizabeth Bennett, da Wildlife Conservation Society.

Os caçadores se multiplicam e se tornam mais ousados porque a caça de animais selvagens nunca foi um negócio tão lucrativo. A demanda por pele, dentes, presas e até pela carne dos animais da floresta é cada vez maior.

Na Inglaterra, no ano passado, funcionários da alfândega apreenderam 163.000 produtos e objetos feitos com partes de animais selvagens, muitos deles ameaçados de extinção. O maior volume de apreensões foi de remédios da medicina oriental.

O uso de tecidos, órgãos e glândulas de animais na medicina, a opoterapia, é um costume arraigado na cultura da China há muito tempo. Os chineses atribuem aos ossos do tigre poderes antiinflamatórios e aos testículos, propriedades afrodisíacas. Um tigre morto e dividido em pedaços pode render até 50.000 dólares. Os animais selvagens também vão parar na mesa das populações pobres da África. Para muita gente, sua carne constitui a única forma de adicionar proteínas à dieta.

A experiência mostra que as ações de proteção aos animais e os parques de preservação são eficazes para evitar a extinção das espécies. As baleias jubarte, que costumam aparecer na costa brasileira, quase foram extintas nos anos 60.

A pesca fez sua população cair de 200.000 para 15.000 animais. Com a ação de grupos de proteção, hoje já existem 35.000 baleias jubarte nos oceanos. No sul da África, a população de rinocerontes-brancos, que há um século era de apenas cinquenta, está em 11.000, graças à criação de parques nacionais e ao remanejamento de animais.

A preservação de espécies não é tarefa fácil. Cada uma exige um projeto especial, dependendo de suas características e das ameaças sofridas. Em vários países africanos, especialmente no Quênia, a opção para evitar a extinção de animais foi investir no turismo, transformando os safáris de caça em safáris fotográficos. Assim, as populações locais e estrangeiras se conscientizam da necessidade de manter os animais vivos.

O mesmo foi feito no Parque Nacional de Virunga, onde os turistas pagam 500 dólares para passar uma hora ao lado dos gorilas e fotografá-los. Mesmo assim, os animais do parque congolês continuam a sofrer as investidas dos caçadores e, como se viu após o massacre de nove gorilas, dos capangas dos donos de madeireiras.

FAMÍLIAS QUE ENCOLHERAM

Há hoje 7.700 espécies de animais ameaçadas de extinção, entre elas¿1.090 de mamíferos. Além dos gorilas, estes são os casos mais dramáticos:

Tigre
Onde vive: leste e sudeste da Ásia
Situação: há 100 anos, eram 100.000 animais. Hoje, são 6.000. Três das nove subespécies já estão extintas
Por que a espécie está sumindo: caça para alimentar o comércio ilegal de pele, ossos e órgãos para fabricação de remédios da medicina oriental. Além disso, apenas nos últimos dez anos o habitat dos tigres foi reduzido em 40%

Hipopótamo-pigmeu
Onde vive: Libéria, Serra Leoa, Guiné e Costa do Marfim
Situação: há hoje menos de 3.000 animais da espécie
Por que a espécie está sumindo: redução do habitat e caça

Hipopótamo
Onde vive: África
Situação: desde 1994, o número de exemplares caiu de 160.000 para 125.000. Apenas na República Democrática do Congo a população de hipopótamos passou de 30.000 para 1.500 animais
Por que a espécie está sumindo: caça para venda da carne e para extração dos dentes, usados em jóias

Orangotango
Onde vive: Sudeste Asiático
Situação: em 100 anos, a população foi reduzida em 91%. Hoje, há 30.000 espécimes
Por que a espécie está sumindo: os orangotangos são caçados e vendidos como alimento ou como animais de estimação. Além disso, nos últimos vinte anos cerca de 80% de seu habitat foi destruído

Rinoceronte-negro
Onde vive: África do Sul, Namíbia, Quênia e Zimbábue
Situação: de 1970 até 1994, o número de animais caiu de 60.000 para 2.550. Nos últimos anos, um esforço de conservação permitiu o aumento da população para 3.600 animais
Por que a espécie está sumindo: caça-se o rinoceronte-negro para retirar os chifres, usados na China para fazer remédios e em artesanato

Elefante africano
Onde vive: África
Situação: em sessenta anos, a população foi reduzida de 5 milhões de animais para 700.000
Por que a espécie está sumindo: os elefantes são mortos para que as presas de marfim sejam retiradas

Gorila-das-montanhas
Onde vive: Congo, Ruanda e Uganda
Situação: hoje, há apenas 700 exemplares
Por que a espécie está sumindo: durante a guerra civil em Ruanda, entre 1990 e 1994, os parques nacionais ficaram sem policiamento e a caça desenfreada reduziu o número de gorilas da região em 30%. Aproveitando-se da fiscalização deficiente e corrupta, caçadores continuam a abater os gorila

 

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6

abr
2011

A biodiversidade do mundo atual

(fonte: Redefor)

 

Cerca de 2 milhões de espécies de animais, plantas e microrganismos já foram descritos pelos cientistas ao redor do mundo.

Esse número, no entanto, é apenas uma parcela da biodiversidade que atualmente habita a Terra. Milhares de espécies desconhecidas são descobertas todos os anos, especialmente de organismos de pequeno porte, como insetos e micro-organismos.

São descritas a cada ano, em média, mais de 7.000 espécies de insetos (2.500 só de besouros!), mais de 1.500 espécies de fungos e cerca de 400 vertebrados (especialmente peixes, anfíbios e répteis). Mesmo para os grupos de vertebrados mais conhecidos, a taxa de descoberta de novas espécies ainda é alta: em média, 25 novas espécies de mamíferos e 5 de aves são descritas anualmente.

As estimativas do total de espécies viventes variam de alguns milhões a várias dezenas de milhões. Esses números - dezenas de milhões de espécies - são resultado de uma série de extrapolações feitas a partir de insetos capturados em copas de árvores de florestas tropicais e de vermes nematódeos no fundo de oceanos. Como isso acontece?

Fez-se a contagem de espécies ainda desconhecidas em uma determinada área (copa de árvore ou fundo de oceano, por exemplo) e, a partir disso, foram feitas projeções, estimativas, de quantos haveria no total. Entretanto, essas extrapolações são, em geral, amplamente criticadas pelos cientistas, e várias evidências contrárias a elas estão-se acumulando nos últimos 10 anos. Atualmente, são mais aceitas estimativas ao redor de 10 a 15 milhões de espécies.

 

Grupos

Número de espécies descritas

Total Estimado

 

Virus

6.000

500.000

 

Bactérias

10.000

400.000

Animais

mamíferos

4.600 

5.500

aves

9.900 

10.300

répteis

8.100 

9.700

anfíbios

5.500 

7.200

peixes

28.400 

35.000

insetos e miriápodos

980.000

6.000.000

aracnídeos e outros

80.000

750.000

moluscos

70.000

200.000

crustáceos

40.000

150.000

nematódeos

25.000

400.000

Fungos (total)

72.000

1.500.000

algas

23.500 

musgos

12.800 

pteridófitas (samambaias)

12.000 

gimnospermas (pinheiros)

800 

angiospermas

220.000 

protistas

40.000

600.000

Total

~1.750.000

10 a 15 milhões

                                                          Adaptado de www.redefor.usp.br

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27

mar
2011

Diferentes tipos de extinção

Já que estamos falando em história da vida, você faz idéia de quantas espécies já existiram em nosso planeta desde o surgimento da vida até agora?

Faça as contas: estima-se que hoje existam entre 2 e 4% de todas as espécies que já existiram na Terra. Isso já nos dá uma indicação: tanto as extinções naturais como aquelas causadas por catástrofes são fenômenos corriqueiros na história do nosso planeta. Estima-se que, em média, 2,5 espécies por ano se tenham extinguido nos últimos 600 milhões de anos. De novo, faça as contas! Isso dá um total de 1,5 bilhão de espécies!

A extensão e, portanto, as consequências das extinções podem variar. Uma espécie que só existe em uma única ilha será totalmente extinta se essa única população desaparecer. Por sua vez, uma espécie que ocorre em grande área em um continente, por exemplo, pode ter algumas de suas populações extintas em partes de sua distribuição. Essas extinções locais, geralmente, resultam na diminuição da variabilidade genética da espécie, mas não em sua extinção, que só ocorreria se todas as populações fossem extintas. Além disso, as extinções locais podem ser revertidas, caso o fator causador seja controlado, ao passo que as extinções globais são irreversíveis.

Podemos classificar as extinções por meio de suas causas. Por exemplo, uma espécie pode ser extinta simplesmente se seu habitat for totalmente destruído e ela não for capaz de viver em outros habitats. Adivinhe qual é o tipo de extinção mais provocado pelo ser humano? Você acaba de receber um prêmio: é esse mesmo! Outra causa: a humanidade pode explorar uma espécie a tal ponto que ela acaba por se extinguir. Isso não lhe lembra um pouco o parasitismo? Em outros casos, o homem introduz predadores ou herbívoros em comunidades das quais eles não faziam parte anteriormente, o que pode levar a extinções.

Seja qual for a causa das extinções provocadas pela interferência humana - direta ou indireta -, o fato é que a lista mundial de espécies ameaçadas conta atualmente com 707 espécies animais e 84 espécies de plantas extintas, quase a totalidade delas desaparecida nos últimos 400 anos. Essa lista fúnebre inclui 76 mamíferos, 132 aves, 58 peixes, 20 répteis, 37 anfíbios e cerca de 380 invertebrados.

É importante notar que essas listas se referem apenas às extinções conhecidas. Certamente números muito maiores de animais e plantas foram extintos - especialmente pela destruição de seus habitats - sem que a humanidade sequer se desse conta. Para as plantas, embora apenas 84 espécies estejam comprovadamente extintas, estima-se que quase 400 espécies já tenham desaparecido.

É possível que o número de extinções em ecossistemas pouco estudados, como os marinhos, seja comparável ou até maior do que naqueles sobre os quais temos informação. Com base na biodiversidade das florestas tropicais e nas taxas de desmatamento atuais, estima-se que dezenas de milhares de espécies estão sendo extintas a cada ano ao redor do planeta.

Como você viu, uma das principais causas de extinção e, por conseguinte, de perda de biodiversidade, é a destruição de habitats. Hoje se admite que praticamente não exista habitat tropical que não tenha sido impactado, em maior ou menor grau, pelo ser humano.

Para você ter uma ideia, se somarmos as áreas de floresta tropical de todo o planeta, teremos uma vez e meia a área do Brasil. Há pouco mais de 500 anos, essa área total equivalia a cerca de quatro vezes a área do nosso país. Conseguimos destruir mais em 500 anos do que em toda a história anterior da humanidade!

Hoje, mais da metade do que restou das florestas tropicais se encontra nas Américas e, nesse cenário, o Brasil é, de longe, o país com a maior área florestal tropical do mundo. Orgulho? Sim! Mas também responsabilidade. (fonte: www.redefor.usp.br)

Para você ter uma noção da taxa de destruição dos habitats tropicais, vamos executar uma atividade.

Faça uma pesquisa na internet. Busque imagens de mapas que apresentem a distribuição da área coberta por vegetação no passado e nos dias atuais, dos seguintes biomas: 

Mata Atlântica; Mata Amazônica, e Cerrado.

 

Em seguida responda as questões abaixo nos comentários:

1. qual desses biomas é o mais impactado. Por quê?

2. qual as causas dos impactos nesse bioma?

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6

out
2010

História do Jeca Tatu

Monteiro Lobato

Jeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia da mulher, muito magra e feia e de vários filhinhos pálidos e tristes.

Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarrões de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Ia ao mato caçar, tirar palmitos, cortar cachos de brejaúva, mas não tinha idéia de plantar um pé de couve atras da casa. Perto um ribeirão, onde ele pescava de vez em quando uns lambaris e um ou outro bagre. E assim ia vivendo.

Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho de três pernas, umas peneiras furadas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária, e só.

Todos que passavam por ali murmuravam:

Que grandíssimo preguiçoso!

Jeca Tatu era tão fraco que quando ia lenhar vinha com um feixinho que parecia

brincadeira. E vinha arcado, como se estivesse carregando um enorme peso.

Por que não traz de uma vez um feixe grande? Perguntaram-lhe um dia.
Jeca Tatu coçou a barbicha rala e respondeu:

Não paga a pena.
Tudo para ele não pagava a pena. Não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar arvores de fruta, nem remendar a roupa.

Só pagava a pena beber pinga.

Por que você bebe, Jeca? Diziam-lhe.
Bebo para esquecer.
Esquecer o quê?
Esquecer as desgraças da vida.
E os passantes murmuravam:

Além de vadio, bêbado...

Jeca possuía muitos alqueires de terra, mas não sabia aproveitá-la. Plantava todos os anos uma rocinha de milho, outra de feijão, uns pés de abóbora e mais nada. Criava em redor da casa um ou outro porquinho e meia dúzia de galinhas. Mas o porco e as aves que cavassem a vida, porque Jeca não lhes dava o que comer. Por esse motivo o porquinho nunca engordava, e as galinhas punham poucos ovos.

Jeca possuía ainda um cachorro, o Brinquinho, magro e sarnento, mas bom companheiro e leal amigo.

Brinquinho vivia cheio de bernes no lombo e muito sofria com isso. Pois apesar dos ganidos do cachorro, Jeca não se lembrava de lhe tirar os bernes. Por que? Desânimo, preguiça...

As pessoas que viam aquilo franziam o nariz.

Que criatura imprestável! Não serve nem para tirar berne de cachorro...

Jeca só queria beber pinga e espichar-se ao sol no terreiro. Ali ficava horas, com o cachorrinho rente; cochilando. A vida que rodasse, o mato que crescesse na roça, a casa que caísse. Jeca não queria saber de nada. Trabalhar não era com ele.

Perto morava um italiano já bastante arranjado, mas que ainda assim trabalhava o dia inteiro. Por que Jeca não fazia o mesmo?

Quando lhe perguntavam isso, ele dizia:

Não paga a pena plantar. A formiga come tudo.
Mas como é que o seu vizinho italiano não tem formiga no sítio?
É que ele mata.
E porque você não faz o mesmo?
Jeca coçava a cabeça, cuspia por entre os dentes e vinha sempre com a mesma história:

Quá! Não paga a pena...
Além de preguiçoso, bêbado; e além de bebado, idiota, era o que todos diziam.

Um dia um doutor portou lá por causa da chuva e espantou-se de tanta miséria. Vendo o caboclo tão amarelo e chucro, resolveu examiná-lo.

Amigo Jeca, o que você tem é doença.

Pode ser. Sinto uma canseira sem fim, e dor de cabeça, e uma pontada aqui no peito que responde na cacunda.
Isso mesmo. Você sofre de anquilostomiase.
Anqui... o quê?
Sofre de amarelão, entende? Uma doença que muitos confundem com a maleita.
Essa tal maleita não é a sezão?
Isso mesmo. Maleita, sezão, febre palustre ou febre intermitente: tudo é a mesma coisa, está entendendo? A sezão também produz anemia, moleza e esse desânimo do amarelão; mas é diferente. Conhece-se a maleita pelo arrepio, ou calafrio que dá, pois é uma febre que vem sempre em horas certas e com muito suor. O que você tem é outra coisa. É amarelão.

O doutor receitou-se o remédio adequado; depois disse: "E trate de comprar um par de botinas e nunca mais me ande descalço nem beba pinga, ouviu?"

Ouvi, sim, senhor!
Pois é isso, rematou o doutor, tomando o chapéu. A chuva passou e vou-me embora. Faça o que mandei, que ficará forte, rijo e rico como o italiano. Na semana que vem estarei de volta.
Até por lá, sêo doutor!
Jeca ficou cismando. Não acreditava muito nas palavras da ciência, mas por fim resolveu comprar os remédios, e também um par de botinas ringideiras.

Nos primeiros dias foi um horror. Ele andava pisando em ovos. Mas acostumou-se, afinal...

a história também pode ser encontrada neste link: http://www.miniweb.com.br/literatura/artigos/jeca_tatu_historia1.html

 

Curiosidade

Monteiro Lobato e a gênese do Jeca Tatu

As expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz, no início do século 20, permitiram um maior conhecimento das moléstias que assolavam o país e possibilitaram a ocupação e a integração do interior brasileiro. "O Brasil é um país doente", diziam os pesquisadores. O contato de Monteiro Lobato com os trabalhos de Belisário Pena e Arthur Neiva, levou o criador de Emília a alterar completamente a concepção de um de seus famosos personagens, o Jeca Tatu, e engajar-se numa campanha pelo saneamento do país.

Monteiro Lobato improvisou-se de fazendeiro ao herdar terras de seu avô. Em 1917, uma seca terrível assola a região. O problema era agravado pelas queimadas, executadas pelo povo da roça; Lobato indignado, (...) escreveu uma carta de protesto ao jornal Estadão, com o título "A velha praga":

"Este funesto parasita da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização..."

Foi pouca a repercussão do primeiro artigo, mas Lobato voltou a tratar do assunto em Urupês. Surgia o Jeca Tatu, nome que se generalizou no país todo como sinônimo de caipira. Jeca Tatu tornou-se, segundo Rui Barbosa, "símbolo de preguiça, fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e embotamento".

Mas a convivência com os pesquisadores levou Lobato a rever totalmente sua concepção de Caboclo. E, no prefácio da quarta edição de Urupês, o autor retificou: "Eu ignorava que eras assim, eu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte".

Indignado com a situação do país, Monteiro Lobato iniciou uma vigorosa campanha jornalística em favor do saneamento. Expôs sem pudores a realidade nacional, apresentando estatísticas: 17 milhões com ancilostomose, 3 milhões com Chagas, 10 milhões com malária. "O véu foi levantado. O microscópio falou". Censurou também o descaso das elites: "Legiões de criancinhas morrem como bichos de fome e verminose. Nós abrimos subscrições para restaurar bibliotecas belgas".

A campanha acabou forçando o goerno a dar atenção ao problema sanitário. Criou-se uma campanha de saneamento em São Paulo, o código sanitário foi remodelado e transformado em lei. Monteiro Lobato achava necessário não mobilizar apenas as elites, mas alertar e educar o povo, principal vítima da falta de saneamento. Escreveu então Jeca Tatu - a ressurreição. O conto, mas conhecido como Jeca Tatuzinho, serviu de inspiração para uma história em quadrinhos bastante popular, que foi divulgada em todo país por meio de um almanaque. Jeca, considerado preguiçoso e idiota por todos, descobre que sofre de amaraelão. Trata-se. E transforma-se em fazendeiro rico.

(Fonte: Ana Palma - Agência Fiocruz de Notícias; extraído do livro Biologia de Mendonça e Laurence, editora Nova Geração, vol.2, 2011)

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18

set
2010

Surto de ascaridíase intradomiciliar em região urbana

Em 6 de junho de 2008 a Vigilância Epidemiológica de Jacareí, SP, recebeu a notificação de ocorrência de um surto de diarréia por ascaridíase envolvendo uma família de dez pessoas, entre elas, um óbito, atendidas na Santa Casa de Misericórdia e posto de saúde da cidade. Jacareí, um município com 210.988 habitantes (IBGE, 2008), com taxa de urbanização de mais de 95%, localiza-se na região do Vale do Paraíba, a 19 quilômetros de São José dos Campos e a 80 quilômetros da capital. Possui 20 unidades públicas de saúde (unidades básicas de saúde, programa de saúde da família, unidades mistas e pronto-socorro conveniado), seis unidades de referência em diferentes especialidades, um laboratório municipal, dois hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e três particulares. É considerado município com boas condições sociais e econômicas, com 98% de ligações de água e 95% de esgoto sanitário coletado, estando entre as regiões de alto desenvolvimento.

Foram identificados dez casos de ascaridíase, sete deles internados na Santa Casa de Jacareí, e um óbito domiciliar. (...) Todos apresentaram diarréia desde o dia 2/6/2008 e eliminavam vermes via oral, nasal e intestinal. (...)

A criança que foi a óbito em casa foi encaminhada à Santa Casa já em rigidez cadavérica. Na tentativa de entubação para ressuscitação, a equipe médica constatou a saída de vermes via oral e nasal. A causa mortis foi perfuração intestinal por Ascaris.

Em 10/6/2008 cinco pessoas da família receberam alta hospitalar, exceto duas crianças, uma que ainda eliminava verme e outra que se mantinha com quadro grave. Em 15/6/2008, ambas as crianças receberam alta hospitalar.

Todas as crianças estavam com o esquema de  vacinação em atraso, não possuíam os documentos legais, não tinham acompanhamento médico e não frequentavam a escola. Importante ressaltar que o endereço de residência era no centro da cidade; porém, a família não usufruía de água da rede pública por estar em débito com a companhia de abastecimento local, com uma dívida de cerca de R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais). Também não recebia Bolsa-Família por não cumprir o exigido e não estava inserida no Programa de Leite Fluído, por abandono. (...)

O episódio em questão causa perplexidade - em pleno 2008, no Vale do Paraíba, eixo Rio-São Paulo, pólo industrial importante do Estado de São Paulo e Brasil -, porque demonstra que ainda morre criança com perfuração intestinal por Ascaris lumbricoides, e, especialmente, pelo fato de que focos de exclusão social e de saúde podem existir em meio a toda uma infraestrutura urbana ou frente a políticas de saúde e sociais em vigor.

Muito se refletiu sobre o episódio. De um lado, tentamos mostrar a responsabilidade desses genitores junto aos seus filhos e que não podem simplesmente "esperar sentados" pela ação dos gestores municipais. É importante pedir ajuda e lutar por ela. Por outro lado, torna-se evidente a necessidade de atuações mais dinâmicas e ativas frente a possíveis focos de exclusão social e de saúde. Atitudes proativas em políticas de saúde pública são necessárias, pois permitem responder mais eficazmente ao conceito universal de medicina preventiva e ao de multifatorialidade, isto é, dispor de equipe composta por vários setores capazes de oferecer os cuidados de saúde às populações, em particular às mais carentes, entendendo-se que saúde representa bem-estar físico, emocional, mental, social e espiritual.

Elaborado por: Mariza Innocente, Luciana de Almeida Oliveira, Cristina Gehrke
Departamento de Vigilância à Saúde. Vigilância Epidemiológica. Prefeitura de Jacareí, SP, Brasil

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