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*Profª Ritíssima *

29

jul
2013

Melhores poemas - Manuel Bandeira - Vestibular Unicentro

MELHORES POEMAS DE MANUEL BANDEIRA

 

AUTOR

 

  • Manuel Bandeira - Recife - 1881 - Rio de janeiro - 1968.

 

  • Estuda arquitetura na escola Politécnica em São Paulo
  • Aos 19 anos, com tuberculose, vai para o sanatório de Clavadel, na Suíça.
  • Foi professor de Literatura e pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

 

MELHORES POEMAS DE MANUEL BANDEIRA - Organização de Francisco Assis Barbosa.

 

  • A obra foi organizada em 1984 com poemas expressivos de Bandeira.
  • Dentre os principais assuntos podemos destacar a solidão, a dor e o medo da morte.
  • O cotidiano de Santa Tereza, onde morava, aparece nos seus textos como crônicas marcadas por elementos sensoriais (visão, audição, tato, olfato, gustação).

 

CARACTERÍSTICAS DO AUTOR

 

  • Uso do verso-arremate (ou Fiinda): é uma conclusão normalmente separada por travessão.
  • Composições líricas tradicionais reconstituídas: o poeta reconstitui, por exemplo, cantigas de amor medievais.
  • Referências explícitas a Portugal: o poeta reconhece sua ligação com a poesia portuguesa inclusive dedicando versos a poetas como António Nobre e Camões.
  • Influência do Parnasianismo e do Simbolismo.
  • Como poeta modernista, Bandeira apresenta características marcantes: a liberdade formal e temática, a revolta contra o convencionalismo (Parnasianismo), a valorização do cotidiano, a expressão literária carregada de coloquialismos (linguagem simples do dia-a-dia), o domínio do verso livre, o contraponto entre as situações da realidade exterior e a interior, expressões antipoéticas).
  • O passado, a infância, a confidência - herança do Romantismo.
  • O tédio, a morte e a melancolia.
  • A presença do popular e do folclórico.
  • A fuga do espaço - o escapismo.
  • A poesia erótico-sentimental.
  • O cotidiano, a ternura e a solidariedade.
  • O humor amargo.
  • As experiências concretistas.

 

 

COMENTÁRIOS

 

  • Em seguida, pequenos comentários sobre alguns poemas de Bandeira.

 

  • POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare 

%u2014 Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Elementos fundamentais do poema:

 

  • Poética é tratado sobre poesia: Bandeira propõe outro tipo de poesia fundada na liberdade.
  • Rebelião contra os parnasianos - os puristas.
  • Equivale a um manifesto modernista.
  • Ausência de rimas e desrespeito às regras de pontuação.
  • Metapoema: poesia que fala de poesia.
  • Estrofes e versos irregulares.
  • O poeta celebra a total liberdade de expressão.
  • Rejeição à poesia sentimental do Romantismo - político, raquítico, sifilítico.
  • Negação da poesia previsível, pré-estabelecida - contabilidade, tabela de co-senos.
  • Bandeira não aceita a poesia como expressão de emoções baratas - secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar as mulheres, etc.
  • O lirismo - a poesia - dos loucos se contrapõe ao lirismo burocrático do primeiro bloco.
  • A celebração do deus Dionísio - o Baco latino - aparece na expressão 'lirismo dos bêbados'.
  • Dionísio é também o deus do teatro e os clowns - personagens - de Shakespeare usavam a máscara risonha nas encenações.
  • Uso do verso arremate: iniciado por um travessão, resume o tema do poema - a liberdade criadora. 

COMENTÁRIOS

 

 

  • O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária: 
Laocoonte constrangido pelas serpentes, 
Ugolino e os filhos esfaimados. 
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas... 
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais. 

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz. 
O cacto tombou atravessado na rua, 
Quebrou os beirais do casario fronteiro, 
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças, 
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas [privou a cidade de iluminação e energia]: 

- Era belo, áspero, intratável.

 

 

  • O cacto é uma alegoria dos sofrimentos a que a humanidade está submetida (a falta de liberdade, a fome, a violência).
  • Associação entre o cacto e obras de arte que representam seres humanos submetidos à violência:
  • Laocoonte: sacerdote troiano que foi morto, juntamente com seus dois filhos, por serpentes saídas do mar.
  • Ugolino: foi Conde de Pisa (1285). Morreu de fome junto com seus filhos e netos.
  • O cacto tem um significado que se projeta no tempo e no espaço: relembra a Grécia, a Itália e também o nordeste brasileiro marcado pela fome, pela seca pela luta desesperada pela subsistência.
  • As imagens de impotência e imobilidade indicam que o cacto adquire uma simbologia universal uma vez que esses horrores existiram e ainda existem em qualquer tempo e lugar.
  • O poema é marcado, portanto, por uma universalidade própria da arte clássica uma vez que a fome, a imobilidade e a impotência são conceitos que ultrapassam o tempo e o espaço e se projetam no universo mítico.

 

COMENTÁRIOS

 

  • CONSOADA

 

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

                              %u2015Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

 

  • O assunto é dos mais constantes na poesia de Bandeira: a presença da morte.
  • O tom do poema é familiar, sereno e camarada.
  • Consoada, a ceia de fim de ano ou refeição ligeira que se toma à noite, em dias de jejum, no texto representa o encontro simbólico com a morte.
  • O eu - lírico faz um balanço da vida vivida consciente da finitude humana.
  • É interessante notar que, mesmo calmo diante da possibilidade da chegada da morte, ele prefere usar um eufemismo (a Indesejada das gentes).
  • Não pronunciar a palavra morte é um tabu lingüístico - dizer a palavra é chamar, convidar a própria morte.
  • Caroável é amável. Isso indica que o eu - lírico recebe a morte de braços abertos porque o seu dia foi bom.
  • Ele recebe a morte para cear (a mesa posta), é o anfitrião dessa ceia.
  • Se consoada é também ceia de natal (fim de ano), o eu - lírico está celebrando o final de um ciclo (a vida terrena) e pronto para se projetar numa outra dimensão (a vida após a morte).
  • Essa é uma atitude próxima do que propunham os filósofos do estoicismo: aceitação da realidade como ele é. O ideal de vida dos estóicos (a apathéia) era alcançar a serenidade diante dos acontecimentos.
  • Formalmente, temos o uso de linguagem coloquial e versos livres - uma constante na poesia de Bandeira.

 

 

COMENTÁRIOS

 

  • VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

 

Vou-me embora pra Pasárgada 
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio

 

Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro 
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas 
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der 
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

 

  • Bandeira constrói uma utopia com aquilo que lhe faltou na vida, sobretudo de menino doentio, afastado das brincadeiras mais exigentes fisicamente (montar em burro brabo, subir em pau de sebo) ou mais arriscadas para a sua saúde (tomar banhos de mar).
  • Em sua autobiografia lírica - Itinerário de Pasárgada - Bandeira afirma ter lido esse nome num autor grego, identificando uma cidade da antiga Pérsia, fundada por Ciro.
  • Percebemos, também, o desejo sexual - dominante no poema - e o desejo de objetos proibidos (a cocaína) ou então proibitivos (o telefone automático, de discar, que dispensava o trabalhoso auxílio da telefonista, era na época raro em países atrasados como o Brasil).
  • Podemos observar a enumeração livre dos elementos que compõem Pasárgada - lugar ideal, de sonhos, lugar de desejos, onde a vida é o que deveria ser.
  • Na segunda estrofe, vemos a enumeração caótica, sem seqüência lógica, dos elementos.
  • Uso de linguagem simples e expressiva.
  • "Ir-se embora pra Pasárgada" significa ingressar na vida comum, abandonar-se, ser livre. O poeta nos transmite por meio da fantasia seu desejo de libertação. O poema tem no ritmo apressado e ofegante, dinâmico e violento dos seus versos o sabor das grandes libertações.
  • Pasárgada é o mundo em que o poeta não é tísico (tuberculoso). É o grande sonho ou a grande esperança que está no mais fundo da alma do homem. Pasárgada é o paraíso do poeta. Lá ele tudo poderá. A mulher que desejava amar. Esta é a idéia principal. É a idéia dominante, que se repete em vários versos. A segunda idéia é a da libertação do mal do corpo.

 

 

 

COMENTÁRIOS

 

  • PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

 

Mandou chamar o médico:
%u2014 Diga trinta e três.
%u2014 Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
%u2014 Respire.


  

%u2014 O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
%u2014 Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
%u2014 Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

  • Tema autobiográfico
  • Tom coloquial e irônico
  • O segundo verso poderia ser considerado como síntese da vida do poeta.
  • O humor absurdo diante da morte sem remédio.
  • Poema-piada típico do modernismo.
  • O poema pode ser dividido em três partes:
  • Primeira: a agonia do enfermo. O sofrimento é anunciado pelas aliterações dos fonemas /b/ e /p/ e /t/ e /d/ sugerindo o som da tosse e intensificado pela onomatopéia (Tosse, tosse, tosse).
  • Segunda: o exame médico. Vemos a respiração entrecortada e a linha pontilhada marcando uma quebra na narrativa e na respiração (do doente e do leitor).
  • Terceira: o diagnóstico. O doente se agarra a uma esperança mas o médico acha tudo inútil e recomenda que toque um tango argentino. Isso é um eufemismo (forma delicada de dizer, um abrandamento) para desenganar o paciente.
  • A comicidade cruel: o médico usa as mesmas aliterações procurando imitar a tosse do enfermo (tocar um tango argentino).

 

 

COMENTÁRIOS

 

  • A ARTE DE AMAR

 

 

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus - ou fora do mundo.

 

As almas são incomunicáveis.

 

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

 

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

 

  • Poema de inspiração erótica centrado no corpo como referência para a felicidade.
  • A fundamentação é filosófica. Há um afastamento das tradições espiritualizantes e platônicas do amor.
  • O texto é de natureza argumentativa (o eu - lírico quer convencer o leitor de que apenas o amor corporal é fonte de comunicação).
  • Os versos curtos e o ritmo do poema sugerem um tempo dado ao interlocutor para que pense na impossibilidade da plenitude humana através da aproximação das almas.

 

EXERCÍCIOS

 

1 - Embora tenha estreado sob influências parnasiano-simbolistas, logo aderiu definitivamente ao Modernismo. O caráter geral de sua poesia é marcado pelo tom confidencial, pelo desejo insatisfeito, pela amargura e por referências autobiográficas. Por vezes aproveita-se das formas clássicas ou faz incursões às formas mais radicais das vanguardas, sem contudo perder a marca de absoluta simplicidade, predominante em sua obra.

Essas informações referem-se ao autor dos seguintes versos:

 

a) Na rua Aurora eu nasci    Na aurora da minha vida    E numa aurora cresci.

b) Brada em um assomo   O sapo-tanoeiro!    - "A grande arte é como    Lavor de joalheiro

c) A vida do poeta tem um ritmo diferente    É um contínuo de dor angustiante.  ---------------------------------------------    E a sua alma é uma parcela do infinito distante    O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

d) E, em vez de achar luz que o céus inflama,    Somente achei moléculas de lama    E a mosca alegre da putrefação

e) Eu canto porque o instante existe  e a minha vida está completa    Não sou alegre nem sou triste:    Sou poeta.

 

2 - A respeito de Manuel Bandeira, é INCORRETO afirmar que:

a) assumiu, desde seus primeiros versos, uma postura claramente modernista.

b) em POÉTICA, expôs uma posição a respeito da poesia moderna.

c) EVOCAÇÃO DO RECIFE é um poema no qual apresenta uma tendência saudosista.

d) em VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA, poema escrito em redondilhas, demonstra certo escapismo, presente em outros de seus poemas.

e) alguns de seus grandes poemas têm como temática a morte, de uma forma tranqüila e resignada.

 

3 - CONSOADA

 

"Quando a Indesejada das gentes chegar

(não sei se dura ou caroável)

Talvez eu tenha medo

talvez sorria ou diga:

 

            -Alô, Iniludível

 

O meu dia foi bom, pode a noite descer

(a noite com seus sortilégios).

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

a mesa posta,

com cada coisa em seu lugar."

                                                              (Manuel Bandeira)

 

Indique a afirmativa que está em DESACORDO com as idéias expressas no texto.

a) O poema apresenta um tom de ironia amarga.

b) O poeta aborda o tema da morte.

c) O título marca a recepção à "ilustre" personagem cuja presença é certa.

d) Os significantes "Indesejada", "Iniludível" e "noite" equivalem-se semanticamente.

e) Há certeza, mas profundo sofrimento com relação à visita esperada.

 

4 - Leia os versos transcritos de Manuel Bandeira:

 

                          Não sei dançar 

 

            "Uns tomam éter, outros cocaína.

            Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.

            Tenho todos os motivos menos um de ser triste.

            Mas o cálculo das possibilidades é uma pilhéria ..."

 

Assinale a alternativa correta em relação à estrofe.

a) O eu poético ironiza a relação causa/estado de ânimo.

b) O verso 1 expressa o estado contraditório em que se encontra o eu poético.

c) A estrofe apresenta, com clareza, as razões pelas quais o sujeito poético é alegre.

d) O eu poético exalta a evasão como única possibilidade de alegria.

e) O verso 4 sugere que cálculo deve ser tomado a sério.

 

5 - "Poética", de Manuel Bandeira, é quase um manifesto do movimento modernista brasileiro de 1922. No poema, o autor elabora críticas e propostas que representam o pensamento estético predominante na época.

 

Poética

 

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto

expediente protocolo e

            [manifestações de apreço ao Sr. diretor.

 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

                        [o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

...........................................................................................

 

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clows de Shakespeare

 

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

            (BANDEIRA, Manuel.  "Poesia Completa e Prosa". Rio de Janeiro.  Aguilar, 1974)

 

Com base na leitura do poema, podemos afirmar corretamente que o poeta:

a) critica o lirismo louco do movimento modernista.

b) critica todo e qualquer lirismo na literatura.

c) propõe o retorno ao lirismo do movimento clássico.

d) propõe o retomo ao lirismo do movimento romântico.

e) Propõe a criação de um novo lirismo.

 

 

 

 

RESPOSTAS

1 - b

2 - a

3 - e

4 - a

5 - e

 

disponível em: http://blogderesumoslogos.blogspot.com.br/2011/01/melhores-poemas-de-manuel-bandeira_14.html

 

 

 

 

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29

jul
2013

Resumo Contos Novos - Mário de Andrade - Unicentro

Contos Novos - Mário de Andrade

Publicado postumamente (1946), Contos Novos é a obra de maturidade de Mário de Andrade, por estar arejado dos cacoetes modernosos, sem perder o frescor modernista. É provavelmente o livro que chega mais perto, pois, da imbatível produção contística de Machado de Assis.

A criação de seus nove textos foi esmerada, a ponto de haver um artesanato perfeccionista, um burilamento que lembra o Parnasianismo (guardadas as devidas diferenças). Basta observar o "Frederico Paciência", por exemplo, em que o autor levou 18 anos em sua confecção.

Suas histórias podem ser divididas em dois grupos: as narradas em primeira pessoa e as em terceira pessoa.

Em primeira pessoa, Mário de Andrade vai-se utilizar de técnicas do Impressionismo, ou seja, recuperará de uma forma quase autobiográfica o passado, dando destaque não exatamente à apresentação precisa dos fatos, mas principalmente à exposição de impressões, sensações, numa atitude extremamente subjetiva de reviver, presentificar ao máximo o que já se foi. Interessante notar, quanto a isso, o trabalho com o aspecto verbal. É forte o emprego de verbos que indicam não a mera exposição, mas substanciosamente a evocação.

Outro aspecto digno de nota é a utilização dos ideais de Freud, grande paixão de Mário de Andrade. Quase que como num divã de psicanalista, toca-se em fatos ligados à complicada sexualidade humana, principalmente o recalque. Somos forçados, pois, a fazer uma pause explicativa.

De acordo com Freud, o sexo é um impulso extremamente forte em nossa existência. No entanto, na nossa civilização somos educados a controlar essa energia. Tal obrigatoriedade, violenta e castradora, acaba provocando os inúmeros complexos, taras e recalques, também chamados perversões, pois são os desvios que essa energia sexual acaba tomando para que consiga ser descarregada.

O primeiro conto em que se pode ver toda essa complexidade é "Vestida de preto". Nele, o narrador aborda um amplo período de sua vida. Tudo começa na infância. Flagramos Juca (o narrador) e sua prima, de família abastada (alguns estudiosos apontam as dificuldades do relacionamento Juca/Maria, provocadas pela diferença social, como um aspecto autobiográfico) brincando de família com outras crianças numa casa de vários cômodos. No entanto, ao contrário dos outros meninos, o casal protagonista tranca-se num cômodo. Houve um momento em que Maria estende uma toalha no chão. Era hora em que "marido e mulher" deveriam dormir.

Deitados, o menino, posicionado atrás da companheira, acaba encantando-se com a vasta cabeleira que tem à sua frente, mergulhando a cabeça nela, enquanto Maria entrega-se, estorcendo-se de prazer, com o contato dos lábios do menino em sua nuca.

São interrompidos com a chegada de Tia Velha (outro elemento autobiográfico. Mário de Andrade possuiu uma tia com as mesmas características de Tia Velha), que os flagra, dá-lhes uma bronca e ameaça delatá-los. O que acontece aqui é como a Queda do Paraíso (Mário de Andrade era muito católico). Os dois separam-se, assustados e envergonhados, e nunca mais aquela sensação de êxtase e felicidade vai ser recuperada, apesar de as duas personagens buscarem, à sua maneira, recuperar esse bem perdido.

Interessante é notar o papel que a Tia exerce. Antes de sua chegada, a brincadeira não tinha nenhuma conotação indecente. Foi seu olhar, sua reprimenda e julgamento que ensinou a noção de pecado. Dessa forma, podemos entender que o ato em si não era errado; a visão do adulto, representado por Tia Velha, é que aplicava toda essa qualificação repressora. Tudo isso são considerações freudianas.

Seguindo rigidamente os pressupostos do pai da psicanálise, vemos as duas personagens afastarem-se, reprimirem o que antes enxergavam como positivo e prazeroso. Distanciam-se por toda a adolescência, apesar de ficar um conflito surdo de desprezo com fundo de sedução. É o que pode ser entendido como "denegação", a negação que esconde uma afirmação. Juca assume uma imagem negativa na família, como o maluco, o que não se apega muito às regras (essa imagem será retomada em "O Peru de Natal"), enquanto Maria, riquinha, certinha, começa a evitá-lo, mesmo que apenas com um olhar reprovativo.

Tempos depois, há uma inversão. O menino, agora adolescente, dedica-se aos estudos (talvez impulsionado por Frederico Paciência, personagem do conto homônimo), sublimando-se, tornando-se bem visto, enquanto Maria, que chega a ir para a Europa, torna-se falada, protagonista de vários escândalos morais.

Já na fase adulta, chega a notícia da volta de Maria ao Brasil. Juca vai revê-la. Fica nas entrelinhas a idéia de que seria positiva a união dos dois, pois sossegaria o espírito afoito da mulher. Mas o reencontro é marcado de dolorosas simbologias. Em primeiro lugar, o local, uma "saletinha da esquerda". A família, ricaça, estava num banquete. Fica marcante - e humilhante - a diferenciação social. Maria recebe-o em seu vestidinho preto, perfeito atiçador de sensualidade e fetichismo. Parecia estar-se oferecendo para ele. O jovem tem sua imaginação explodindo de excitação.

No entanto, educado, reprime seus impulsos e diz apenas um "Boa noite, Maria" formal, frio. É o primeiro de entre outros contos em que o protagonista chega muito próximo de um momento de felicidade plena e o deixa escapar, ficando apenas, muito tempo depois, a revivê-lo de forma meio doída.

Juca perde contato com Maria, sabendo apenas que ela ia continuar sua vida "alternativa" com um excêntrico austríaco.

O segundo conto em primeira pessoa é "O Peru de Natal", famosíssimo não só pela emotividade que suscita, mas também pelas abordagens analíticas que permite.

A história passa-se poucos meses depois da morte do pai de Juca. Ainda sob a sombra do luto, o narrador tem a idéia de possibilitar um pouco de alegria às suas "três mães": mãe, irmã e tia (note que pode ser visto aqui um indício de complexo de Édipo). Expressa o desejo de comemorar o Natal com a degustação de um peru. Socialmente - não se deve esquecer o luto - era uma idéia que poderia ser reprovada, mas quem não curtiria um pouco de prazer na vida? Dessa forma, quando Juca expressa tal desejo, serve de válvula de escape para a família. Nenhuma delas poderia ter feito aquele pedido, mas o desejavam. Assim, com a desculpa de que estavam preocupadas em atender o desejo de um "doidinho", embarcam na comemoração que também as satisfaz (será essa a função do artista: expressar o que os outros têm reprimido, represado?).

Interessante é lembrar que a família nunca fora desses tipos de festejos, por causa do espírito econômico, seco do pai. O narrador faz lembrar que este não era um chefe de lar cretino, que desprezava suas responsabilidades. Pelo contrário, nunca deixou de sustentá-la. Mas era incapaz daqueles pequenos prazeres, o que acabava por castrar seus parentes.

Esse caráter censor mostra-se forte até mesmo após sua morte. Durante a ceia de Natal, enquanto comiam prazerosamente o peru, a mãe lembra-se que estava tudo perfeito, só faltava o pai. Foi o suficiente para mergulhar a mesa em prantos, para desespero de Juca.

É quando o rapaz tem uma excelente jogada. De uma forma que pode ser entendida como hipócrita, o narrador lembra que a mãe tinha razão. Para tudo ficar perfeito, só faltava mesmo a presença do falecido, mas que onde quer que este estivesse, estaria contente vendo a família reunida. Com tal expediente, em pouco tempo a alegria retornava à mesa e todos voltaram a devorar o peru, enquanto o fantasma do pai começava a diminuir.

Existem elementos nesse conto que fazem referência aos estudos de Freud, Totem e Tabu principalmente. Nota-se isso, primeiro, pela figura do pai como castrador (a idéia do pai como figura castradora vai ser também a base da defesa do matriarcado de um mítico Brasil pré-cabralino, percebida na Antropofagia de Oswald de Andrade e até emMacunaíma, de Mário de Andrade. Lembre-se de que a principal divindade desta obra é Vei, a Sol. Assim, essa civilização, sob a figura da mãe, não reprimiria os prazeres carnais, ao contrário da nossa civilização, patriarcal e judaico-cristã, que tem como principal deus uma figura masculina e, portanto, repressora) e da necessidade de devorá-lo para que haja libertação. Note que a lembrança do pai era um tabu (assunto a ser evitado; foi lembrado, tocado, estragou a ceia). Note a devoração antropofágica representada no momento em que o peru vai sendo comigo: paralelamente, a imagem do pai vai diminuindo, transformando-se num totem, ou seja, elemento a ser nobremente (e talvez friamente) reverenciado.

O próximo conto em primeira pessoa é "Frederico Paciência", o único texto em que Mário de Andrade tematizou, ainda que de forma tão tangencial, o homossexualismo.

Pegamos Juca na fase escolar, no que hoje se chamaria a passagem da 8a série para todo o Ensino Médio. Fase conturbada, dizem os psicanalistas, pois é nela que se afirma a identidade sexual, o que implica lembrar que é nela em que tal caráter está oscilante.

A maneira como Juca descreve o seu novo companheiro de escola, Frederico Paciência, destacando seu aspecto solar (alguns mitos (provavelmente Mário de Andrade, profundo estudioso desse assunto, deveria conhecê-los) narram a impossibilidade de relação amorosa entre o sol e a lua, pois nunca se encontram. Esse elemento pode ser relacionado a Juca (de caráter melancólico e, portanto, lunar) e Frederico Paciência (dono de uma explosão de vida e, portanto, de caráter solar), sua cabeleira e sua peitaria, põe a nu a carga sexual do relacionamento. O problema é que, assim como no final de "Vestida de Preto", o conto vai estar pontuado de momentos em que se chega próximo do clímax de felicidade, sem saciá-la. Uma vez, um garoto apanhou dos dois meninos porque insinuou algo. Foi a glória para Juca. Outra vez, os dois partilharam a posse momentânea de um livro sobre a história da prostituição. Era uma intimidade num campo perigoso, sexualidade, ao mesmo tempo que gerara remorso em Juca, pois, com tal livro, havia contribuído para macular a imagem solar e pura do amigo.

E por aí os dois vão, deliciando-se em passear abraçados da casa de um para a casa de outro, a ficar no sofá, cabeças unidas. Vivem na proximidade do perigo, como faz mademoiselle, de "Atrás da Catedral de Ruão". Era um recalque, assim como o era a maneira como se deliciavam em discutir e se agredirem. Mas queriam apenas intuir a sensualidade, sem jogar para o consciente. Qualquer tentativa em contrário era reprimida.

Um dia, velório do pai de Frederico, os dois tiveram um momento mágico de sedução. Depois de expulsar um homem preocupado, como abutre, com negócios ligados ao falecimento, Juca e seu amigo vão para o quarto. Frederico fica conversando na semi-escuridão. Juca perde-se admirando os lábios carnudos de seu amigo, deitado. Percebendo o lance, Frederico pára de conversar e levanta-se da cama. Falta pouco, percebe-se, para os dois entregarem-se.

No entanto, a lembrança do pai, ainda sendo velado, parece impor-se entre os dois (semelhante à imagem castradora do pai de "O Peru de Natal"), esfriando completamente o clima. A partir de então, a amizade muda de rumo, perdendo a intensidade.

Por fim, o tanto vira nada. Terminado o colégio, separaram-se, Frederico indo para o Rio. Anos depois, Juca fica sabendo da morte da mãe de seu antigo amigo. Era a grande chance de reatar tudo, sob o pretexto de consolar o necessitado. Mas termina por mandar um telegrama formal, o que arrefece de vez todo o relacionamento.

O último conto em primeira pessoa é "Tempo da Camisolinha". Provavelmente seu narrador é o mesmo dos outros três, apesar da mudança de nome: Carlos.

O título é uma referência à roupa que o protagonista, ainda no início da infância, usava, típica de criança e que o irritava - claro sinal de que já estava crescendo, apesar de sua mãe não perceber. Nota-se que a criança estava no limiar de sua idade pelo fato de sempre estar brincando com seu pênis, o que, dizem os psicanalistas, equivale ao terceiro e último momento da primeira infância, a fase genital. É interessante lembrar que esse é justamente o momento de socialização da criança: ou vai haver um direcionamento em sua personalidade para o altruísmo, ou haverá para o egoísmo. Coincidência ou não, é este justamente o tema do conto.

A história passa-se numa rara viagem de férias em Santos, possibilitada apenas por causa de um período de convalescença da mãe do narrador (o pai do narrador Carlos não era afeito a esses luxos, o que faz lembrar o pai de Juca, de "O Peru de Natal", reforçando a tese de se tratarem das mesmas personagens).

Em seus passeios, a criança, após desafiar a santa (já se disse que Carlos gostava de manipular seu pênis. Mas era sempre repreendido por sua mãe, sob a alegação de que a santa (um quadro na parede) não iria gostar. Nesse dia, Carlos, aproveitando que ninguém estava em casa, exibe com toda empáfia seu diminuto membro para a divindade, espantando-se por nada acontecer. Rompia limites. Estava crescendo), acaba ganhando de um pescador três estrelinhas do mar. O pobre homem havia dito, ao presenteá-las, que serviam para dar boa-sorte. O menino volta para casa feliz, mesmo sem saber direito o que era sorte, guardando as preciosidades no quintal de sua casa. Mas seu estado é tal que fica toda hora indo visitar seus troféus.

Até que, em outro de seus passeios, conhece um português infeliz. Fica sabendo que o sujeito tinha "má sorte": muitos filhos pequenos, dificuldade para criá-los e uma esposa paralítica. O menino ficou penalizado. Num esforço enorme, volta para sua casa, pega suas estrelinhas e dá a mais bonita para o infeliz.

É o momento de dois grandes aprendizados. O primeiro está na idéia de que a nossa felicidade é sempre diminuída pela infelicidade que existe no mundo. O segundo é a noção de altruísmo, mesmo que para tanto deva diminuir seu bem-estar.

Quanto aos contos em terceira pessoa, alguns aspectos são importantes. Mais arejados da carga psicanalítica, estão preocupados em descrever o homo urbanus em suas múltiplas facetas. Além disso, predomina nesses contos a utilização de técnicas do Expressionismo, ou seja, a descrição da realidade externa por meio de traços exagerados, beirando o grotesco.

O primeiro conto nesse setor é "O Ladrão". Sua narrativa é simples: toda uma vizinhança é acordada com a gritaria de perseguição a um ladrão. O engraçado é que ninguém chega a ver esse bandido, o que leva à dúvida sobre sua existência. No entanto, serviu para unir as pessoas em plena madrugada para viverem um pouco da alegria coletiva, o que já estava começando a desaparecer na São Paulo da época de Mário de Andrade.

Chama a atenção nesse conto como o elemento coletivo é bastante vivo, chegando perto da técnica apresentada por Aluísio Azevedo em O Cortiço.

O conto seguinte, "Primeiro de Maio", possui uma excelente idéia que pecou pelo aspecto panfletário. Sua personagem principal, 35 (a maneira como as personagens são nomeadas, por meio de números, não só indica a desumanização por que passam dentro do sistema capitalista, como também faz referência a datas importantes, como 35 (ano em que foi decretado o feriado de Primeiro de Maio) e 22, ano de fundação do Partido Comunista Brasileiro), um carregador de malas da Estação da Luz, sofre uma transformação psicológica: vai da visão ingênua sobre o feriado até a noção desencantada e decepcionada, mais próxima da realidade (talvez a aquisição de conhecimento, consciência, esteja simbolizada na maçã que 35 come no decorrer do final do conto). Acha estranho que o feriado seja comemorado por um grupo de políticos encasacados, enquanto os trabalhadores são impedidos pela polícia de se agruparem.

Mais eficiente em sua crítica social é o quarto conto, "O Poço", pois o faz de maneira mais literária e menos panfletária. É uma história que se passa em um pesqueiro, lugar predileto de lazer da burguesia da época. O seu dono está preocupado com a construção de um poço, uma benfeitoria para si e para os visitantes, o que o faz ficar chateado com o atraso da obra, graças ao frio e à umidade do inverno. Era impossível trabalhar com as paredes enlameadas e com risco de desabamento.

Contrariado, aceita a interrupção da obra. O problema é que, ao mostrar a construção para seus visitantes, deixa cair sua caneta. De maneira tirana, força seu empregados a tentar resgata-la. Quem se dedica a realizar a tarefa é um empregado raquítico e doente, mas adequado para descer no poço. Ainda assim, o clima cada vez mais árduo e o mergulho no lamaçal do poço só pioram sua situação.

De uma forma bem expressionista, conforme se aproxima do clímax do conto, em que a opressão aos operários se torna mais cruel, o frio vai-se tornando mais agudo e o barulho do maquinário do poço vai piorando, como se não mais gemesse, mas gritasse.

No final, o irmão do sacrificado impõe-se de maneira arriscada, dizendo que seu parente não iria mais mergulhar. Houve um impasse, logo desfeito, com a paternal advertência de que o subordinado deveria tomar cuidado com o tom com que se dirigia ao seu patrão.

Dias depois, já afastadas as dificuldades climáticas, os empregados puderam resgatar a caneta do lamaçal, entregando-a ao patrão como se fosse um objeto sagrado. Mas (era de se esperar) já não funcionava mais.  Para revolta do leitor, o poderoso joga-a fora; abrindo a gaveta, vêem-se outras iguais.

Anterior a esse conto é "Atrás da Catedral de Ruão", que foge um pouco ao tom dos demais em terceira pessoa, pois apresenta uma forte abordagem freudiana, aproximando-se, portanto, dos contos em primeira pessoa.

Sua protagonista, mademoiselle, é uma velha solteirona virgem que se dedica a pajear jovenzinhas da burguesia paulistana. Sua sexualidade reprimida é descarregada em diversas formas de recalque, a começar pela coriza constante. Mas o que chama mais atenção é a sua linguagem, sempre na proximidade do perigo, dizendo e não dizendo nada erótico, o que delicia as adolescentezinhas, fazendo-as entrarem no mesmo jogo. O problema é que as meninas vão crescendo e vão trilhando caminhos sexuais que a dama de companhia não conhece. Vi ficando cada vez mais para trás.

Seu último recalque manifesta-se no final do conto. Durante a narrativa a protagonista fazia referência a uma mulher que havia sido violentada na escuridão atrás da Catedral de Ruão, na França. Esse acontecimento ficou tão marcado em sua mente que, certa vez, voltando para casa, acaba por descer no ponto errado. Seu inconsciente já estava dominando.

Para chegar até a sua casa, tem de passar pelo Largo Santa Cecília, onde fica a igreja de mesmo nome. Poderia muito bem ir pela frente, mas alguma força a faz ir para a parte de trás da igreja.

Nesse ponto, mademoiselle ouviu passos atrás dela. Apressou sua carreira, mas sentiu que os seus perseguidores também se apressavam. Até que se viu derrubada no chão e atacada sexualmente.

No parágrafo seguinte, vemo-la chegando à entrada de sua pensão, esbaforida. Os sujeitos que andavam atrás dela conversam despreocupadamente, alheios à presença dela. Tudo não havia passado de delírios da solteirona. Esquizofrenia, eis a sua perversão.

Surpreendentemente, quando os homens passam perto, ela dá uma nota para eles, dizendo "merci pour votre bonne compagnie" ("Obrigado por vossa boa companhia", em francês. Este conto está recheando de expressões nessa língua, que devem ser ignoradas, pois sabê-las ou não não traz enormes prejuízos à compreensão do texto).

O último conto em terceira pessoa é "Nelson", muito estranho, talvez por ser o único que ainda não passou pela revisão final do autor. Marcante é a utilização de vários focos narrativos, em que há uma técnica cubista de colagem de várias histórias, todas sobre o misterioso personagem que freqüenta o bar em que todos estão.

Parece que cada pessoa tem alguma história sobre o misantropo protagonista. Uns dizem que fora apaixonado por uma paraguaia, que o abandonou quando, educada, ficou sabendo do massacre que o Brasil causou ao país dela durante a Guerra do Paraguai. Outros mencionam ter participado da Coluna Prestes. Outros dizem que ele, ao contrário, teria lutado contra a Coluna. Parece ter sido durante esse combate que teria ficando com o braço deformado, a mão em formato de gancho: ficara embaixo d'água, no Pantanal, para escapar do inimigo, quando começou a ser atacado por piranhas,  agüentando até que pudesse escapar.

Nelson percebe que está sendo observado, o que o faz sair do bar. Agora o foco narrativo o acompanha. A misantropia da personagem é tamanha que se vê impossibilitada de seguir o seu caminho porque há bêbados à sua frente. No momento em que um policial afasta os arruaceiros, Nelson rapidamente se esgueira, como um bicho, para a sua casa, tranca-se, não se esquecendo de dar três voltas na chave. Isola-se do gênero humano.

 


Fonte: Vestibular1

Leia mais em: http://www.enemsimples.info/2011/07/resumo-contos-novos-mario-de-andrade.html#ixzz2aTnqMQKU

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29

jul
2013

Resumo As melhores crônicas - Rachel de Queiroz - Unicentro

"As Melhores Crônicas de Rachel de Queiroz" - Resumo e análise da obra de Rachel de Queiroz

23/08/2012 00h 24

"As Melhores Crônicas de Rachel de Queiroz" foi organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e reúne crônicas publicadas por Rachel de Queiroz em seis livros, abrangendo um período que vai de 1948 ("A donzela e a moura morta") à 2002 ("Falso mar, falso mundo"). Tendo iniciado sua carreira no jornalismo ainda muito jovem, apenas aos 17 anos, Rachel de Queiroz se considerava antes de tudo uma jornalista. Dizia, inclusive, não gostar de escrever, fazendo-o apenas para se sustentar. 

Assim, é através de sua atividade regular na imprensa que Rachel irá produzir grande parte de sua obra. E, dentro da profissão de jornalista, é na crônica, gênero literário que pode ser considerado intermediário entre o jornalismo e a literatura, que ela irá trabalhar de melhor forma sua escrita. Suas crônicas tratam dos mais variados temas e registram lembranças, fatos históricos, opiniões, críticas, indignações e o que mais vier à mente da escritora.

Para melhor entender a crônica de Rachel de Queiroz, deve-se ter em mente o que tradicionalmente é uma crônica. Esse é um gênero literário que trata, no geral, de problemas cotidianos, assuntos comuns ao dia-a-dia das pessoas, sendo na maioria das vezes um texto curto. Cada crônica é organizada em torno de um único eixo temático e suas personagens (quando houverem) são normalmente rasas, ou seja, não possuem aprofundamento psicológico e muitas vezes nem possuem nomes. Devido a essas características, por muito tempo discutiu-se se a crônica era de fato um gênero literário ou não.

Porém, a crônica de Rachel de Queiroz apresenta diversas inovações e possuem um caráter experimental, aproximando-a muitas vezes de um conto (gênero literário de textos curtos que apresentam personagens, enredo, narrador). Assim, através de seu experimentalismo literário, Rachel de Queiroz coloca em debate o caráter literário ou não da crônica, dando força a esse gênero que por muito tempo foi considerado secundário dentro da literatura brasileira.

Dentre as crônicas escolhidas para este livro, têm-se grande destaque os tipos regionais e as lembranças que Rachel tem do sertão. Assim, muitas vezes estes textos apresentam um caráter autobiográfico, a medida que são baseados em lembranças e fatos reais vividos pela escritora. Percebe-se também uma linguagem simples como se fosse um diálogo com o leitor, uma característica comum às crônicas. Consegue-se então através dessa aproximação com o leitor uma maior credibilidade ao texto. 

Porém, por mais que a linguagem empregada por Rachel de Queiroz em seus textos seja considerada "simples" para padrões literários convencionais, esta simplicidade é fruto de intenso trabalho técnico e literário. Não só em suas crônicas, mas também em seus romances e outros textos, a preocupação em escrever de uma "forma simples" é uma característica central de seu estilo. Consequentemente, outra característica importante da escrita de Rachel de Queiroz é a busca por uma linguagem oral e natural.

Além do sertão, outros temas bastante recorrentes em suas crônicas são o cotidiano carioca - Rachel de Queiroz viveu alguns anos na Ilha do Governador e era apaixonada pelo lugar, escrevendo diversas crônicas que tomavam a Ilha como tema -, reflexões sobre o amor - existem algumas crônicas em que ela narra aventuras amorosas da mocidade e paixões proibidas -, e têm bastante destaque também temas como o tempo, a velhice e a morte.

Crônicas representativas
"O Senhor São João"
Neste texto, a autora usa como ponto central a festa de São João para desconstruir certos preconceitos e estereótipos mantidos pelos moradores das regiões Sul e Sudeste acerca do Norte e Nordeste. Tendo como ponto de partida a ideia de que no Norte o povo passa o ano todo dançando em uma série de festividades, Rachel de Queiroz trabalha a diferença entre os diversos estados e cidades do Norte e Nordeste, dando voz à riqueza cultural destas regiões. As lembranças da infância no Ceará têm grande importância e força na construção dessa narrativa.

"Rosa e o fuzileiro" e "Vozes d’África"
Estes contos fazem parte de uma vasta produção sobre amores impossíveis bem ao estilo Romeu e Julieta. Em "Rosa e o fuzileiro", Rachel conta a história de uma jovem, Rosa, que se apaixona por um fuzileiro naval e que é violentamente agredida por seu pai, que se opunha ao amor da moça. Alguns meses depois, ela reconta a história de Rosa, mas dessa vez sob o ponto de vista do pai, em "Vozes d’África".

"Pátria Amada"
Após uma temporada no exterior, Rachel de Queiroz fala sobre a sensação de voltar ao Brasil. Por mais que, ao estar em solo brasileiro, o que mais se quer é ir para o exterior e fugir de toda a bagunça de nosso país, ao se encontrar distante e se deparar com a bandeira nacional, o que se sente é saudade e vontade de voltar para casa. Rachel de Queiroz, em tom nacionalista, também reflete sobre o que é a pátria. O tema do "retorno" (seja ao Brasil, seja à casa, ou seja o retorno à infância) é um tema bastante recorrente em suas crônicas.

"Sertaneja"
Nesta crônica, o saudosismo e o orgulho de sua terra-natal, o Ceará, aparece com grande força para retratar a vida no sertão. O corrido passar do tempo em uma cidade como o Rio de Janeiro é posto em contraste com o tempo devagar e sossegado da vida no sertão. Este tema do "tranquilo passar do tempo" é discutido em diversas outras crônicas da escritora.

"Não aconselho envelhecer"
Rachel de Queiroz traça nessa crônica uma perspectiva sobre a velhice bastante diferente da do senso comum. Primeiramente, ela discorda do termo "terceira idade", e elenca o que considera diversos prejuízos causados pelo envelhecimento, que para ela é como uma "espécie de HIV a longo prazo".

Comentário do professor
Comentário do prof. Ronnie Roberto Campos, do Colégio Adventista de Londrina:
Sem dúvida, Raquel de Queiroz foi uma das mais expressivas figuras femininas de nossa literatura, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e a receber o famoso Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa. Escritora fenomenal, Rachel percorreu os mais diferentes gêneros, como a tradução, o romance e o teatro, mas foram as crônicas que revelaram ao mundo a genialidade dessa brilhante autora cearense.

A coleção organizada por Heloisa Buarque de Holanda é uma coletânea que reúne 71 dos melhores textos da escritora. A linguagem clara, simples, direta e muito próxima da coloquial resulta numa leitura bastante agradável. Estilisticamente suas crônicas costumam ser arroladas ao regionalismo modernista, embora alguns de seus textos não se ajustem muito bem a essa classificação.

Pensando na obra como indicação de leitura para o vestibular, é interessante prestar atenção à intertextualidade que ocorre com certa frequência, principalmente pela citação de fragmentos de obras e autores bastante conhecidos, como Manuel Bandeira. Vale a pena observar também o foco narrativo, que na maioria das vezes se apresenta em primeira pessoa. Às vezes o narrador se apresenta como uma garota em sua infância, outras vezes na juventude e muitas vezes já na idade madura revivendo suas memórias.

Sobre Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz nasceu em 17 de novembro de 1910 na cidade de Fortaleza, Ceará. Por parte de mãe, era descendente da família do escritor José de Alencar (sua bisavó materna era primo de Alencar). Após uma grande seca na região, ela muda-se com os pais em 1917 para o Rio de Janeiro e, logo depois, para Belém do Pará. Em 1919, retornam para Fortaleza. Durante esse tempo, seu pai foi seu principal educador, ensinando-a a ler, nadar e cavalgar.

De volta ao Ceará, forma-se professora aos quinze anos de idade, em 1925. Orientada por sua mãe, dedica-se inteiramente à leitura dos principais lançamentos nacionais e internacionais, e começa a produzir seus primeiros textos. Em 1927, escreve uma carta ao jornal "O Ceará" e é convidada pelo diretor do jornal à colaborar para a publicação. Neste mesmo ano lança em forma de folhetim seu primeiro romance, História de um nome. Em 1930, publica "O Quinze", obra que trata da luta do povo nordestino contra a seca e a miséria, e a deixaria famosa em todo o país. 

Nesta mesma época envolve-se com o Partido Comunista, mas rompe com ele após o partido censurar seu livro "João Miguel", onde um operário mata outro. Acaba publicando essa obra no Rio de janeiro e muda-se para São Paulo, onde filia-se ao sindicato dos professores de ensino livre. Entre 1934 e 1939, muda-se constantemente entre o Norte, o Rio de Janeiro e Fortaleza, onde é presa em 1937 acusada de ser comunista.

Em 1939, divorcia-se e se muda para a cidade do Rio de Janeiro, onde publica "As três Marias", seu quarto romance. Conhece o médico Oyama de Macedo, com quem vive até 1982, ano em que ele vem a falecer. Após a notícia do assassinato do revolucionário marxista Trótski, afasta-se da esquerda. Em 1967, Rachel apoia o golpe militar e passa a integrar o Conselho Federal de Cultura, onde fica até o fim do regime militar em 1985.

Em 1977, é eleita para a Academia Brasileira de Letras, organização da qual recebeu em 1957 o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, e torna-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia. Ao lado de seus diversos romances, contos, crônicas e peças teatrais, Rachel de Queiroz torna-se também muito conhecida por suas histórias infanto-juvenis, carreira que começou em 1969 com o livro "O Menino Mágico". Rachel de Queiroz vem a falecer no dia 4 de novembro de 2003 em sua casa no Rio de Janeiro.

Suas principais obras são: "O Quinze" (1930), "As três Marias" (1939), "100 Crônicas escolhidas" (1958), "Dôra, Doralina" (1975), "As menininhas e outras crônicas" (1976) e "Memorial de Maria Moura" (1992).

 

disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/melhores-cronicas-rachel-queiroz-resumo-analise-obra-rachel-queiroz-698968.shtml

 

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29

jul
2013

Resumo A Rosa do Povo - Drummond - Vestib. Unicentro

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade


Escrito entre 1943 e 1945 e publicado neste mesmo ano, A Rosa do Povo é aclamado por inúmeros setores da crítica literária como a melhor obra de Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da Literatura Brasileira e um dos três mais importantes de toda a Língua Portuguesa. Antes que se comece a visão sobre esse livro, necessária se faz, no entanto, uma recapitulação das características marcantes do estilo do grande escritor mineiro.

Poesia da fase "eu menor que o mundo", toma como tema a política, a guerra e o sofrimento  do homem. Desabrocha o "sentimento do mundo", traduzido pela solidão e na impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, que o reduz a um objeto.

A obra é a mais extensa de todas as obras de Carlos Drummond de Andrade, composta por 55 poemas. Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas). Embora em seu próprio título haja uma simbologia revolucionária, sem contar o número expressivo de poemas socialmente engajados, A rosa do povo apresenta grande variedade temática e técnica. 

Quase todos os poemas têm uma dimensão metafórica, apesar da linguagem aparentemente clara. Com freqüência, também nos surpreendemos com inesperadas associações de palavras, elipses, imagens surrealistas. Trata-se de poemas refinados, complexos e acessíveis somente a leitores com significativa informação poética. Paradoxalmente a obra em que Carlos Drummnod de Andrade mais se aproxima de uma ideologia popular é, na verdade, dirigida apenas a uma aristocracia intelectual. 

A rosa do povo representa, na poesia de Drummond, uma tensão entre a participação política e adesão às utopias esquerdistas, de um lado, e a visão cética e desencantada, de outro lado. Não devemos entender esta duplicidade (esperança versus pessimismo) como contraditória. Toda a obra do autor (incluindo-se aí a amplitude de assuntos da mesma) é marcada por uma visão caleidoscópica, polissêmica.

A realidade, para ele, tem várias faces. Faces descontínuas, irregulares, opositivas. Tentar captar a essência humana é registrar ambivalências, ângulos variados. Nunca há em Drummond uma palavra definitiva, uma visão final. O fluxo desordenado da vida não permite uma única certeza, uma única convicção. 

O poeta vale-se tanto do "estilo sublime" (padrão elevado da língua culta) quanto do "estilo mesclado" (linguagem elevada e linguagem coloquial).

Para a compreensão dessa obra, bastante útil é lembrar a data de sua publicação: 1945. Trata-se de uma época marcada por crises fenomenais, como a Segunda Guerra Mundial e, mais especificamente ao Brasil, a Ditadura Vargas. Drummond mostra-se uma antena poderosíssima que capta o sentimento, as dores, a agonia de seu tempo.  Basta ler o emblemático A Flor e a Náusea, uma das jóias mais preciosas da presente obra.

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, 

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Nota-se no poema um eu-lírico mergulhado num mundo sufocante, em que tudo é igualado a mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo. Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil, insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil, marcado por “fezes, maus poemas, alucinações". 

No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial (que pode ser representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro), o poeta vislumbra uma saída. Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação - o poeta já deu sinais claros no texto de que não é capaz disso. Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança - ela de fato está para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da rosa, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o que mantém o poeta vivo em meio a tanto desencanto.

Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra, acaba por explicar o seu título. Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a rosa indica o desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta. E a expressão "do povo" pode estar ligada a uma tendência esquerdista, socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica ao universo capitalista na primeira ("Melancolias, mercadorias espreitam-me.") e terceira estrofes ("Sob a pele das palavras há cifras e códigos."). O novo mundo, portanto, teria características socialistas.

O outro item é visto pelo estreito relacionamento que A Flor e a Náusea estabelece com o poema a seguir, Áporo, um dos mais estudados, densos, complexos e enigmáticos da Literatura Brasileira.

Um inseto cava

cava sem alarme


perfurando a terra

sem achar escape.

Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?

Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:

em verde, sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-se.

Note que a narrativa parece ser tirada de A Flor e a Náusea: um inseto, o áporo, cava a terra sem achar saída. Assemelha-se ao eu-lírico do outro poema, que se via diante de um muro e da inutilidade do discurso. No entanto, Drummond continua discursando, vivendo, assim como o inseto continua cavando. Então, do impossível surge a transformação: do asfalto surge a flor, da terra-labirinto-beco surge a orquídea. 

Há algo aqui que faz lembrar o poema Elefante, também no mesmo volume. Da mesma forma como Drummond fabrica seu brinquedo, mandando-o para o mundo, de onde retorna destruído (mas no dia seguinte o esforço se repete), o eu-lírico de A Flor e a Náusea sobrevive em seu cotidiano nulo e nauseante e o áporo perfura a terra. É a temática do "no entanto, continuamos e devemos continuar vivendo", tão comum em vários momentos de A Rosa do Povo.

Áporo, portanto, é um poema tão rico que pode ter outras leituras, além dessa de teor existencial. Há também, por exemplo, a interpretação política, que enxerga uma referência a Luís Carlos Prestes ("presto se desata"), que acabara de ser libertado pelo regime ditatorial. A figura histórica pode ser vista, portanto, como um áporo buscando caminho na pátria sem saída que se tornou o Brasil na Era Vargas.

Ainda assim, existe quem veja no texto um mero - e inigualável - exercício lúdico, em que as palavras são contempladas, manipuladas, transformadas. Basta lembrar, por exemplo, que "áporo", além de ser a designação do inseto cavador, é também um termo usado em filosofia e matemática para uma situação, um problema sem solução, sem saída. Além disso, a essência etimológica da palavra inseto é justamente as letras "s" e "e", diluídas no corpo do texto. Observe como tal pode ser esquematizado:

Um inSEto cava

cava SEm alarme

perfurando a terra

SEm achar EScape.

Que faZEr, ExauSto,

Em paíS bloqueado,

enlaCE de noite

raiZ E minério?

EiS que o labirinto

(oh razão, miStÉrio)

prESto SE dESata:

em verdE, Sozinha,

antieuclidiana,

uma orquídea forma-SE.

Note que a essência do áporo, do inseto, vai se movimentando em todo o poema, transformando-se, até o ápice do último verso da terceira estrofe. É o momento da transformação e da iniciação, já anunciadas na segunda estrofe na aliteração do /s/ e do /t/ e da assonância do /e/ que acabam criando a forma verbal "encete" (ENlaCE de noiTE), que significa principiar, mas que possui também uma forte aproximação sonora com "inseto". A mutação final virá no último verso: o áporo inseto se transforma em áporo orquídea ("áporo" é também o nome de um determinado tipo de orquídea), a flor que se desabrocha para a libertação. Tanto que a raiz SE está prestes a se libertar, pois virou a forma pronominal "se" (e, portanto, com relativa vida própria) que encerra o poema.

Tal trabalho com a linguagem é a base de todo texto poético, como é defendido pelo próprio Drummond em Procura da Poesia, transcrito abaixo:

Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é a música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza


nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a 

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Repara: 

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Esse antológico poema é dividido em duas partes. Na primeira apresentam-se proibições sobre o que não deve ser a preocupação de quem estiver pretendendo fazer poesia. Sua matéria-prima, de acordo com o raciocínio exibido, não são as emoções, a memória, o meio social, o corpo. Na segunda parte explica-se qual é a essência da poesia: o trabalho com a linguagem. O poema pode até apresentar temática social, existencial, laudatória, emotiva, mas tem de, acima de tudo, dar atenção à elaboração do texto, ou seja, saber lidar com a função poética da linguagem.

I - Poesia social

Pelo menos duas dezenas dos cinqüenta e cinco poemas de A rosa do povo podem ser enquadrados nesta tendência na qual a angústia subjetiva do poeta transforma-se em engajamento e compromisso com a humanidade. 

De certa forma, é possível distinguir neles uma espécie de seqüência lógica que revela as mudanças de percepção do poeta face ao fenômeno social. Este processo temática não é unívoco, sendo composto por mais ou menos quatro movimentos muito próximos e que, na sua totalidade, formam a mais elevada manifestação de poesia comprometida na história da literatura brasileira. Vamos encontrar então:

- a culpa e a responsabilidade moral - a repulsa ao egocentrismo e a abertura em direção à solidariedade estão representadas por dois poemas totalmente simbólicos e despidos de referências à historicidade e ao cotidiano: Carrego comigo e Movimento da espada

- o registro puro e simples de uma ordem política injusta - ainda que toda a sua poesia social submeta a ordem vigente a um inquérito implacável, há sempre nestes poemas a indicação do novo, ou pelo menos das lutas que indivíduos, classes e povos travam para impugnar a injustiça do planeta. A exemplo de O medo, entretanto, a esperança ou o enfrentamento não se delineiam e o resultado é um dos textos mais opressivos de toda a obra de Drummond. 

Os versos irregulares, (embora um bom número deles tenha sete sílabas) não impedem a criação uma cadência grave e soturna, nascida da repetição exaustiva da palavra medo. No desenrolar das quinze estrofes do poema, essa palavra e aquilo que ela traduz no contexto da época (ditadura, prisão, tortura, guerra, massacres, etc.) vão tecendo uma rede de tentáculos sobre os seres, impedindo-os de pensar, protestar e agir.

Além da impugnação desta era de medo, Drummond deixa transparecer no poema a sensação de culpa e de responsabilidade - que o acomete com freqüência.

- a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e em termos abstratos) - Neste bloco, encontramos um significativo número de poemas. Eles refletem a transição de um clima acabrunhante - no qual um indivíduo em crise e um sistema desolador se identificam - para uma atmosfera radiosa de esperança e afirmativa do novo.

Dentro desta ótica são escritos dois dos mais importantes poemas de A rosa do povoA flor e a náusea e Nosso tempo. São também os mais concretos pois aludem diretamente ou indiretamente à realidade objetiva. Neles, o sentimento de culpa é substituído pela noção denáusea: a náusea existencialista, à maneira de Sartre, que, mais do que uma sensação física de enjôo, é uma situação de absoluta liberdade de quem a vivencia. Liberdade no sentido da destruição de todos os valores tradicionais, da morte de todos os deuses e crenças. A náusea decorre desta liberdade aterradora, próxima do absurdo. O homem, despojado de suas antigas certezas, vaga num universo de destroços, porém, ao mesmo tempo que o tédio e o desespero o ameaçam, este mesmo homem pode, na grande solidão em que se converteu sua vida, encontrar uma alternativa válida de existência individual e coletiva.

- a celebração da nova ordem - O despojamento do egoísmo burguês e a superação da situação de náusea induziram Drummond a vários compromissos: primeiro, o moral; segundo, o humanista; terceiro, o ideológico. Imerso numa era onde a barbárie ameaçava a civilização, o poeta entende que a mera solidariedade ou apenas a argüição áspera da sociedade injusta não bastariam. Seria necessário que o indivíduo sujeitasse seu egocentrismo a um sistema de idéias em que a organização e os interesses coletivos prevalecessem.

O marxismo - na sua formulação soviética - surge, então, como a possibilidade redentora do homem. O heroísmo da URSS, na II Guerra, é o combustível desta expansão ideológica. Há, em todo o Ocidente, uma expressiva fraternidade em relação ao povo russo e ao seu regime. Como centena de intelectuais, Drummond não escapa da sedução comunista. Alguns poemas vão traduzir esta adesão. Com raras exceções, eles constituem a parte mais perecível de A rosa do povo.

II - Poesia de reflexão existencial

Entre os múltiplos temas do autor, o único presente em todas as suas obras, de Alguma poesia a Farewel, com maior ou menor insistência, é o do questionamento do sentido da vida. Mesmo num livro em que o engajamento social e político exerce forte hegemonia, como é o caso de A rosa do povo, sobressaem-se inúmeros poemas de interrogação existencial, alguns situados entre os momentos culminantes do lirismo de Drummond. Principais motivos:

Solidão, angústia e incomunicabilidade - Mais centrada na esfera da subjetividade do poeta, esta tendência desvela a impotência do eu-lírico para estabelecer vias comunicantes com os demais seres humanos. Trata-se de uma solidão terrível, pois ela ocorre na grande cidade, cidade antropofágica e impassível, onde o indivíduo caminha desorientado em meio a uma multidão indiferente e sem rosto.

O fluir do tempo - Um dos temas nucleares da obra drummondiana, a percepção da passagem do tempo se estabelece através de interrogações diretas sobre o sentido deste fluxo que degrada os corpos, a beleza, as coisas e também as ilusões, os amores e as crenças dos indivíduos. Affonso Romano de Sant'Anna, em ótima análise estilística, mostra a predominância em A rosa do povo de vocábulos que indicam mudança e viagem. A vida "flui e reflui, corre, passa, escorre, espalha-se, desliza, dissipa-se", num desfile ininterrupto e cujo destino final é a morte.

A morte - A consciência da progressiva destruição operada pelo tempo - núcleo principal de todo o amplo espectro temático de CDA - condensa-se na convicção de que o ser é sempre o ser-para-a-morte.

"viagem mortal" do indivíduo percorre não apenas toda a poesia de indagação filosófica, mas igualmente a lírica que expressa o passado, o cotidiano, o compromisso ético e político e até a que fala do amor. A tragédia da condição humana é a da certeza da finitude. Desta expectativa da própria destruição, Drummond elabora poemas de desconcertante lucidez.

III - A poesia sobre a poesia

A reflexão metapoética (ou metalinguagem) constitui uma das vertentes dominantes da obra de Drummond. A própria poesia é tematizada, na forma característica do poema sobre o poema, e discute-se o ofício de escrever, a construção do texto, o âmago da linguagem lírica, etc.

A poética - Consideração do poema e Procura da poesia abrem A rosa do povo. Isso já revela a importância que Drummond confere ao problema do fazer literário, porque em ambos estabelece-se a tentativa de fixação de uma poética, isto é, de um processo de enumeração - direto ou metafórico - dos princípios técnicos e semânticos e dos valores filosóficos que regem a escrita do autor.

Uma poética controversa - Os críticos se dividiram a respeito do significado dos dois principais poemas de metalinguagem de Drummond. Alguns interpretaram os textos como contraditórios porque afirmariam realidades antagônicas: um, o domínio do compromisso social; outro, o império da linguagem. Representariam, portanto, a condensação das tendências opositivas de A rosa do povo, obra dilacerada entre a esperança no futuro socialista e a amargura filosófica.

Já outros críticos especulam que Consideração do poema corresponde ao projeto ideológicodo autor, enquanto Procura da poesia traduz o seu projeto estético, não havendo diferenças estruturais entre ambos, e sim uma variação de enfoque determinada pela especificidade de cada projeto.

No entanto, para José Guilherme Merquior - o mais importante entre os estudiosos da obra drummondiana - os dois poemas formam um conjunto coerente, porque estão alicerçados sobre uma concepção dialética do gênero lírico, o qual se comporia de duas camadas interligadas:

a) A natureza preponderantemente verbal da poesia. Ou seja, poesia, em primeiro lugar, é seleção e ordenação de palavras; 
b) As palavras - captadas em seu mistério e em algumas de suas "mil faces" - não são vazias de conteúdo. Ora, se o discurso poético não é um zero semântico, suas referências obrigatoriamente designam elementos do real. 

Em suma, a pesquisa e a invenção de linguagem constituem o cerne da poesia, mas as palavras trazem consigo uma constelação de significados que o poeta escolhe. Não se trata - como já frisamos - de privilegiar a mensagem, exprimindo-a diretamente. Isso não é poesia. Apenas através da penetração no "reino das palavras", o autor lírico poderá dar um sentido a seu canto. Ou seja, aquilo que o poeta diz é também a forma como ele o diz.

IV - Poesia sobre o passado 

A idéia do passado e de suas infinitas recordações afeta profundamente a criação poética de Drummond, tanto que alguns de seus mais celebrados poemas giram em torno deste baú de lembranças que, aberto, deixa entrever uma formidável multiplicidade de experiências pessoais, familiares e históricas.Em resumo, o passado é apresentado da seguinte maneira na poesia de Drummond: 

1- O registro realista (mais sugerido do que descrito) do quadro familiar e sócio-cultural do interior rural mineiro de fins do século XIX e início do século XX;

2- A evocação de um mundo estritamente pessoal, formado por fatos, palavras e sentimentos que tiveram eco ou atingiram a subjetividade do menino e/ou do jovem Drummond;

3- A projeção do passado (pessoal, familiar, social) no presente, fazendo com que toda a indagação daquilo que ficou para trás seja também uma indagação da identidade atual do poeta e dos outros remanescentes do universo rural / provinciano, recuperados por uma memória que os interpela incessantemente.

V - Poesia sobre o amor 

Drummond talvez seja a voz lírica/amorosa mais rica e complexa da literatura brasileira. Há em sua poesia uma inesgotável variedade de visões e abordagens do fenômeno afetivo, tanto nos aspectos espirituais quanto nos eróticos. 

No entanto, em A rosa do povo a questão amorosa ocupa espaço mínimo, registrando-se apenas um poema de assunto estritamente sentimental: O mito. Verdade que não seria equivocado enquadrar O caso do vestido nesta vertente, mas por razões que veremos adiante, preferimos inseri-lo na categoria dos poemas sobre o cotidiano.

VI - Poesia do cotidiano

Embora vários textos da poesia social de Drummond retratem a vida diária com grande vigor, a inclinação participante do poeta dão a estes versos uma dimensão explicitamente engajada. Algo que não encontramos nos poemas específicos sobre o cotidiano. Neles, Drummond fixa cenas ou narra histórias - sem a intervenção do eu - quase como um repórter de linguagem apurada. Com muita propriedade, Merquior define estes poemas como "dramas do cotidiano". Em regra geral, são os de leitura mais acessível, o que não lhes retira a beleza e a complexidade. Todavia, em A rosa do povo só nos deparamos com dois desses poemas.

VII - Celebração dos amigos 

Em vários de seus livros, Drummond faz a louvação de personalidades que, de alguma maneira, marcaram-lhe a existência, seja pela amizade, seja pela grandeza artística/humana das obras que produziram. Em A rosa do povo, duas longas odes expressam a referida tendência. Mário de Andrade e Charlie Chaplin são os homenageados em textos arrebatadores, enfáticos e, no caso específico do segundo, até mesmo um pouco palavroso.

Nota

A riqueza de A Rosa do Povo não se restringe, porém, às temáticas abordadas. Há uma profusão de outros assuntos, como a abordagem da cidade natal (Nova Canção do Exílio, em que há uma reinterpretação do Canção do Exílio, de Gonçalves Dias), a observação do problemático cotidiano social (Morte do Leiteiro, em que o protagonista, que dá nome ao poema, acaba sendo assassinado em pleno exercício de sua função por ser confundido com um ladrão, o que possibilita uma crítica às relações sociais esgarçadas pelo medo), a rememoração dos parentes (Retrato de Família, em que o eu-lírico percebe a viagem através da carne e do tempo de uma constante eterna ligada à idéia de família) e o amor como experiência difícil, o famoso amar amaro (Caso de Vestido, em que o eu-lírico, uma mulher, narra o sofrimento por que passou quando da perda do seu marido e quando também da recuperação dele).

disponível em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_rosa_do_povo/

 

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29

jul
2013

Comentário de "Muitas Vozes" - Ferreira Gullar - Unicentro

Livros Vestibular Unicentro 2013

 

Muitas Vozes - Ferreira Gullar

 

Escrito em 1999, 12 anos após o livro anterior de Ferreira GullarMuitas Vozes é um conjunto de 54 poemas independentes com forte traço memorialístico, que foge a qualquer classificação literária. A obra resgata a polifonia do autor ao longo de sua trajetória como poeta, o que explica as muitas vozes do título.

Mais do que em outros livros, Gullar evoca imagens cotidianas ao mesmo tempo em que faz questionamentos existenciais e explicita sua visão de mundo. O autor pertence ao Modernismo da chamada Geração de 45, caracterizada pelo experimentalismo linguístico e formal, preocupação social e a valorização do raciocínio e do trabalho artesanal do poeta. Autenticidade, lirismo e referências autobiográficas são marcas fortes do autor neste livro.

Temas
Desejo, erotismo (no poema Coito), expressão da morte da esposa (em Thereza), sexo (Definição da moça), a dualidade entre barulho e silêncio (Nasce o poeta e Evocação do silêncio), família (Filhos), figuras políticas (Queda de Allende), referências literárias, como Mallarmé e exílio político (Filho da ilha).

Forma
Trata-se de poemas independentes, divididos em 4 partes: Muitas Vozes, Ao rés da fala, Poemas recentes e Poemas resgatados. Gullar escreve em tom prosaico, com um vocabulário cru e sem rebuscamento. São versos livres, ora longos, ora curtos, por vezes rimados, que não seguem uma linearidade padrão, portanto não respeitam começo, meio e fim. De acordo com a professora Glaucia Lopes, o uso da sinestesia e de metáforas são características presentes no livro. O autor abdica da pontuação e, muitas vezes, se distancia da própria gramática normativa

Fonte: Glaucia Lopes, professora de Literatura Brasileira e Língua Portuguesa do curso Unificado.


Veja um exemplo de questão da Federal:

(UFPR/2005) O poema que se segue integra o volume intitulado Muitas vozes, publicado por Ferreira Gullar no ano de 1999.

Ouvindo apenas
e gato e passarinho
e gato
e passarinho (na manhã
veloz
e azul
de ventania e ar
vores
voando)
e cão
latindo e gato e passarinho (só
rumores
de cão
e gato
e passarinho
ouço
deitado
no quarto
às dez da manhã
de um novembro
no Brasil)

Acerca do poema acima reproduzido, considere as seguintes afirmativas:

I. No plano da linguagem poética, pelo menos um dos procedimentos empregados pelo autor em Muitas vozes encontra-se exemplificado em Ouvindo apenas: o texto espacializado (a linguagem de base visual).

II. O sujeito lírico de Ouvindo apenas mantém-se desligado do mundo objetivo, mostrando-se insensível a estímulos físicos.

III. O emprego de quadras e tercetos isométricos associa Ouvindo apenas ao modelo estrutural do soneto.

IV. O poema justapõe dois registros da realidade: fora dos parênteses, os elementos da realidade são relacionados de forma objetiva; dentro dos parênteses, fica evidenciada a atuação do componente subjetivo.

V. Embora use recursos do 
fazer poético concretista, 
Ferreira Gullar harmoniza a 
ousadia formal com a representação da emoção.

Assinale a alternativa correta:

a) Somente as afirmativas I, IV e V são verdadeiras.
b) Somente as afirmativas I e III são verdadeiras.
c) Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas II, III e V são verdadeiras.
e) Somente as afirmativas II, IV e V são verdadeiras.

 

 

Resposta: a)

 

 

 

"Muitas vozes" - Análise da obra de Ferreira Gullar

03/09/2012 20h 54

Após doze anos sem publicar nenhum poema em livro, Ferreira Gullar volta em 1999 com a obra "Muitas Vozes". Esse livro representa uma ruptura temática dentro da biografia do escritor, diferenciando-se de grandes obras anteriores tais como "A Luta Corporal" (1954) e "Poema Sujo" (1976). Gullar sempre buscou novos caminhos para a poesia brasileira desde seus primeiros livros, tendo aberto espaço para a poesia concreta no país. Seu segundo trabalho, "A luta corporal" (1954), causou grande impacto no meio intelectual brasileiro por ter uma proposta gráfica muito inovadora para a época. Mais tarde o poeta iria romper com o concretismo e ajudar a criar o movimento neoconcretista, o qual também deixou de lado por volta da década de 1960. Assim, através de experiências diversas com a linguagem e o fazer poético, Gullar consegue firmar-se como um poeta de vanguarda dentro da literatura nacional.

Já em "Muitas Vozes" podemos ver uma poética mais madura. Nesta obra faz-se muito presente reflexões sobre a vida, a morte, memórias da infância, o silêncio e outros temas. Conforme o próprio escritor comentou, este é um livro em que a fúria presente em outras obras suas aparece mais amenizada e o tom geral do livro é de reflexão. O tema da morte, muito frequente no livro, pode ser reflexo das perdas enfrentadas pelo autor durante a década de 1990 - seu filho e sua primeira esposa haviam falecido nessa época. Porém, a morte não é vista com medo ou horror, mas sim como objeto de reflexão. Em contraste ao sentimento de dor e perda que o tema da morte traz, vê-se também a celebração da vida e do amor - Gullar havia encontrado um novo amor em sua segunda esposa, a poetisa Cláudia Ahimsa.

"Muitas Vozes" reúne 54 poemas divididos em quatro partes, sendo que a primeira não recebe nenhum título e as outras três são "Ao rés da fala", "Poemas recentes" e "Poemas resgatados". Ao contrário das outras partes, "Ao rés da fala" surpreende pelo ineditismo de alguns de seus temas. Nesta parte, Gullar trata de fatos marcantes em sua vida e chega a dedicar poemas a familiares seus, algo que ele jamais havia feito até então. Estão em "Ao rés da fala", por exemplo, poemas que tratam de seu exílio no Chile e da morte de sua primeira esposa.

Por fim, convém ressaltar que após anos de experimentação literária e busca por novas formas de fazer poesia, Gullar volta a realizar em "Muitas Vozes" poemas metrificados e rimados - como pode-se notar mais fortemente na terceira parte do livro, "Poemas recentes". Em seus livros anteriores, a maior preocupação era com a subversão da linguagem, buscando através da escrita "dizer o indizível", como definiu o próprio escritor, e trazer em forma de poema a própria vida. 

Já em "Muitas Vozes" a preocupação central de Ferreira Gullar parece ser a própria palavra e em diversos poemas ele apenas "escuta", "observa" e "reflete" a vida. Assim, o título do livro pode ser compreendido como a reunião das "muitas vozes" que possuem a poesia de Gullar: as experiências com a poesia formal, o concretismo e neoconcretismo, as temáticas da morte, infância, vida e diversos outros aspectos da poesia do escritor estão todos presentes em "Muitas Vozes".

Poemas representativos
"Queda de Allende"
Nesse poema composto em três partes, Gullar volta a refletir sobre suas experiências no Chile. Na primeira parte do poema, o eu-lírico conta sobre o leite que comprou sem saber que nem chegaria a bebe-lo. Já na segunda parte ele fala que mesmo estando à caminho do movimento de resistência ao golpe político, entra na fila para comprar cigarro;. Por fim, na terceira parte o eu-lírico conta sobre os jovens que jogam futebol nos intervalos do tiroteio.

Ao contrário do sentimento de coragem ao defender o presidente Allende que se encontra no poema "Dois poemas chilenos" (do livro "Dentro da noite veloz"), aqui o eu-lírico se preocupa em garantir o sustento do dia-a-dia e observa os jovens que continuam sua vida sem se importar com os acontecimentos que os cercam. Assim, quem fala no poema é o homem comum, despido de qualquer ideologia ou mitificação política.

"Não-coisa"
Esse poema trata de um tema muito recorrente na poética de Ferreira Gullar que é a preocupação com o fazer-poético. Assim, esse é um poema metalinguístico, ou seja, que trata sobre o próprio ato de escrever poemas. Através de uma série de evocações sensoriais (olfato, visão, etc), o poeta chama a atenção para o fato de que um poema é um conjunto de palavras vazias e que só ganha sentido quando é preenchido pelas inúmeras vozes do "nós". Essa pluralidade de vozes dentro de um poema também é motivo do poema "Muitas vozes", que segue "Não-coisa".

"That is the question"
Mais uma vez o poeta revisa um de seus poemas antigos. Aqui, Gullar reescreve "Dois e dois: quatro" (Dentro da noite veloz), um de seus poemas mais famosos. Em "Dois e dois: quatro" o clima é de mesmo diante das dificuldades deve-se lutar e seguir em frente, pois "a vida vale a pena". Já em "That is the question" o poeta substitui a certeza matemática por uma pergunta que remete ao famoso "to be, or not to be: that is the question", de Shakespeare, e reformulado por Oswald de Andrade no Brasil como "tupi or not tupi". A certeza que se encontrava na ação política é substituída pela incerteza existencial e do próprio fazer literário. Aceitar ou detonar o poema significa aceitar ou negar a ilusão de que um texto é resultado da transformação de uma subjetividade (espaço íntimo onde o indivíduo se relaciona com o mundo social e externo). Tanto aceitando, quanto detonando o poema, ele estaria compactuando de alguma forma com a lógica burguesa contra a qual lutou em "Dois e dois: quatro".

Comentário do professor
O professor Marcílio Lopes Couto, do Colégio Anglo, comenta que é importante ter em mente que Ferreira Gullar surge ligado à duas tendências: uma seria a poesia concreta e outra a temática social. Assim, sempre foi um destaque na obra do poeta o esforço de modernizar a linguagem poética e também o esforço de falar sobre a realidade brasileira. A obra "Muitas Vozes" pode ser vista como uma síntese de toda a poética de Gullar, estando presente os temas mais caros ao escritor e trabalhados de diversas formas e estilos. 

Além disso, essa obra possui um caráter autobiográfico, onde Gullar trata sobre a infância, sexualidade, pessoas próximas à ele, familiares e outros temas íntimos numa tentativa de resgatar sua própria história. Porém, destaca o prof. Marcílio, ao falar de si próprio através e formas e conceitos estéticos variados, Gullar não abandona o outro e adquire um tom universal. Dessa forma, as "muitas vozes" pode significar também as diversas vozes que compõem o poema, além da do próprio escritor. Por fim, essas "vozes" também fazem referência ao próprio som, pois é um livro que trata muito sobre o barulho, o ruído, o som e, porque não, do silêncio.

Sobre Ferreira Gullar
José Ribamar Ferreira nasceu em 10 de setembro de 1930 em São Luís, Maranhão. Ao completar 18 anos, mudou seu nome para Gullar, uma adaptação do sobrenome de sua mãe, Goulart. Sobre a mudança de nome, Ferreira Gullar declarou que se tudo na vida é inventado, ele também inventaria seu nome.
Publicou seu primeiro livro, Um pouco acima do chão, em 1949, mas esta obra acabou sendo excluída de sua bibliografia oficial. No ano seguinte ganhou um concurso promovido pelo Jornal de Letras com o poema "O galo". Em 1951, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor na revista "O Cruzeiro". Além dessa, trabalharia também em outras revistas e jornais.

Em 1954, publicou A luta corporal, chamando a atenção dos irmãos Campos e outros grandes nomes do movimento concretista. Dois anos depois, participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Em 1959, publica o "Manifesto Neoconcreto" no "Suplemento Dominical" ao lado de Lygia Pape, Amilcar de Castro e outros.

Em 1964 filia-se ao Partido Comunista e funda o Grupo Opinião com Paulo Pontes e outros. Dois anos depois, a peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come ganha os prêmios Molière e Saci.
Ferreira Gullar é preso durante a ditadura militar em 1968 e parte para o exílio em 1971. Nessa época reside em Moscou, Lima e Buenos Aires, colaborando para o semanário "O Pasquim". Em Buenos Aires escreve sua mais famosa obra, Poema Sujo, que foi publicada no Brasil em 1976 e serviu como um ato pela volta de Ferreira Gullar ao país. No ano seguinte, ele retorna ao Brasil. Desde então, o poeta publicou diversos outros livros e ganhou vários prêmios.

Suas principais obras são: "A luta corporal" (1954), "Dentro da noite veloz" (1975), "Poema sujo" (1976) e "Muitas vozes" (1999). Além dessas obras, Gullar publicou também contos, crônicas, peças de teatro e ensaios sobre arte e literatura.

 

disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/muitas-vozes-analise-obra-ferreira-gullar-700310.shtml

 

 

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