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*educar para salvar *

17

out
2014

Cosmovisão Bíblica Educacional Adventista

 

Definição de Cosmovisão

Uma Cosmovisão é baseada num conjunto de crenças sobre os temas principais da vida que, como seres humanos, devemos inevitavelmente encarar. A nossa cosmovisão em particular determina as lentes ou filtros que utilizamos para interpretar a realidade. Este processo molda aquilo que cremos, afecta o modo como vivemos, forma a nossa opinião, e governa as nossas acções, inacções ou reacções ao longo da vida. 

"Uma cosmovisão é o ângulo particular a partir  do qual se olha para a realidade. É o conjunto de explicações que se dão para o que existe. A cosmovisão compõe-se de afirmações elementares. Cada pessoa assume-a a seu modo de forma particular" (Smith, 2004, p. 42, trad.
autor).       

Rasi (2000) define Cosmovisão como um modo de pensar pré-filosófico ou pré-científico, muitas vezes não articulado conceptualmente, e diz que o processo de desenvolvimento de uma Cosmovisão pessoal ocorre durante os anos da juventude, como resultado das influências familiares, educativas e sociais entre os 15 e os 25 anos. Cabe então escola ajudar os seus alunos a formarem uma Cosmovisão dentro dos parâmetros bíblicos.

Embora ninguém assuma ter uma Cosmovisão, todos a têm. Ninguém pode subsistir sem ela. É um legado obrigatório. Todos os seres humanos estão compelidos a assumir a sua Cosmovisão, ainda que seja de maneira inconsciente, e esta tem sempre origem na necessidade do homem de buscar um sentido para as coisas perceptíveis, é o que afirma Casarramona (2006).

Pressupostos básicos

Matos (1999) diz que, na perspectiva cristã, uma Cosmovisão deve sempre iniciar-se com Deus, que é a realidade primeira, é um Ser transcendente e pessoal, que é o Criador de todas as coisas existentes. Na sua opinião, é a partir desta verdade fundamental que emergem os pressupostos básicos da Cosmovisão bíblica
educacional.

Alvarez (1994) acrescenta que uma Cosmovisão adventista deve reflectir-se em todas as áreas de acção da escola, sobretudo na elaboração do programa académico, e o mesmo deve ocorrer com todas as actividades curriculares, sejam dentro ou fora das aulas. Portanto, a filosofia educacional adventista precisa de estar baseada numa sólida Cosmovisão bíblica, pois é a partir da Cosmovisão que se elabora a filosofia.

Segundo Smith (2004), o processo de cimentação de uma cosmovisão não surge do nada. Começa no
círculo íntimo de relações pessoais no qual iniciamos a vida e também afecta a reflexão pedagógica, porque esta se baseia em construções mentais prévias. Assim que, a crença numa das duas cosmovisões, bíblica ou não bíblica, tem
consequências directas na maneira de elaborar uma pedagogia. 

A Crise do Sistema

Vivemos uma crise do sistema educativo, e não é devido a um ensino fraco ou sem fundamento. Essa situação deve-se a teorias educacionais que negam a existência de uma verdade transcendente e da moralidade, que renunciam a padrões de excelência. Temos de aprender a analisar e criticar as cosmovisões que formam esses métodos
pedagógicos desastrosos, para então oferecer uma cosmovisão alternativa decisivamente bíblica - que produzirá uma teoria de educação capaz de dar aos educandos uma verdadeira educação.

Na verdade, a nossa "cosmovisão educacional" tem que se diferenciar das modernas visões educacionais, geralmente humanistas. É esse princípio bíblico que deve determinar por onde devemos seguir, qual o caminho a trilhar para desempenhar um papel à altura do plano de Deus elaborado para as Suas escolas. 

"O cristianismo bíblico dos nossos dias trava um forte combate com duas posturas teológico-filosóficas, respectivamente, a da cosmovisão panteísta e a da naturalista. Refiro-me ao secularismo e ao
neopanteísmo"
(Rasi, 2000, p. 31).

No quadro a seguir, desenvolvido por Rasi, temos um contraste claro entre estas três correntes, o cristianismo bíblico, o humanismo secular e o neopanteísmo.

Humanismo Secular

Cristianismo Bíblico

Neopanteísmo

  1. 1.  Realidade Fundamental

Matéria e energia inanimadas.

Um Deus infinito, transcendente, que actua no Universo e
  tomou a iniciativa para Se tornar conhecido pelos seres humanos.

 

O Universo espiritual que é Deus/Um/Tudo.

2. Natureza
  de Deus

Deus é um mito.

Um ser pessoal (triúno) activo na criação, perfeito
  moralmente, Omnisciente, todo-poderoso.

Deus/Um/Tudo, uma entidade impessoal e amoral.

3. Origem do
  Universo e da Vida

O Universo é eterno e opera como um sistema uniforme e fechado
  de causa e feito. Ou, segundo a teoria do Big Bang, o Universo apareceu
  repentinamente, inexplicavelmente.

 

Criado por Deus, pelo poder de Sua Palavra. O Universo opera
  como um sistema uniforme e aberto de causa e efeito.

 

Manifestação de Deus/Um/Tudo, que são eternos.

4. Como
  conhecer a Verdade

Mediante a razão e a intuição humanas, operando segundo o método
  científico.

Auto-revelação de Deus em Jesus Cristo, mediante a Bíblia,
  a consciência e a razão iluminadas pelo Espírito Santo.

Mediante o treino, introspecção e revelação sobrenaturais
  de Deus/Um/Tudo.

5. Natureza
  do Ser Humano

Um complexo mecanismo vivente; um animal altamente evoluído.

Um ser físico-espiritual, criado por Deus à Sua imagem,
  dotado de personalidade e capaz de decisões morais livres, agora em condição
  caída.

Um ser espiritual e parte do Deus/Um/Tudo, residindo
  temporalmente num corpo físico.

6. Propósito
  da Vida Humana

Incerto e discutível: auto realização, prazer, serviço ao
  próximo, melhoria da próxima geração.

Honrar a Deus empregando o nosso potencial, servindo ao
  próximo e preparando-nos para a eternidade.

Transição com vistas a um avanço (ou retrocesso) até
  alcançar a união total com Deus/Um/Tudo.

7.
  Fundamentos das Normas Morais

A opinião da grande maioria; costume da época; circunstâncias
  específicas; convivência.

 

O carácter imutável de Deus (justo e misericordioso), revelado
  em Cristo e na Bíblia.

 

Os impulsos e inclinações naturais; não existe conduta
  "correcta" ou "incorrecta".

8. Problema
  Humano Principal

Ignorância da realidade e do verdadeiro potencial humano;
  legislação justa, governo mais capacitado, maior compreensão e cooperação
  humana.

Pecado: rebelião consciente contra Deus e os Seus
  princípios; propósitos de intronizar o ser humano como
  autoridade autónoma e auto-suficiente; como resultado, desfiguração da imagem
  de Deus no ser humano e sofrimento universal.

 

 

Ignorância da realidade autêntica e do verdadeiro potencial
  humano; falta de compreensão das mensagens sobrenaturais.

9. Solução do
  Principal Problema Humano

Discutível: melhor educação, maior apoio à ciência, avanços
  tecnológicos, legislação justa, governo mais capacitado, maior compreensão e
  cooperação humanas.

Renascimento espiritual: fé na redenção divina mediante o
  sacrifício de Cristo na cruz, que conduz a uma vida de obediência a Deus, de
  auto-compreensão apropriada e amor genuíno ao próximo.

 

Transformação da sensibilidade, que conduz a uma melhor auto-compreensão,
  melhores relações interpessoais e cuidado da biosfera: auto-redenção.

10. A Morte

O fim último da existência em todas as suas dimensões

Um parêntese em estado inconsciente [à espera da
  ressurreição em Cristo].

Uma ilusão; ingresso à seguinte etapa na vida cósmica;
  reencarnação.

11. A
  História Humana

Inapreensível, guiada pelas decisões humanas e por forças
  misteriosas e incontroláveis.

Uma sequência compreensível de eventos dirigida por livres
  decisões humanas e também orientada por Deus, encaminhando-se para a
  realização de um grande plano divino.

 

Um processo cíclico até alcançar o destino final de união com
  Deus/Um/Tudo.

12. Destino
  Final da Existência Humana

 

O nada.

Seres transformados, com vida eterna numa Terra renovada e
  num Universo perfeito, ou aniquilação total para os que desprezam a redenção
  gratuita oferecida por Deus.

 

 

União eterna com Deus/Um/Tudo.

Figura 1: contraste entre três correntes actuais, o cristianismo bíblico, o humanismo secular e o
neopanteísmo.

 

Transposição da Cosmovisão Bíblica para Pratica Educacional

Contudo, o grande problema da nossa cosmovisão não é tanto o facto de ela ser teísta e criacionista, mas sim a transposição da nossa filosofia educacional para a prática educacional, para o currículo, para o dia-a-dia do educando e da educação, afirma Ritter (2005). Diz ele ainda que a nossa ontologia (visão da realidade) é muito vasta - considera Deus como Criador e o homem como Sua criatura, uma criatura que necessita de se reaproximar de Deus; que a nossa epistemologia (teoria do conhecimento) tem Deus como Fonte última do conhecimento e Autor dos critérios para a sua validação, sendo, portanto, um conhecimento directo (interacção directa com a realidade - viver a realidade-percepção).

Permear a nossa educação com essa epistemologia no meio de tantas outras é um desafio. Requer uma metodologia bem diferente das que estão em voga, garante Ritter (2005), uma metodologia que integre as diversas fontes e formas do conhecimento e faça coerentemente, transferindo para a vivência prática.Nossa cosmovisão educacional é completada por um rico elenco de valores, precedida por valores espirituais e religiosos, seguidos por valores intelectuais e corporais e completados por valores práticos, vocacionais e materiais.

 

Conclusão

Cada educador cristão que busca sempre a coerência com os ensinos bíblicos devem conhecer bem os dois lados da moeda, deve estar em perfeita harmonia com os princípios exarados pela palavra de Deus, onde encontra-se a verdadeira fonte do conhecimento em Jesus, "em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos." (Colossenses 2:3).

Esta verdadeira educação parte do princípio de que as crianças não são meros organismos biológicos que se adaptam ao ambiente. Elas foram criadas à imagem de Deus e carregam em si toda a dignidade de seres capazes de reconhecer a verdade, a bondade e a beleza. A meta da educação deveria ser alimentar as almas das crianças através de uma apresentação directiva desses ideais objectivos.

Finalmente, a educação é um dos meios que procuramos usar para inverter os efeitos da queda e restabelecer a dignidade e os propósitos originais da humanidade. A meta da aprendizagem é reconstruir as ruínas devidas às escolhas dos nossos primeiros pais. A base de toda a filosofia dos seres humanos trata da origem, natureza e destino do homem - de onde viemos, para onde vamos e quem somos. A filosofia da educação cristã também trata dos três temas, e é esta filosofia que nos dá base para construirmos a educação, portanto trata da origem, da natureza e do destino do homem - estuda o plano da redenção. Plano este que é nada mais, nada menos, que a obra da redenção.

A educação é a grande arena da guerra espiritual travada no mundo, um campo de batalha para onde deveríamos trazer a cosmovisão cristã para ser difundida: repelir o poder do adversário e reivindicar para Cristo a totalidade do território da mente e do espírito dos nossos alunos.

 

BIBLIOGRAFIA

Alvarez, Marcelo Carvajal. (1994). La ética Cristiana en las realciones interpersonales en el contexto de un colégio o universidad adventista. Christ in the classroom, vol. 13, pp. 41-60. Humberto M. Rasi (Comp.), Silver Spring, MD; USA: Institute for Christian Teaching, Education Department, General Conference of Seventh-day Adventists. 

Casarramona, Mirta Inês Posse. (2006). Material de classe não publicado ditado na matéria "Pedagogia Comparada" do Mestrado em Educação. 

Matos, Admir J. Arrais. (1999). "Integrando fé e ensino na área de ciências", in revista  Escola Adventista, vol. 4, 3, pp. 20-24; UNASPRESS, S. P.

Rasi, Humberto M. (2000). "Cosmovisão, valores cristãos e liderança educacional", in revista Escola Adventista, vol. 5, 4, pp. 29-33; UNASPRESS, S. P.

Ritter, Orlando Rubem. "Em busca da escola adventista ideal". [Consulta em 01 de Julho de 2005] Disponível na Internet: http://www.san.org.br/NPViewArticle.asp?cmd=view&articleid=35>

Smith, René. (2004). El processo pedagógico: Agonia o resurgimiento?, México: Universidade de Montemorelos.

 

Elaborado por: Pr. Eduardo Vieira Camargo

 

 

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