Portal da Educao Adventista

*Profª Ritíssima *

31

mai
2010

Mudar

Artigo %u2022 Gustavo Ioschpe

Mudar os professores ou mudar
de professores

"A partir da década de 90, ocorreu um aumento substancial
de salário nas regiões mais pobres do Brasil, mas não houve
melhoria na qualidade do ensino"

Royaltfree

Ensinar com eficiência não exige competência extraordinária. É feijão com arroz


Durante muito tempo, quando se falava dos problemas da educação no Brasil, havia uma resposta pronta e definitiva: é preciso aumentar o salário dos professores. Com salário baixo como seria o dos professores, não se poderiam exigir motivação e comprometimento. Nos anos recentes, essa teoria foi seriamente erodida por uma avalanche de fatos que mostram que o problema do professor brasileiro não é de motivação, mas de preparo, coisa que salário não muda.

Pesquisa da Unesco com amos-tra representativa dos nossos professores, publicada no livro O Perfil dos Professores Brasileiros, revela que apenas 12% se dizem insatisfeitos com a carreira. Quase a metade do total (48%), aliás, estava mais satisfeita no momento da pesquisa do que no início de sua carreira. Só 11% dos entrevistados gostariam de dedicar-se a outra profissão no futuro próximo. O segundo prego no caixão dos dinheiristas foi a própria experiência brasileira: a partir da década de 90, ocorreu um aumento substancial de salário nas regiões mais pobres do país através do Fundef, porém não houve melhoria na qualidade da educação. De fato, ela piorou: o Saeb, teste do MEC para aferir a qualidade do ensino básico, mostra que em 2007 estávamos pior do que em 1995. A experiência brasileira em nada difere daquilo que é observado no resto do mundo, aliás: há literalmente centenas de estudos medindo o impacto do salário dos professores sobre o aprendizado dos alunos, e a grande maioria não encontra relação significativa entre essas variáveis.

A inexistência da relação entre salário e aprendizagem, porém, não prejudicou os defensores da causa. Pelo contrário, agora eles vêm com hipótese ainda mais ambiciosa (e cara): os aumentos dados até hoje não surtiram efeito porque são mixurucas; para que deem o resultado esperado, precisam dobrar ou triplicar. Assim, a carreira de professor seria atraente e fisgaria estudantes que hoje pensam em ser médicos ou advogados. A lógica subjacente a essa visão é que os professores em exercício são tão despreparados e intelectualmente deficientes que não há muito que se possa esperar deles. Seria preciso fundar uma nova carreira, com novos candidatos, de outro gabarito. A bíblia dos proponentes dessa teoria é um estudo da consultoria McKinsey que mostra que nos sistemas educacionais de alta performance os professores recebem salário acima da média, tornando a carreira atraente para os melhores alunos.

Sou bastante cético em relação a essa lógica, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque não há base empírica sólida. Consultoria não faz ciência; seus estudos não precisam passar pelo crivo da análise de árbitros-experts anônimos, como na publicação de artigos científicos. O estudo em questão sofre de um erro conceitual grave: não é possível determinar nenhuma relação de causa e efeito observando-se apenas aqueles que dão certo. É como se um antropólogo passasse dois anos estudando os hábitos dos 100 empresários mais exitosos do Brasil e concluísse que, para chegar lá, é preciso assistir a jogos de futebol aos domingos, pois a grande maioria dos empresários faz isso. O problema é que os peões das suas fábricas também o fazem, mas você só poderia descobrir que esse hábito é totalmente irrelevante se estudasse uma amostra aleatória de pessoas que representasse a totalidade da população. Quando isso é feito, nota-se que entre os países que mais gastam em educação, e que pagam os maiores salários aos professores, estão tanto países nórdicos de grande sucesso quan-to países da África Subsaariana que têm os piores índices de aprendizagem. Meu segundo problema com essa ideia é histórico: as grandes conquistas da humanidade, desde a existência da capacidade de linguagem até a criação da democracia, se deram através de processos evolutivos, e não revolucionários. São pouquíssimas as revoluções que deixaram saldo mais positivo. Em educação, não é diferente: os países que deram grandes saltos educacionais fizeram o feijão com arroz, de maneira tenaz, obstinada e contínua.

O terceiro obstáculo a essa ideia é conceitual: assim como não acredito que haja alunos que não podem aprender, não creio que haja professores que não podem ensinar. É claro que as pessoas têm habilidades diferentes e que a genética apresenta algumas barreiras intransponíveis, de modo que nem todo aluno ou professor pode ser um Einstein em sua área. Mas fazer o básico, transmitindo conhecimentos de forma eficiente e sistemática, desenvolvendo a capacidade de raciocínio e a curiosidade de seus alunos, está ao alcance de todo professor bem-intencionado. Basta que ele obtenha o preparo necessário.

Por fim, uma duplicação ou triplicação do salário dos professores brasileiros é simplesmente inexequível, dada a realidade fiscal brasileira. Hoje, segundo os dados mais recentes da OCDE, o Brasil gasta praticamente 70% de seu orçamento educacional apenas com a folha salarial. O artigo 212 da Constituição estipula que estados e municípios precisam gastar pelo menos 25% de sua receita com educação. Ora, 70% de 25% é 17,5%. Dobrar o salário de professores implicaria destinar 35% de toda a arrecadação de estados e municípios somente ao pagamento desses funcionários. Triplicar seus salários significaria consumir 52,5% de todo o orçamento. Não vejo como seria possível fazer isso sem quebrar as finanças do país ou solapar totalmente a oferta de outros serviços indispensáveis, como saúde, segurança, transporte.

Se essa fosse apenas uma questão acadêmica, seria só um desperdício de tempo. Mas não é: 3,5 milhões de alunos estão cursando a 1ª série atualmente; perder mais um ano em discussões estéreis significa forçar todo esse contingente a carregar para o resto da vida as marcas de uma educação deficiente.

Centenas de estudos, feitos ao longo de décadas, indicam que existem muitos caminhos baratos ou gratuitos para melhorar a aprendizagem das nossas crianças: a prescrição e correção de dever de casa, a utilização de testes constantes para medir a aprendizagem e corrigir erros, o uso de bons livros didáticos, o conhecimento aprofundado do professor sobre a matéria que ensina, a abolição de tarefas mecânicas, como a cópia de material do quadro-negro, propiciando utilização eficiente do tempo de sala de aula, e tantos outros. A existência dessas alternativas nos impõe a obrigação de tentá-las, antes de partir para soluções caras e incertas.

É uma discussão que me lembra uma passagem do escritor Amós Oz. Conta ele que sua avó sempre lhe dizia: "Não sei por que houve tantos séculos de brigas e perseguições entre judeus e cristãos. Nossa única diferença é que uns acreditam que o Messias já veio à Terra e os outros acreditam que ainda virá. Então basta apenas esperar que o Messias chegue para perguntar-lhe: você está vindo pela primeira vez ou pela segunda? Até lá, vivamos em paz". Poderíamos sugerir a mesma trégua para a discussão educacional: vamos começar com as soluções baratas e simples. Se elas não funcionarem, e somente se elas não funcionarem, é que passaremos a considerar as propostas mirabolantes e caras.

 

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31

mai
2010

Quem fica parado é poste

Quem fica parado é poste!

Júlio Clebsch


Há alguns meses, procurei o gerente de meu banco para fazer um plano gerador de benefícios. Sabe o que ele me disse? "Tá certo, juntar um dinheirinho para depois curtir a vida sem fazer nada, tranqüilão...".

Ao final das palestras que faço, pergunto à audiência o que fariam se ganhassem 10 milhões na loteria. Escuto de tudo, desde mudar de vida até largar a esposa/marido. O interessante é que ouvi apenas duas vezes pessoas mencionarem o desejo de investir uma parte do dinheiro na construção de uma escola.

Sinceramente, não consigo entender essa atitude de largar tudo e se aposentar, a não que não se goste do que se faz. Eu pretendo nunca parar de trabalhar. Não penso em aposentadoria. Quando fui fazer um plano de benefícios, o que pretendia era não ter de trabalhar aos 60, 70 anos para pagar contas ou sobreviver, mas para destinar a renda de meu trabalho a outros fins mais nobres, prazerosos.

O que me impressiona é que ninguém discuta o triste que é a aposentadoria. O não fazer nada, "tranqüilão". Isso cheira-me a depressão, tão comum na terceira idade. Esse é o ponto que quero abordar hoje.

Vivemos numa era em que a longevidade está aumentando. O próprio conceito de velhice está mudando. Minha geração está programada para viver, em média, até os 80 anos (fomos os primeiros a receber acompanhamento de um pediatra). A medicina enfrenta novos desafios: as doenças que vêm com a idade e que só agora estamos descobrindo.

Será mesmo inteligente sairmos correndo, defendendo nossos interesses, nos aposentarmos cedo e depois ficar esperando os dias passarem? Pesquisas demonstram que idosos ocupados, ativos, vivem cerca de sete anos mais do que aqueles que se aposentam e não fazem nada. Além do que, acho eu, deveria existir uma lei que obrigasse profissionais talentosos a não se aposentar nunca. Isso seria inteligente.

Se a aposentadoria é seu sonho, tenha um projeto para torná-lo realidade. Se não tiver, seu sonho vai se tornar um pesadelo. Mas aí será tarde. O tempo não pára.

 

 

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31

mai
2010

A criatividade pode mudar a Educação no Brasil?

A criatividade pode mudar a educação no Brasil?

A Internet tem se refletido na escola aumentando a distância entre professor e aluno. A forma de pensar, sentir, agir, aprender, comunicar, registrar, relacionar, tudo difere muito.
A agilidade mental do "aluno geração Internet" diante de um computador é impressionante: liga o MSN, abre o Orkut e o Facebook, faz o download de músicas em mp3, fala ao telefone convencional, passa mensagens pelo celular, olha um programa na TV, tira dúvidas perguntando ao "professor" Google, manda e recebe e-mails, comunica-se com novos amigos ao redor do planeta, ouve músicas e, com o livro didático aberto, ainda estuda para as provas. Tudo isso ao mesmo tempo!
O professor reclama de aluno indisciplinado e desmotivado. O aluno considera as aulas monótonas e sem graça. Ele não consegue ficar 50 minutos apenas ouvindo o professor falar.
A Internet (com todos os prós e contras) nos pegou de surpresa e nos colocou numa posição de mudança urgente. Temos de mudar porque não podemos acabar com a Internet. Ela veio para ficar.
Tudo mudou e nós, professores, temos de aprender a conviver com a internet e nos transformar em internautas? Para responder a essa pergunta precisamos analisar uma pesquisa que circula na Internet -fonte da pesquisa: iLEARNINGGLOBAL INDEPENDENT MARKETER, de 2005. Ela nos mostra a importância e a urgência da mudança da Educação para promover o desenvolvimento da geração Internet.

Algumas observações sobre a pesquisa:

  • Nos próximos 8 segundos, 34 bebês vão nascer. Como será o mundo para eles?
  • Em 1900, a Inglaterra era o país mais rico, com o maior exército, o maior centro financeiro e de negócios, tinha a educação mais forte, a melhor qualidade de vida...
  • E em 2006, os Estados Unidos formaram no ensino médio 1.3 milhões; na Índia, 3.1 milhões e na China, 3.3 milhões (100% falam Inglês). É previsto que a China será, em 10 anos, o primeiro na Língua Inglesa - há 60 ou 40, até mesmo, ou 20 anos ninguém poderia prever isso.
  • Há 10 anos, não havia tantas especializações como existem hoje. Agricultura orgânica, Negócios pela Internet, Tecnologia.
  • As pessoas de 21 anos hoje já assistiram 20 mil horas de televisão; jogaram 10 mil horas de videogame; falaram ao telefone 10 mil horas e mandaram e receberam 250 mil e-mails ou mensagens no celular.
  • Mais de 70% das crianças de 4 anos, nos Estados Unidos já usaram um computador.
  • O rádio demorou 38 anos para conquistar uma audiência de 50 milhões; a TV, 13 anos e o computador, 4.
  • Em 1984, havia mil aparelhos de computador; em 1992 (8 anos depois) havia um milhão; em 2006 (14 anos depois) havia 600 milhões.
  • A primeira mensagem comercial do celular foi enviada em 1992 e hoje o número dessas mensagens enviadas e recebidas é mais que a população do planeta.
  • A Internet se tornou popular em 1995. 1 em 8 casais nos Estados Unidos se conheceu on-line.
  • Em 2006, seis bilhões de dólares circularam no e-bay, que foi fundado em 1996.
  • Aproximadamente 2.7 bilhões de buscas foram feitas no Google, em apenas um mês.
  • Entre 2003 e 2005, dez milhões de assinantes novos visitaram o myspace; atualmente, ele tem 230 mil assinantes novos por dia.
  • YouTube iniciou em 2005 e cresceu rapidamente com mais de 100 milhões de visitantes.
  • Quase 2 bilhões de crianças de terceiro mundo, 1 em 3, não completaram a 5ª série e nunca seguraram um livro. Contudo, existe o projeto OLPC (One Laptop Per Child Project), que começou em 2007 a entregar um laptop para cada criança.

Diante dessa explosão chamada Internet, será que nós, professores, podemos continuar com a educação tradicional que tem quase nada a ver com a realidade do aluno?

Perguntas importantes que todos os brasileiros deveriam fazer:

 

  • Ao aluno, o que ele está aprendendo na escola?
  • Ao professor, o que ele está ensinando para o aluno entender o século XXI?
  • Ao diretor da escola, quais as condições que ele está oferecendo aos seus professores para prepararem os estudantes para o século XXI?
  • Às autoridades educacionais, qual é a sua visão de educação para o presente e futuro dos estudantes? Quais as mudanças na legislação que são necessárias?
  • O que os estudantes precisam aprender para viver no século XXI? Talvez a educação criativa possa ajudar mudando totalmente a metodologia nas escolas, de tradicional para criativa.

Contudo, o que é metodologia criativa?

Texto de Glorinha Aguiar, especialista em Educação Criativa (na prática). Contato: glorinhaaguiar@uol.com.br

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31

mai
2010

Salto no escuro

Educação

Salto no escuro

Seis de cada dez crianças brasileiras estudam segundo
os dogmas do construtivismo, um sistema adotado por países
com os piores indicadores de ensino do mundo


Marcelo Bortoloti

Oscar Cabral

Faltam metas
Típica aula construtivista: o aluno dá o ritmo

 

Mais de 60% das escolas públicas e particulares no Brasil se identificam como adeptas do construtivismo. Sendo assim, parece óbvio que seis de cada dez crianças brasileiras estão sendo educadas com base em uma doutrina didática cuja natureza, objetivos e lógica devem ser de amplo conhecimento de diretores, professores e pais. Correto? Errado. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) desvenda um cenário obscuro. Em plena era da internet, os conceitos do construtivismo parecem ter chegado ao Brasil via as ondas curtas de 49 metros de propagação troposférica, com suas falhas e chiados. Ninguém sabe ao certo como o construtivismo funciona, muito menos saberia listar as razões pelas quais ele foi adotado ou deve ser defendido. Ele é definido erradamente como um "método de ensino". O construtivismo não é um método. É uma teoria sobre o aprendizado infantil posta de pé nos anos 20 do século passado pelo psicólogo suíço Jean Piaget. A teoria do suíço deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real. Ponto. A aplicação prática feita nas escolas brasileiras tem apenas o mesmo nome da teoria de Piaget. O construtivismo tornou-se uma interpretação livre de um conceito originalmente racional e coerente. Ele adquiriu várias facetas no Brasil. Unifica-as o primado da realidade da criança sobre os conceitos básicos das disciplinas tradicionais. Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.

A experiência mostra que as interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas - especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais. Nelas, as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: "O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas". Por preguiça ou desconhecimento, essas abordagens radicais da teoria de Piaget são a negação de tudo o que trouxe a humanidade ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e médico. Sua ampla aceitação no passado teria impedido a maioria das descobertas científicas, como a assepsia, a anestesia, as grandes cirurgias ou o voo do mais pesado que o ar. Sir Isaac Newton (1643-1727), que escreveu as equações das leis naturais, dizia que suas conquistas só haviam sido possíveis porque ele enxergava o mundo "do ombro dos gigantes" que o precederam. O conhecimento que nos trouxe até aqui é cumulativo, meritocrático, metódico, organizado em currículos que fornecem um mapa e um plano de voo para o jovem aprendiz. Jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel.

Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência. Nada mais longe da realidade brasileira, em que menos da metade dos professores é formada nas disciplinas que ensina. À luz das versões tropicais do construtivismo, essa deficiência é até uma vantagem, pois, afinal, cabe aos próprios alunos definir com base em sua realidade o que querem aprender. É claro que um modelo assim já seria difícil funcionar em uma sala de aula ideal, com um mestre iluminado cercado de poucos e brilhantes pupilos. Nas salas de aula da realidade brasileira, é impossível que essa abordagem leniente dê certo. Adverte o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP): "As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes".

Um conjunto de pesquisas internacionais chama atenção para o fato de que, em certas disciplinas do ensino básico, o construtivismo pode ser ainda mais danoso - especialmente na fase de alfabetização. Enquanto na pedagogia tradicional (a do bê-á-bá) as crianças são apresentadas às letras do alfabeto e aos seus sons, depois vão formando sílabas até chegar às palavras, os construtivistas suprimem os fonemas e já mostram ao aluno a palavra pronta, sempre associada a uma imagem . A ideia é que, ao ser exposto repetidamente àquela grafia que se refere a um objeto conhecido, ele acabe por assimilá-la, como que por osmose. De acordo com a mais completa compilação de estudos já feita sobre o tema, consolidada pelo departamento de educação americano, os estudantes submetidos a esse método de alfabetização têm se saído pior do que os que são ensinados pelo sistema tradicional. Foi com base em tal constatação que a Inglaterra, a França e os Estados Unidos abandonaram de vez o construtivismo nessa etapa. O departamento de educação americano também o contraindicou para o ensino da matemática - isso depois de uma sucessão de maus indicadores na sala de aula.

O construtivismo ganhou força na pedagogia durante a década de 70, época em que textos de Piaget e de alguns de seus seguidores, como o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), vários dos quais traduzidos para o inglês, foram descobertos nas universidades americanas. Foi a partir daí que a corrente se disseminou por escolas dos Estados Unidos e da Europa. No Brasil, virou moda. Uma década mais tarde, porém, tal corrente começaria a ser gradativamente abandonada nos países que a adotaram pioneiramente. Os responsáveis pelo sistema educacional daqueles países chegaram a uma mesma conclusão: a de que a adoção de uma filosofia que não se traduzia em um método claro de ensino deixava os professores perdidos, deteriorando o desempenho dos alunos. Hoje, são poucos os países ainda entusiastas do construtivismo. Entre eles estão todos os de pior desempenho nas avaliações internacionais de educação. Com seis de cada dez crianças brasileiras entregues a escolas que se dizem adeptas do construtivismo, é de exigir que diretores, professores, pais e autoridades de educação entendam como se atolaram nesse pântano e tenham um plano de como sair dele.

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31

mai
2010

Medo do Medo

Lya Luft

Medo do medo

"Querendo ser politicamente corretos, estamos cometendo
um triste engano, deformando histórias e até cantigas
que fazem parte do nosso imaginário mais básico"

Tenho observado alguns esforços psicopedagógicos no sentido de tornar nossas crianças politicamente corretas - postura que muitas vezes nos transforma em seres tediosos, sem graça nem fervor. Contos de fadas, por exemplo, alimento da minha alma de criança, raiz de quase toda a minha obra adulta, sobretudo romances e contos, foram originalmente - dizem estudiosos -narrativas populares, orais, de povos muito antigos. Assim eles representavam e tentavam controlar seus medos e dúvidas, carentes das quase excessivas informações científicas de que hoje dispomos. Nascimento e morte, sexo, sol e lua, raios e trovões, o brotar das colheitas lhes pareciam misteriosos, portanto fascinantes.

Muito mais recentemente, escritores como Andersen e os irmãos Grimm adaptaram tais relatos ao mundo infantil e criaram suas maravilhosas histórias, que unem, como a vida real, o belo e o sinistro. Uma sereia quer pernas para namorar seu príncipe na praia, mas o sacrifício é terrível, a cada passo de suas novas pernas, dores inimagináveis a dilaceram. Uma princesa, sua família, séquito e criados do castelo dormem um sono profundo, maldição de uma fada má, e só serão libertados pelo príncipe salvador - que, é claro, sempre aparece. Branca de Neve, Rapunzel e dezenas de outros personagens alimentaram nossa fantasia e continuam a alimentar a das crianças que têm sorte, cujos pais e escolas lhes proporcionam contato cotidiano com esses livros.

Porém, faz algum tempo, há um movimento para reformular tais relatos, tirando-lhes sua essência, isto é, o misterioso e até o assustador. Lobos seriam bobalhões e vovozinhas umas pândegas, só existiriam fadas boas, e as bruxas, ah, essas passam a ser velhotas azaradas. Até cantigas de roda seculares tendem a ser distorcidas, pois atirar um pau num gato é uma crueldade, como se fosse preciso explicar isso para as crianças saberem que animais a gente ama e cuida - se é assim que se faz em casa.

Vejo em tudo isso um engano e um atraso. Impedindo nossas crianças do natural contato com essas antiquíssimas histórias, que retratam as possibilidades boas e negativas do mundo, nós as deixamos despreparadas para a vida, cujos perigos entram hoje em seus quartos, rondam escolas e clubes, esperam na esquina com um revólver na mão de um drogado, ou de um psicopata lúcido e frio, sem falar nos insidiosos pedófilos na internet.

Estamos emburrecendo nossas crianças e jovens, mesmo querendo seu bem? E, afinal, o que será o seu bem? Ignorar o que existe de sombrio e mau, caminhar feito João e Maria alegrinhos, não abandonados pelos pais, mas procurando borboletas no mato? Receio que a gente esteja cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico com arquétipos humanos essenciais.

Em compensação, adolescentes e crianças procuram o encanto do misterioso lendo sobre vampiros, bruxos e avatares, vendo seus filmes e pesquisando na internet. Por que isso? - me perguntou recentemente um pai. Porque, neste momento de altíssima tecnologia, a alma humana busca a expectativa, o segredo e o susto. Precisa conhecer o mal para se acautelar e se proteger, o belo e o bom para crescer com esperança. Mas nós, pedagogos e pais, nem sempre seguros e informados, começamos a querer alisar excessivamente a estrada para eles, não lhes ensinando que o mal existe, assim como o bem, que o belo nos atrai, assim como o monstruoso, e que é preciso desenvolver discernimento (gosto dessa palavra), isto é, a capacidade de entender e distinguir o melhor do pior, a fim de fazer com mais clareza e segurança as inevitáveis escolhas.

Mas se, porque isso nos tranquiliza, tratamos as crianças como imbecis, e queremos nosso adolescente infantilizado por um longo tempo, exigindo-o cada vez menos em casa, na escola e nas universidades - embora deixando que se sexualize de forma precoce e criminosa -, vai ser difícil que tenham informação, capacidade de julgar e escolher, que seriam nosso maior e melhor legado para elas.

 

Lya Luft é escritora

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