Portal da Educao Adventista

*Profª Ritíssima *

22

jul
2010

Vamos brincar de poesia?

VAMOS BRINCAR DE POESIA?

Poesia

é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.

Só que

bola, papagaio, pião,

de tanto brincar,

se gastam.

As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas,

mais novas ficam.

Como a água do rio,

que é água sempre nova.

Como cada dia,

que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes

 

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22

jul
2010

Retrato

 

 

 

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

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22

jul
2010

Comunique-se com seus filho

Coleção em três volumes:

 

Comunique-se com seu filho de 0 a 5 anos;          

Comunique-se com seu filho de 6 a 11 anos;

Comunique-se com se filho adolescente.

Os três livros são um guia completo para pais durante toda a educação dos filhos, pequenos ou grandes, meninas ou meninos, do nascimento ao final da adolescência.  Escritos pelo pedopsiquiatra Antoine Alaméda, especialista em família, foi durante muitos anos responsável pelo serviço de consultas da infância e da adolescência de um importante hospital francês. Dirige o centro de ação médico-social precoce da primeira infancia em Toulon.

Achei a linguagm acessível e de bom gosto. Pode ajudar professores e orientadores a entenderem alunos que estão a nossos cuidados.

Rita!

 

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21

jul
2010

A rosa do Povo

                                                                                                                    

       A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade ( Resumo)

 

Publicado em 1945, Rosa do Povo é aclamado por inúmeros setores da crítica literária como a melhor obra de Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da Literatura Brasileira e um dos três mais importantes de toda a Língua Portuguesa. Antes que se comece a visão sobre esse livro, necessária se faz, no entanto, uma recapitulação das características marcantes do estilo do grande escritor mineiro.

Desde o seu batismo de fogo em 1928, com a publicação do célebre "No Meio do Caminho", na Revista de Antropofagia, Drummond ficou conhecido como "o poeta da pedra". Ao invés de se sentir ofendido com tal apelido, de origem pejorativa, acaba assumindo-o, transformando-o em um dos símbolos de seu fazer literário.

De fato, obedecendo a um quê de Mallarmé em sua ascendência (principalmente no que se refere à idéia de poesia como algo ligado à mineral), a dureza e até a frieza da pedra marcam a poesia drummondiana, pois ela é dotada não de uma insensibilidade, mas de uma afetividade contida.

Torna-se, portanto, um dos pilares da poesia moderna (junto de Bandeira e João Cabral), afastando do lugar nobre de nossa literatura o melodrama, a emoção desbragada, descontrolada e descabelada que por muito tempo imperaram por aqui.

Dessa forma, vai sempre se mostrar um eu-lírico discreto ao sentir o seu círculo e o seu mundo até mesmo quando vaza críticas, muitas vezes feitas sob a perspectiva da ironia. Aliás, essa figura de linguagem é muito comum na estética do autor, pois pode ser entendida como uma forma torta de dizer as coisas. Não se deve esquecer que essa qualidade nos remete ao célebre adjetivo gauche (termo francês que significa torto, sem jeito, desajeitado), poderoso determinante da produção do autor.

Tal caráter está não só na linguagem (que muitas vezes não tem os elementos considerados óbvios para a poesia), mas também pode ser encontrado na maneira deslocada como se relaciona com o seu mundo, o que pode ser justificado pela sua origem, pois é um homem de herança rural, filho de fazendeiros, que acaba se encontrando no ambiente urbano (essa mudança de plano é uma característica encontrada em vários escritores modernistas, o que possibilita afirmar que Drummond, se não é o símbolo de sua geração, é o representante do próprio Brasil, que estava se tornando urbano, mas que carregava ainda uma forte herança rural.).

No entanto, ao invés de esse seu sem jeito tornar-se elemento pejorativo, acaba por dar-lhe uma potência fenomenal na análise social e existencial. Posto à margem do sistema, consegue ter uma visão mais clara e menos comprometida pela alienação dos que se preocupam em cumprir seus compromissos rotineiros. Eis o grande feito de Rosa do Povo.

Para a compreensão dessa obra, bastante útil é lembrar a data de sua publicação: 1945. Trata-se de uma época marcada por crises fenomenais, como a Segunda Guerra Mundial e, mais especificamente ao Brasil, a Ditadura Vargas. Drummond mostra-se uma antena poderosíssima que capta o sentimento, as dores, a agonia de seu tempo. Basta ler o emblemático "A Flor e a Náusea", uma das jóias mais preciosas da presente obra.

A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Nota-se no poema um eu-lírico mergulhado num mundo sufocante, em que tudo é igualado a mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo. Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil, insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil, marcado por "fezes, maus poemas, alucinações".

No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial (que pode ser representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro), o poeta vislumbra uma saída. Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação - o poeta já deu sinais claros no texto de que não é capaz disso. Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança - ela de fato está para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da rosa, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o que mantém o poeta vivo em meio a tanto desencanto.

Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra, acaba por explicar o seu título. Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a rosa indica o desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta.

E a expressão "do povo" pode estar ligada a uma tendência esquerdista, socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica ao universo capitalista na primeira ("Melancolias, mercadorias espreitam-me.") e terceira estrofes ("Sob a pele das palavras há cifras e códigos."). O novo mundo, portanto, teria características socialistas.

O outro item é visto pelo estreito relacionamento que "A Flor e a Náusea" estabelece com o poema a seguir, "Áporo", um dos mais estudados, densos, complexos e enigmáticos da Literatura Brasileira.

ÁPORO

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

Note que a narrativa parece ser tirada de "A Flor e a Náusea": um inseto, o áporo, cava a terra sem achar saída. Assemelha-se ao eu-lírico do outro poema, que se via diante de um muro e da inutilidade do discurso. No entanto, Drummond continua discursando, vivendo, assim como o inseto continua cavando. Então, do impossível surge a transformação: do asfalto surge a flor, da terra-labirinto-beco surge a orquídea.

Há algo aqui que faz lembrar o poema "Elefante", também no mesmo volume. Da mesma forma como Drummond fabrica seu brinquedo, mandando-o para o mundo, de onde retorna destruído (mas no dia seguinte o esforço se repete), o eu-lírico de "A Flor e a Náusea" sobrevive em seu cotidiano nulo e nauseante e o áporo perfura a terra. É a temática do "no entanto, continuamos e devemos continuar vivendo", tão comum em vários momentos de A Rosa do Povo.

"Áporo", portanto, é um poema tão rico que pode ter outras leituras, além dessa de teor existencial. Há também, por exemplo, a interpretação política, que enxerga uma referência a Luís Carlos Prestes ("presto se desata"), que acabara de ser libertado pelo regime ditatorial. A figura histórica pode ser vista, portanto, como um áporo buscando caminho na pátria sem saída que se tornou o Brasil na Era Vargas.

Ainda assim, existe quem veja no texto um mero - e inigualável - exercício lúdico, em que as palavras são contempladas, manipuladas, transformadas. Basta lembrar, por exemplo, que "áporo", além de ser a designação do inseto cavador, é também um termo usado em filosofia e matemática para uma situação, um problema sem solução, sem saída. Além disso, a essência etimológica da palavra inseto é justamente as letras "s" e "e", diluídas no corpo do texto.

Observe como tal pode ser esquematizado:

Um inSEto cava
cava SEm alarme
perfurando a terra
SEm achar EScape.
Que faZEr, ExauSto,
Em paíS bloqueado,
enlaCE de noite
raiZ E minério?
EiS que o labirinto
(oh razão, miStÉrio)
prESto SE dESata:
em verdE, Sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-SE.

Note que a essência do áporo, do inseto, vai se movimentando em todo o poema, transformando-se, até o ápice do último verso da terceira estrofe. É o momento da transformação e da iniciação, já anunciadas na segunda estrofe na aliteração do /s/ e do /t/ e da assonância do /e/ que acabam criando a forma verbal "encete" (ENlaCE de noiTE), que significa principiar, mas que possui também uma forte aproximação sonora com "inseto". A mutação final virá no último verso: o áporo inseto se transforma em áporo orquídea ("áporo" é também o nome de um determinado tipo de orquídea), a flor que se desabrocha para a libertação.

Tanto que a raiz SE está prestes a se libertar, pois virou a forma pronominal "se" (e, portanto, com relativa vida própria) que encerra o poema. Tal trabalho com a linguagem é a base de todo texto poético, como é defendido pelo próprio Drummond em "Procura da Poesia", transcrito abaixo:

PROCURA DA POESIA

Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de
espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Esse antológico poema é dividido em duas partes. Na primeira apresentam-se proibições sobre o que não deve ser a preocupação de quem estiver pretendendo fazer poesia. Sua matéria-prima, de acordo com o raciocínio exibido, não são as emoções, a memória, o meio social, o corpo.

Na segunda parte explica-se qual é a essência da poesia: o trabalho com a linguagem. O poema pode até apresentar temática social, existencial, laudatória, emotiva, mas tem de, acima de tudo, dar atenção à elaboração do texto, ou seja, saber lidar com a função poética da linguagem.

A riqueza de A Rosa do Povo não se restringe, porém, às temáticas abordadas. Há uma profusão de outros assuntos, como a abordagem da cidade natal ("Nova Canção do Exílio", em que há uma reinterpretação do "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias), a observação do problemático cotidiano social ("Morte do Leiteiro", em que o protagonista, que dá nome ao poema, acaba sendo assassinado em pleno exercício de sua função por ser confundido com um ladrão, o que possibilita uma crítica às relações sociais esgarçadas pelo medo), a rememoração dos parentes

("Retrato de Família", em que o eu-lírico percebe a viagem através da carne e do tempo de uma constante eterna ligada à idéia de família) e o amor como experiência difícil, o famoso amar amaro ("Caso de Vestido", em que o eu-lírico, uma mulher, narra o sofrimento por que passou quando da perda do seu marido e quando também da recuperação dele).

Em suma, Rosa do Povo é obra monumental que merece não apenas ser lida para um vestibular, mas fruída para se tornar uma das grandes experiências de nossa existência.

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21

jul
2010

viagem no espelho

                                  VIAGEM NO ESPELHO

 

Helena Kolody (Resumo)

Viagem no Espelho, de Helena Kolody, reúne livros publicados pela autora, de 1941 a 1986. Nessa publicação, encontram-se vários poemas que têm como assunto a própria poesia (metapoesia). O tempo constitui "a nota mais relevante da obra", no dizer do crítico Antonio Manoel.

É obra representativa da poesia breve, portanto, nela, predominam os poemas curtos. Cultora do haikai, Helena Kolody tem o poder de transformar sua sabedoria de vida em poemas luminosos, ainda que seus temas possam ser densos e mesmo trágicos: o amor, a morte, o tempo, o envelhecimento, a banalização da vida, a tecnologia destrutiva e a falta de fraternidade entre os seres humanos.

Helena Kolody -  A sensível percepção de mundo por Andressa Villar

Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.
E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei.
(Eu Comigo - Helena Kolody)

Helena Kolody é uma das figuras mais importantes das letras paranaenses, embora ainda não haja gravado o seu nome no quadro mais amplo do reconhecimento nacional. Poetisa de atitudes discretas, alheia às autopromoções.

Contudo, pelo tom da voz, pela delicadeza dos sentimentos, pela autenticidade lírica e pela temática, ela é, com certeza, a poetisa representativa de seu estado. E isso não apenas pela maturidade regional, mas também por haver acrescentado a voz do imigrante à temática da poesia brasileira.

Os pais de Helena Kolody eram ucranianos. Conheceram-se e se casaram no Brasil. A primeira filha do casal, Helena, nasceu no dia 12 de outubro de 1912. Fez o curso primário em Rio Negro - PR e, em seguida, mudou-se para Curitiba, onde ficou por dois anos. Voltou a residir em Mafra/Rio Negro, onde estudou piano, pintura e escreveu seus primeiros versos aos 12 anos.

Seu primeiro poema publicado intitulava-se "A Lágrima". Ela estava, então, com 16 anos. Nesse início de carreira, a maior divulgadora da obra de Helena Kolody foi a revista "Marinha", de Paranaguá. Com 20 anos de idade, Helena iniciou a carreira de professora.

Trabalhou em diversos colégios. Só no atual Instituto de Educação, de Curitiba, lecionou por 23 anos. Exerceu apaixonadamente a profissão do magistério, a qual foi muito importante para sua formação e para a qual a Escola Nova (movimento eclético e de origens muito complexas) de certa forma colaborou para seu pioneirismo e arrojo e contribuiu na renovação dos conceitos e das normas educacionais.

"Paisagem Interior", seu primeiro livro, foi dedicado ao pai, Miguel Kolody. Porém, ele não pôde vê-lo, pois faleceu dois meses antes de a obra ser publicada, no ano de 1941. Na seqüência, são publicados: "Música Submersa", "A Sombra do Rio", "Vida Breve", "Era Espacial" e "Trilha Sonora", "Tempo", "Correnteza", "Infinito Presente", "Sempre Palavra", "Poesia Mínima", "Viagem no Espelho", "Ontem Agora", "Reika".

Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa a expressão verdadeira dos sentimentos, como vemos no poema Cântico de 1941: A luz do teu olhar é a estrela solitária / Da noite deste amor, que é feito de silêncio.

Helena Kolody não participou do Movimento Modernista por ser retraída, mas buscava sempre manter-se informada e tinha consciência da modernidade de seus versos. Nessa época, o Movimento Modernista buscava uma superação dos pressupostos que ancoraram a Semana de Arte Moderna. Alguns poetas já tinham trilhado um caminho diferente dos versos parnasianos, restando, pois, amadurecer as idéias já plantadas.

Em seu livro Música Submersa (1945), figura o haikai "Pereira em flor", o qual foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter ficado feliz com poemas como esse, "em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos 'imponderável' poéticos". Eis o poema: De grinalda branca, / Toda vestida de luar, / A pereira sonha.

O haicai é uma forma de poesia japonesa, pequeno poema de três versos, com cinco, sete, e cinco sílabas poéticas sucessivamente. Com sua escrita icônica, os haikais japoneses têm sua origem no canto, faziam parte de diários de viagem, numa interação prosa/poesia e eram desenhados em um quadro, fazendo parte de um todo plástico.

A concentração verbal dos haicais consegue o máximo efeito estético numa linguagem sintética. Mas foi em 1941que Helena havia publicado seus primeiros haicais, sendo criticada com os argumentos de que aquilo não era soneto, não tinha rima, não era poesia. Mas gostava de desafios, por isso fazia haicais, mesmo criticada.


TANKAS E HAICAIS: UMA LEITURA DE REIKA, DE HELENA KOLODY
Antonio Donizeti da Cruz
Unioeste - Doutorado - Ufrgs - Capes-Picd

A poeta Helena Kolody, filha de imigrantes ucranianos, é um dos nomes mais expressivos da poesia contemporânea paranaense. Desde Paisagem interior (1941), quando surge para a literatura brasileira, a Reika (1993), sua poesia evolui no sentido de síntese reflexiva, concisão e alto grau de lirismo espontâneo, contido, com uma linguagem altamente condensada.

Helena tem publicados doze livros de poesia e doze antologias ou coleções, além de um número significativo de poemas dispersos em jornais e revistas especializados. A Poeta vem recebendo destaque junto à crítica paranaense e brasileira por sua constante produção poética.

Segundo Wilson Martins, Helena Kolody vive o paradoxo de ser, enquanto poeta, uma "figura exponencial das letras paranaense", sem ter gravado o seu nome e sua obra no quadro mais amplo da literatura brasileira. Ela é, com certeza, "poeta do Paraná não apenas pela naturalidade regional, mas também por haver acrescentado a voz do imigrante à temática da poesia brasileira" (1995: 52).

Alice Ruiz afirma que a "marca registrada" da poesia de Helena Kolody são "a viagem da linguagem e o exercício do corte preciso" e que "Helena nos mostra, como um mestre zen, que a poesia está nas coisas, é só acertar o olhar" (1995: 50-51). Destaca ainda, o máximo de poesia é a poesia mínima. Síntese, concentração de informação, concentração de beleza. Implosão.

O não à redundância (...). Poesia não é perfumar a flor. Poesia é o perfume da flor. Tal como a poesia de Helena Kolody. Essa paranaense encantada e cheia de luz que em 1941 já publicava Haicai enquanto a maioria só publicava soneto (idem: 51).

Helena Kolody é a poeta do cotidiano, das realidades simples e comuns, interpretadas por sua sensibilidade e lirismo contagiante e libertador. Sua poesia, profundamente lírica, com acentos existenciais, transparentes, revela uma construção poética alicerçada a partir das coisas simples e cotidianas.

Nas primeiras obras de Helena percebe-se que a poeta vai se encaminhando cada vez mais para a poesia intimista, confessional e auto-indagadora em que predomina o subjetivismo, a introspecção e o mergulho no mundo interior, no qual o Eu vai se desdobrando em imagens, deixando transparecer uma consciência de mundo projetada na questão pessoal e social.

Todavia, em suas obras posteriores, nota-se que aos poucos seus poemas vão se tornando sintéticos, condensados. Cumpre destacar que já em sua primeira obra, Paisagem interior, são publicados três haicais: Prisão, Arco-íris e Felicidade, e que segundo Reinoldo Atem, "são os primeiros publicados no Paraná e demonstram sua tendência permanente e contínua para a brevidade reflexiva" (ATEM, 1990: 159).

Em Música submersa (1945), obra seguinte, percebe-se alguns poemas sintéticos, entre eles o haicai Pereira em flor (Viagem no espelho), elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter encontrado com alegria poemas como esse, "em que à expressão mais simples e discreta se alia uma
fina intuição dos 'imponderável' poéticos" (In: Rumo paranaense, 1970: 4). Leia-se o poema:

De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha (p.189).


No poema ocorre uma personificação da pereira. As imagens são singulares. A flor da pereira é símbolo do caráter efêmero da existência. A respeito desse haicai, Helena relata de que forma surgiu o poema:

Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa  de uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde.

Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, como a pereira ao luar (1986: 22).
 
Helena acredita que as impressões apreendidas vão se acumulando em seu inconsciente e elaborando uma espécie de húmus, no qual se misturam impressões de muitos tempos, e desse húmus brota o poema. Nesse sentido, o poema é "a metáfora do que o poeta sentiu e pensou; é a ressurreição da experiência e sua transmutação" (PAZ, 1991: 19).

Em relação ao processo de composição poemático a que se refere Helena Kolody, assemelha-se ao que Octavio Paz afirma a respeito da experiência do poeta. Suas experiências diárias não se compõem de idéias ou de sensações, mas de idéias-sensações que se manifestam no interior do poeta e são, por natureza, evanescentes.

A linguagem, num primeiro momento, apreende àquelas sensações, depois as fixa, muda-as, ransforma-as. O poeta repete a operação do que viu e sentiu de maneira infinitamente mais complexa e refinada. Assim, o poeta ao nomear o que sentiu e pensou, apresenta formas e figuras que são combinações rítmicas nas quais o som é inseparável do sentido. Tais formas e sentidos têm o poder de produzir sensações e idéias-sensações semelhantes, mas não idênticas às da experiência original vivenciada pelo poeta (idem: ibidem).

Em 13 de junho de 1993, a comunidade nipo-brasileira de Curitiba, em comemoração aos 300 anos de Curitiba e aos 85 anos de imigração japonesa, homenageia a poeta Helena Kolody com a outorga do nome haicaísta REIKA, em reconhecimento à dedicação, divulgação e grandiosidade que deu à poesia de origem japonesa: o haicai.

Reika (nome poético, ou nome de haicaísta), composto por dois ideogramas específicos, Rei e Ka, pode ser traduzido como "Perfume da literatura", ou "Renomada fragrância de poesia", ou ainda, "Aroma da poeta maior".

O nome (Reika) sugere na língua japonesa, algo como um perfume que vai se espalhando pelo ar, cujo aroma é a poesia. Não é uma tradução fácil, pois não se refere ao perfume em si, mas ao contágio ou vibração que envolve as pessoas pelo encanto que a poesia emite (OSAKI & OSAKI, 1993: 2).

No que diz respeito à forma poética de composição, o haicai, Helena Kolody assimilou muito bem essa forma de poesia. Segundo a Autora, foi através do Jornal de Letras e da correspondência com a escritora paulista Fanny Dupré, que teve conhecimento da poesia japonesa, em especial o haicai..

Segundo Cláudio Daniel, o haicai, bem como toda a arte zen (os arranjos florais, a cerimônia do chá, as técnicas marciais), não é somente uma experiência verbal. Ele existe "apesar" da linguagem, pois o alfabeto de ideogramas (kanji) registra "imagens" enquanto que o Ocidental registra "idéias/sons (presentes no silabário)". Com sua escrita icônica, os haicais japoneses têm sua origem no canto e "faziam parte de diários de viagem (nikki), num diálogo prosa/poesia e eram desenhados em um quadro (zenga)". Assim, "o poema fazia parte de um todo plástico" (1998: 51).

O tanka é um poema clássico japonês, composto por trinta e uma sílabas distribuídas em estrofes de cinco versos. O haicai e o tanka são formas de composição da arte japonesa, que revelam momentos "tensos e transparentes", "instantes de equilíbrio entre a vida e a morte. Vivacidade:
mortalidade" (PAZ, 1991: 198).

Reika reúne 28 poemas (haicais e tankas). Foi uma iniciativa de Nivaldo Lopes, que num trabalho em tipografia manual edita o quinto exemplar da sua editora Ócios do Ofício, e o terceiro da coleção Buquinista, da Fundação Cultural de Curitiba.

O haicai intitulado Alquimia (RE), com seu caráter ideográfico expandido: 5-7-5 sílabas aliterativas e assonantes, revela que a poesia pode ser pura alquimia:

Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz (p. 25).
  
O poeta, inventor de formas e sentidos, é capaz de transformar em palavra "tudo o que toca". O poder das palavras "antigas" são lapidadas pelas suas "mãos inspiradas", nascendo assim, "novas palavras". O torneio coloquial e semântico revela o poder de nomeação da linguagem. A poeta é capaz de síntese perfeita, baseando-se no jogo de palavras e no seu poder de revelação, pois seu texto convida à participação do leitor, com alto grau de comunicabilidade.

O tanka Sabedoria (RE) mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. Em seus versos salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, os acentos poéticos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante à vida:

Tudo o tempo leva.
A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
para a saudade futura (p.60).


Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, revelando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão fundamental: o ser humano, como todas as formas de vida, tem um prazo a cumprir na existência terrena. Daí a necessidade de buscar com sabedoria "a alegria de agora", ou seja, urge cultivá-la, de maneira "plena", tendo em vista "a saudade futura".

Os versos são marcados por um lirismo pungente. No último verso do poema, os três signos: "sonho", "tristeza" e "solidão", denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema.
 
O tom de indagação que norteia o poema revela um conflito entre o "eu" e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do Eu poético, em constante interrogação.

Em Os tristes (RE), poema haicai, aparece de forma clara a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento:

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita? (p.33).


São versos revestidos de um lirismo singular. Salienta-se a temática da solidão, pois em "ausência" e "silêncios", os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico.

Aquarela (RE) é um tanka que revela um grau máximo de comunicabilidade e lirismo. A poeta trabalha a linguagem numa dimensão pessoal e síntese perfeita, enfatizando paralelismos em oposição. Sua poesia busca o instantâneo e a integração da vida e da natureza. Leia-se o poema:

Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Riso
de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas (p.55).


Marcada por uma surpreendente força lírica, a linguagem do poema conjuga a relação do sentimento vital integrada à constante renovação cíclica da vida. Essa tanka é um hino de graça e louvor à vida. Os elementos da natureza se relacionam de maneira harmoniosa. No "coração do poema" destaca-se o verso "riso de criança", que simboliza a simplicidade natural, a espontaneidade.

Saudades (RE) é um haicai que tem por musa a natureza. O poema evoca um lirismo nostálgico, numa linguagem lúdica, metafórica e organizada, que se pode constatar em versos de puro "engenho" criativo:

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades (p. 21).


Este poema de forma miniatural, tematiza a saudade e a natureza. O canto do sabiá, mesmo distante, é capaz de despertar o "canto" da poeta, em que ela transforma em palavras, esse "despertar inquieto", sua observação atenta à natureza, seu encantamento lúdico com a linguagem.

O haicai é uma forma de poesia japonesa, pequeno poema de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas sucessivamente. Ele evoca uma singela e delicada impressão do mundo, da natureza, do homem, das plantas ou dos animais; às vezes com um refinado toque de lirismo de caráter melancólico ou nostálgico, outras, com um rasgo de ligeiro humor (HUIZINGA, 1990: 138).

O haicai intitulado Depois (RE), com suas sílabas aliterativas e assonantes, aponta para a relação do homem com à natureza. O momento presente inquieta o eu lírico que sabe de sua situação enquanto "viajante das galáxias". A afirmativa do sujeito lírico é de uma originalidade
singular:

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
Universo afora (p.25).


A temática da transitoriedade do ser, faz-se presente nos versos do poema, situando o onde, o quando e o que do acontecimento poético. No haicai, Desafio (RE), o sujeito lírico declara:

A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada (p.35).


Nos versos do poema, percebe-se as ligações dos segmentos frasais, a sonoridade e o jogo de palavras. O texto mostra que é necessário vencer os obstáculos da vida, para "abrir novos caminhos". A estrada é símbolo de viagem e transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações.

A consciência da brevidade da vida e o futuro incerto faz com que o sujeito lírico valorize o momento presente. A morte é vista como um processo natural, surgindo como uma perspectiva certa da finitude do homem. A consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, não é obstáculo para que o sujeito lírico viva a cada instante, embriagando-se de alegria. A vida é para eu lírico um "mistério". E só o fato de existir, leva-o a sentir-se fascinado e amante da vida.

A concentração verbal do haicais e tankas kolodyanos operam numa economia de recursos que consegue o máximo efeito estético, numa linguagem sintética, cujo lirismo é uma forma peculiar de "arranjo da linguagem" e de "recorte do mundo". Seus versos apresentam uma sonoridade rítmica e rímica marcadas pelo processo de elaboração criativo e lúdico.

Os poemas de Reika exploram basicamente uma das vertentes temáticas preferidas da poesia de Helena: o poeta diante de si mesmo e da poesia. Ela é poeta vigorosa que concilia perfeitamente a experiência da subjetividade com a objetividade, ou seja, emoção e razão, atualizando-se pelo nítido espírito de modernidade. Sua linguagem é densa de significação.

Seus versos são repletos de significados, sugestões e imaginação, que resultam numa poesia intelectual e emotiva, marcada pela síntese e pela moderna procura de uma semântica inventiva, instauradora de múltiplos sentidos, preocupada com a estética. Por essas razões, a poesia kolodyana se legitima, à definição de Octavio Paz: "Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza" (1982:15).

(Poemas retirados de Viagem no Espelho, de Helena Kolody.)

RESSONÂNCIA
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

NOITE
Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

SAUDADES
Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

REPUXO ILUMINADO
Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.

DEPOIS
Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

ALQUIMIA
Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

JORNADA
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

SEMPRE MADRUGADA
Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.

RETRATO ANTIGO (1988)
Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

VOZ DA NOITE (1986)
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...

A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.


POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

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